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Groucho Marx e o kantismo na ciência

O professor Miguel Nicolelis deu uma entrevista a O Globo em que resume as ideias básicas do livro que acaba de lançar sobre epistemologia e cognição. Editei o texto e cortei muito pouco. Eis os trechos que achei mais relevantes:

“Queria mostrar que de fato o cérebro é o verdadeiro criador de tudo, por ser o órgão de nosso corpo responsável por criar nossa percepção de realidade. Poucos pensam nisso. O cérebro é como um filtro que nos dá uma interpretação do que há no universo, criando uma versão que somos capazes de entender. Nós lhe damos significado, nomes, estabelecemos relações de causa e efeito, regras como as leis da física e do universo. E ao fazermos isso, criamos uma narrativa do que é o universo.

(…) Estou falando do cérebro (…) como o criador da realidade. Uma das principais formas de o cérebro fazer isso é absorver tudo o que é informação potencial. E só se torna informação por causa da interferência do cérebro, que assim cria realidade.

(…) Ciência, matemática, filosofia, causalidade, espaço e tempo, religião, mitologia, arte, são alguns exemplos das abstrações mentais criadas pelo cérebro para, de alguma forma, dar sentido ao que existe aqui fora. O cérebro não está tentando copiar a realidade em seus mínimos detalhes, mas basicamente tentando otimizar nossas chances de sobrevivência com base no que pode absorver do universo.

(…) E o interessante é que provavelmente jamais seremos capazes de explicar totalmente a realidade, porque estamos limitados por esse filtro, chamado cérebro.”

Miguel Nicolelis, “O Verdadeiro Criador de Tudo, – Como o Cérebro Humano Esculpiu o Universo como Nós o Conhecemos”. O Globo, 26/07/23


Algumas consequências mais ou menos evidentes se depreendem do texto:

  1. Há uma abismo ontológico entre a mente e o mundo: não sabemos o que é o mundo de fato.
  2. Isso implica numa “teologia negativa do mundo”: o mundo é insabível.
  3. Não há verdade, portanto. Sobretudo, não há verdade das coisas.
  4. O senso comum é um agente de falsidade: só os “iniciados na ciência” sabem o que mundo é.
  5. Quem controla a “interpretação do mundo” controla os homens.

Marquei em negrito uma afirmação que parece dispensável, mas é talvez a mais importante do texto: “Pouco pensamos nisso”.

Não é que poucos pensem nisso. As pessoas comuns simplesmente não pensam assim. Seguem intuitivamente ou naturalmente a epistemologia clássica que supõe uma relação de verdade entre a mente e o mundo e assume como critério de verdade a correspondência entre suas representações mentais e as coisas do mundo.

Os tais poucos que pensam assim estão na academia – e como se percebe mantêm uma relação de indulgente desprezo pelo senso comum.

E são eles próprios os produtores e disseminadores dessa “visão de mundo” distorcida que lhes confere o poder de detentores da “verdade negativa” sobre o mundo: o mundo, como diz Nicolelis, é de fato insabível.

A Ciência torná-se assim uma espécie de teologia negativa atéia da Natureza.

Foi Kant, o Gênio Maligno de Konigsberg, quem nos trouxe a este ponto., ironicamente ao pretender “abrir caminho para verdadeira fé” com essa epistemologia do absurdo.


Para compreender o básico dessa epistemologia kantiana que orienta a interpretação dos dados recolhidos pela ciência, encontrei um texto brilhante. Simples, claro, bem escrito por um kantiano, ao expor o pensamento de Kant, ele põe em evidência sua fraqueza.

Vale a pena ler a íntegra do texto, Republico aqui com todos os créditos e links.

Leiam.


Acho o texto excelente porque desde o título ele torna claro as consequências do kantismo: O livro que acabou com Deus.

Deixemos de lado as questões religiosas: não é disso que se trata, Mas já daí percebemos que a consequência teológica da epistemologia de Kant. A despeito de suas intenções, nunca, aliás, postas em dúvida, Kant nos conduz ao ateísmo mais radical – numa palavra: ao niilismo.

Mas, inicialmente, não é contra Deus diretamente que Kant se volta, mas contra o senso comum. Sua epistemologia é contrassensual. Isto é, ela afirma exatamente o oposto do que nossa mente nos assegura – a despeito de toda a epistemologia, chamemos clássica, que nele se funda e o sistematiza, desde Aristóteles.

Qua? a diferença fundamental entre as duas epistemologias?
Uma crê que a mente interpreta o Mundo. A outra, que a mente o Mundo.


A diferença é brutal, ontológica. Isto é, diz respeito ao modo como nos colocamos no Mundo.

Uma visão estimula a intimidade. A outra, a desconfiança.
Em uma, estou bem com a Natureza. Na outra, quero construir uma segunda natureza. Várias, na verdade. Precárias todas, mas sempre concorrentes. É a tentação totalitária, na expressão feliz de Revel. Porque todas se pretendem a mais exata.

Totalitária porque exclui o senso comum. “Conhecer a verdade” é privilégio de poucos.


Esses dois textos – o que reproduz as falas de Nicolelis e o resumo da epistemologia kantiana de De Santis e Garattoni – nos oferecem um visão clara e isenta (porque os autores acreditam no que dizem) do Mundo sob as lentes do kantismo

Então pergunto eu a você, leitor: é assim que você percebe o Mundo? É esse o seu “sentimento do mundo”, para repetir o título de um poema de Drummond?

Olhe à volta… O que você pensa ver? As coisas em si ou meras representações espaço-temporais determinadas por sua mente?

Acredito que, no mínimo, você dirá que não percebe que se engana ao atribuir um valor de verdade às suas percepções do Mundo. Nesse caso, vale a máxima de Groucho Marx: “Você vai acreditar em mim ou no que você está vendo?” Nao é à toa que a propaganda é tomada por arte.


Como é mundo de fato sob a ótica kantiana?

Impossível dizer, uma vez que não podemos de fato acessá-lo. Deixemos de lado a questão óbvia, primeira, de saber como sei que o Mundo me inacessível se ele me é inacessível, questão já colocada por Bertrand Russell, cheio de ironia, em uma de suas Historia da Filosofia Ocidental (ou nas duas).

Mas, insisto, o que eu veria se pudesse ver o Mundo para além (ou melhor: para aquém) das minhas representações mentais? Não veria nada. O Mundo no kantismo é insabível. Não há Mundo; não há, portanto, corpo; não há, portanto, sensualidade – em qualquer sentido: vulgar, trivial ou filosófico.

Nada tem consistência ontológica: a importância objetiva é substituída pelo valor subjetivo.

Por consequência, cria-se uma desconfiança de tudo que é natural. A Natureza torna-se um tenebroso mistério. Por outro lado, passa-se a valorizar tudo que é artificial, humanamente produzido. E esse é dado importante e muito pouco ressaltado, que explica em parte o ponto a que chegamos na nossa relação com a Natureza e as dificuldades que teremos para superar esse impasse.


Finalmente, uma observação necessária.

Não é minha intenção polemizar com Nicolelis. Não duvido de sua capacidade como cientista. Minha questão gira em torno da epistemologia que ele aplica para interpretar os dados que produz como cientista.

É importante também ressaltar que eu falo de uma perspectiva do senso comum. Essa perspectiva está mais ou menos amparada no que chamei de epistemologia clássica, que remonta a Aristóteles.

Para uma abordagem erudita e, digamos, up-to-date, dessa questão, há o livro de Bento Prado Jr., Ipseitas, à venda na Amazon. Não é leitura fácil.


Já publiquei um texto mais longo sobre Kant, O Caso Kant, onde faço uma comparação mais detalhada entre essas duas abordagens epistemológicas.

4 comentários

  1. […] o evolucionismo, As inconsistẽncias do evolucionismo .Há também uma série que começa com Groucho Marx e o kantismo na ciência e segue por uma sequencia de artigos numerados todos sob o mesmo título: O Ser se diz de muitos […]

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