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Feliz Natal

Passei dezembro inteiro sem receber sequer um “Feliz Natal”. Há anos, eu previra que isso aconteceria um dia. Até demorou, na verdade – pelo menos para chegar ao “zero absoluto”. Para mim, é triste. Mais uma evidência de que o mundo como eu o conheci – em seus aspectos fundamentais – já não existe ou já quase se desvaneceu no ar como uma nuvem que parecia Papai Noel em seu trenó de renas e agora não é senão nuvem.

Quando eu era menino, a partir de meados de novembro as pessoas começava a se desejar “Feliz Natal” a cada encontro. Era um complemento ao obrigatório “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite”. Com o passar das semanas, a coisa evoluía para um “vai passar aonde?”, respondido com detalhes que iam aumentando o mútuo conhecimento entre vizinhos e conhecidos do cotidiano: o caixa, o balconista, o jornaleiro – gente que também já nem existe mais ou quase não vemos.

Para nós crianças dizer “Feliz Natal” era uma forma de imitar os adultos, de penetrar um pouco mais no mundo deles, mas sobretudo um jeito de ganhar pontos com Papai Noel, Papai do Céu, o Menino Jesus, Nossa Senhora – enfim, a turma toda – num momento em que estavam em jogo nossos presentes de Natal. Aliás, uma espera excitante que envolvia nossas primeiras questões metafísicas: Papai Noel existe? Se existe, como consegue dar conta de tantos presentes mundo afora? Qual a relação dele com Deus e os anjos? Nem preciso pensar muito pra sacar que as questões seguem as mesmas, só mudaram os embrulhos.

Mas, do que mais gosto de lembrar é do imenso presépio montado nas Lojas Americanas (ou eram as Lojas Brasileiras?) aqui de Caetânia, bem ao lado de nossa Rua. Ocupava quase toda a largura do fundo da loja, uns dez metros talvez, com suas figuras de um tamanho que me parecia quase real, algumas animadas, e um riachinho de água mesmo! – que corria em volteios por todo o presépio e fazia girar um moinho. No centro de tudo, o Menino Jesus cercado de bichos, de Nossa Senhora e São José, e dos Três Reis Magos. Eu todos os dias pedia pra minha Mãe me levar lá e ficava olhando, olhando, olhando – até que a Vida tivesse de seguir seu caminho: “A gente volta amanhã.”

Mal sabia eu – ou já desconfiava, naquele fatalismo tão próprio da infância – que “amanhã” um dia não haveria mais.

2 Comments

  1. Maria de Lourdes

    Adorei sua crônica de Natal
    Muita coisa vem mudando e, infelizmente, para pior
    Vc tem toda razão , as pessoas deixaram de lado esses votos de Feliz Natal…

    • Obrigado, Lourdes! Muita coisa aparentemente perderam-se, mas a gente também já aprendeu que nessa vida tudo vai e volta – então, quem sabe, as gerações futuras não recuperarão esse espírito de Natal que hoje parece perdido?

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