Ouvindo Herbie Hancock falar da sabedoria de Miles, lembrei do Kim, de uma história que já contei aqui algumas vezes…
Fui visitá-lo em Brasília quando ele estava se tratando de um câncer. Uma noite, a gente conversava na cozinha da chácara onde ele morava no Lago Norte quando ele, carequinha do tratamento,
(na verdade, sem um pelo sequer: cabelos, sobrancelhas, cílios – nada. Por isso, eu e a Deise o apelidamos de Dr. Pururuca: nessa época ele estudava medicina chinesa, e gordinho que era, pelado daquele jeito e meio tostado de sol e radioterapia, ele parecia um leitãozinho à pururuca),
lembrando do tempo em que trabalhara com o Glauber Rocha, que era primo dele e o viera buscar em Brasília para ajudá-lo a terminar Idade da Terra, Kim me contou que Glauber, numa daquelas conversas loucas e intermináveis dos dois, lhe disse: “Kim, tudo é bom!”.
Tudo é bom: nunca esqueci isso.
E isso é a essência da jam session, do improviso sem fim do “uma coisa puxa a outra” : pura positividade, pura continuidade – não há vazio, não há fato negativo.
Por isso, na fala do Hancock, o único vestígio de erro que eu vejo é ele ainda pensar em termos de remédio e cura, de acerto e erro: não há doença, não remédio, não há cura – tudo é bom, tudo é vida.