Antes de começar, duas observações:
1) Este texto não supõe necessariamente a leitura da entrevista na Folha (https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2025/08/ser-humano-nao-tem-e-nunca-teve-livre-arbitrio-diz-cientista-robert-sapolsky.shtml) que está sob um paywall, já que vou dissecando a entrevista quase frase por frase. Mas por uma questão de justiça e rigor é sempre bom ir às fontes (e quebrar um paywall nem é uma tarefa assim tão complicada).
2) Escrevi esse longo texto, que, acho, é do interesse especialmente de terapeutas, porque a “visão de mundo” exposta por Sapolsky é no mínimo influente e afeta sobretudo os mais frágeis.
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Há seis meses atrás, em agosto, saiu no UOL/ Folha uma entrevista cujo título me soou ao mesmo tempo pretensioso e absurdo: “Ser humano não tem e nunca teve livre-arbítrio, diz cientista Robert Sapolsky”. Separei para ler depois porque sabia que lá estava mais um a tagarelar com sucesso sobre o que de fato não entende.
Não deu outra. A entrevista é uma sucessão de erros que só evidenciam a completa ignorância de Sapolsky sobre conceitos próprios da Metafísica – liberdade, contingência, livre-arbítrio, vontade, matéria e forma, complexidade, tempo – e por aí vai…
A coisa é tão ruim que eu nem sabia por onde começar. Decidi escrever uma análise da entrevista, gravar em vídeo algumas observações sobre os erros conceituais filosóficos e depois, escrever um segundo texto explorando mais o tema conceitual.
A tentativa de nos empurrar Sapolsky como autoridade no assunto começa pela apresentação de suas credenciais: professor da Universidade Stanford, fez graduação em bioantropologia em Harvard e doutorado em neuroendocrinologia na Universidade Rockefeller, ambas nos EUA. Além de “Determinados”, é autor de “Memórias de Um Primata” (2004), “Por Que As Zebras Não Têm Úlceras” (2008) e “Comporte-Se” (2021). Ou seja, nada o qualifica a se meter em Filosofia.
O resumo do pensamento de Sapolsky, escrito pelo entrevistador à guisa de introdução, chega a ser ingênuo: “Para entender qualquer comportamento humano, diz o neurocientista e primatólogo americano Robert Sapolsky, 68, é preciso entender toda a cadeia de fatores que o influenciaram.”
Isso é a princípio não quer dizer nada, uma afirmação genérica que pode ser aplicada em algumas circunstâncias talvez, sobretudo no Direito – e só. Não é difícil aceitar que as circunstâncias têm valor no julgamento e interpretação das ações humanas, mas não é difícil perceber que elas não são suficientes. Sim, isso é o senso comum. E é contra ele que Sapolsky se volta.
O entrevistador continua: “Ou seja, tem que levar em conta o que aconteceu horas antes, meses antes e mesmo décadas, séculos e milênios antes, quando a pessoa ainda estava na barriga de sua mãe ou quando seus ancestrais eram moldados pela história. Em nenhum ponto dessa trama interminável de causas seria possível falar em livre-arbítrio.”
Por que não se poderia? Porque se trata de uma “trama interminável de causas”, presume-se. Mas o que tem isso a ver com livre-arbítrio? No entanto, a expressão “moldados pela história” já nos uma indicação de para onde estamos indo.
E Sapolsky avançará rápido, com a ajuda do entrevistador, um companheiro de viagem: “Uma coisa curiosa do livro é o fato de que pessoas como neurocientistas e filósofos, que não deveriam ter um apego muito grande à ideia de livre-arbítrio, acabam defendendo o conceito com unhas e dentes. E isso mesmo depois de deixarem de lado as bases religiosas e metafísicas dessa ideia.”
Não sei dos neurocientistas, mas de onde o entrevistador – e Sapolsky, suponho – tirou a ideia de que filósofos não deveriam “ter apego” à ideia de livre arbítrio? E que história é essa de “bases religiosas e metafísicas dessa ideia”?
De cara, essa confusão entre religião é metafísica é absurda e já denota ignorância. Segundo, a Filosofia não rejeitou a Metafisica pela simples razão de a Metafisica ser uma condição de possibilidade da Filosofia. Dito de outro modo, a pretendida “negação da metafísica” é apenas mais uma escola metafísica e não alguma espécie de “corte epistemológico” como quer essa turma de que faz parte Sapolsky: kantianos, marxistas e positivistas; materialistas, idealistas e analíticos.
De onde Sapolsky tira, por exemplo, a ideia a seguir: “Já no caso dos filósofos profissionais, as pesquisas sugerem que entre 90% e 95% se identificam como compatibilistas. Ou seja, eles afirmam: “É, o mundo é feito de átomos, assim como nós e tal, mas de algum jeito aí ainda existe espaço para o livre-arbítrio”.
Eu não consigo imaginar um – um único – filósofo sério que misture desse modo Física e Metafísica.
Mas Sapolsky não se abala: “E, quando você olha com cuidado para os argumentos deles, sempre, em algum lugar lá dentro, eles enfiam algum elemento mágico para explicar isso. Mas não: o Universo, o cérebro, os neurônios não funcionam desse jeito.”
o que ele chama de “elemento mágico”? Simples, qualquer conceito que não seja estritamente materialista.
Em seguida, o delírio narcisista: “Mas não: o Universo, o cérebro, os neurônios não funcionam desse jeito.”
Ou seja: ele domina todos os ramos do conhecimento e produziu a tão sonhada “unificação do conhecimento”, a “teoria de todas as teorias”. A semelhança com a fantasia juvenil do marxismo original de Marx e Engels, do seu “materialismo dialético” não é obra do acaso, mas uma escolha. É a Escolinha de Viena do professor Adorno nível quinta série.
E o delírio segue: “Sobre a razão para tanta resistência, é porque essa ideia é perturbadora demais.”
Isto é: todos os que discordam dele, são pessoas frágeis – não só intelectualmente, como já vimos, mas emocionalmente também.
Como é praxe entre maus argumentadores, ele abusa de atribuir aos adversários argumentos idiotas contra os quais ele mesmo se volta – são seus moinhos de vento: “A primeira reação é uma espécie de alarme cívico. “Ah, que ótimo, vamos deixar os assassinos soltos nas ruas” ou algo assim, o que é bobagem. É um tipo de alarme religioso.”
Quem afinal reage com esse tipo de “alarme cívico”? Que eu saiba ninguém, ninguém salta da ausência suposta de livre-arbítrio para inimputabilidade de assassinos e outros criminosos – só um imbecil talvez. Ao contrário, a consequência jurídico-penal óbvia da tese sapolskiana seria a transformação dos presídios em manicômios judiciários e a medicação em massa dos encarcerados.
Segue-se outro contra-argumento idiota produzido sob medida: “Também há quem adote uma postura muito fatalista: “Você está dizendo que nada nunca vai mudar no mundo”, ou seja, nem adianta tentar.”
De onde alguém tiraria essa consequência da falta de livre-arbítrio? O máximo seria supor que não temos controle individual sobre as mudanças do mundo, da sociedade, etc. e que elas ocorrerão por si mesmas – movidas talvez pela História com H maiúsculo, como queria o marxismo juvenil de Marx e Engels, o seu materialismo histórico que reduzia os indivíduos a meros epifenômenos ideológicos.
A seguir, a inconsistência bate no topo: “Quando você começa a escutar esse pessoal mais acadêmico para entender de onde vem a postura deles, percebe que, na maior parte dos casos, a visão é a seguinte: “Não venha me dizer que eu não mereço elogios pelo meu trabalho duro. Não venha me dizer que não foi por mérito que eu me matei para conseguir meus títulos e minha cátedra chique de professor Fulano de Tal”.
Ele então não faria parte desse “pessoal mais acadêmico”, é isso? Não, não é bem isso, apesar de sua cultivada aparência de primata, de “homem da natureza’. Ele não faz parte é dessa turma de pessoas egoístas e interesseiras que temem perder poder por conta da “verdade do hiperdeterminismo”. Ou, como ele mesmo diz, supostamente repetindo seus adversários:”Não venha me dizer que não foi por mérito que eu me matei para conseguir meus títulos e minha cátedra chique de professor Fulano de Tal”.
Não, não: ele não faz parte dessa turma… E o seu hiperdeterminismo é mais uma vítima da má-fé dos “acadêmicos”.
E ai, enfim, a carteirada final de marxista juvenil: “Então, parece ser um conforto para a classe dominante.” Classe dominante? Estava demorando…
E lá vamos nós ladeira abaixo: “Mas mesmo jogando fora tudo isso, lá no fundo ainda sobra o terror existencial de por que deveríamos nos importar com alguma coisa se somos só máquinas. É duro de enfrentar. É assustador, mexe com nossas intuições mais básicas. Seus privilégios passam a ser vistos como coisas que você não conquistou de verdade.”
Ou seja: as questões centrais da Filosofia são reduzidas ao terror existencial de não se perceber que todos os argumentos contra o hiperdeterminismo são pura “ideologia de classe”.
Como o entrevistador é ele mesmo um “convertido”, a inconsistência pomposa segue com facilidade seu caminho: “No livro, o sr. diz que até mesmo outros primatas parecem ter essa intuição instintiva de que o livre-arbítrio existe. Seria um jeito de pensar útil para a vida em sociedade, para saber quem é confiável e quem não é?”
Voltamos ao utilitarismo do século 19 tão caro ao evolucionismo juvenil. E repare: ele é um materialista, um antimetafísico, um ateu – mas existe algo (um Inconsciente Coletivo? uma Essência Comum? A História? A Natureza?) que se move segundo o útil. Só que o apelo ao útil, como o apelo à “sobrevivência do mais apto” é um argumento circular – ele só se prova a posteriori: o que ou quem se impõe ou sobrevive? O mais útil ou o mais apto. Mas o que é ou quem é mais útil ou mais apto? o que se impõe ou sobrevive. Uma petição de princípio que qualquer aluno de lógica elementar percebe há pelo menos 2500 anos.
A resposta de Sapolsky chega a ser engraçada, mas fiquemos só com a repetição do recurso de inventar contra-argumentos idiotas: “Poucos seres humanos estão dispostos a sentar e dizer: “Espere aí. Vamos tentar entender como aquela pessoa se tornou quem é e se ela realmente tinha algum controle sobre isso”.
Como assim, “poucos seres humanos”? Fazemos isso há pelo menos 2000 mil anos, mas não precisamos ir tão longe: estão aí todas as terapias, toda uma literatura ficcional, um bando de filmes e peças de teatro, etc, etc. O drama existe exatamente aí, na tensão entre a vontade singular e as circunstâncias.
Que círculos esse senhor frequenta? Já sabemos: kantianos, marxistas e positivistas.
E claro, na sequência, como não dava pra encaixar Hitler e o nazismo, vamos de teoria quântica, com a ajuda mais uma vez do entrevistador: “Vemos outros pensadores usando elementos da ciência que não têm nada a ver diretamente com o comportamento humano, como a mecânica quântica e a teoria do caos, como possíveis bases para o livre-arbítrio. Por que eles buscam se apoiar nessas teorias complexas e distantes?”
Pra começar pelo óbvio: liberdade, contingência, vontade, livre-arbítrio são conceitos que já estavam aí há mais de dois mil anos quando os físicos os introduziram na Física – e não o contrário!
Claro existem picaretas e pseudopensadores que gostam de misturar as coisas. Mas, de novo: nenhum filósofo sério vai buscar na Física argumentos ou mistura as coisas desse jeito.
Dito isso, vamos à resposta de Sapolsky: “Se você não examina detidamente esse tipo de coisa, é fácil ficar com a impressão de que é possível produzir livre-arbítrio desse jeito, com coisas novas surgindo a partir do nada. E não é possível. As coisas não se libertam das suas propriedades físicas só porque um número muito grande delas está interagindo ao mesmo tempo. Ideias como a teoria do caos e a complexidade emergente são tão bonitas, tão interessantes, permitem explicar fenômenos tão complicados como a otimização da trajetória das formigas ou a organização dos neurônios no cérebro, que é tentador usá-las para dizer: é assim que nos transformamos em agentes de nossas próprias escolhas.”
A resposta é tão confusa que soa enigmática: “As coisas não se libertam das suas propriedades físicas só porque um número muito grande delas está interagindo ao mesmo tempo.”
Estamos diante do que Kant, vejam só, chamaria de antinomia: o argumento fará sentido tanto em sua forma negativa (“as coisas não se libertam”) como em sua forma afirmativa (“as coisas se libertam”) a depender da definição e o peso conceitual que se atribua às ideias de “propriedade física” e de “interação” (relação).
E isso ainda não é o pior: “Ideias como a teoria do caos e a complexidade emergente são tão bonitas, tão interessantes, permitem explicar fenômenos tão complicados como a otimização da trajetória das formigas ou a organização dos neurônios no cérebro, que é tentador usá-las para dizer: é assim que nos transformamos em agentes de nossas próprias escolhas. Claro que isso é muito melhor do que dizer que o livre-arbítrio existe porque a gente é “capaz de senti-lo”, ou porque seria deprimente demais dizer que ele não existe. E é algo mais palatável para certos tipos de filósofos.”
Aqui me parece que ele expõe sua ignorância filosófica sobre conceitos como causalidade e complexidade, e de novo recorre ao “argumento psicológico” para refutar seus adversários.
E a coisa só piora: “A compreensão que temos sobre a ação consciente muda alguma coisa? Em algum nível, tomar uma decisão consciente seria algo ‘mais livre’ do que reações inconscientes?” “A consciência é irrelevante para o debate sobre o livre-arbítrio. Algumas das coisas que fazemos acontecem por meio de canais conscientes e outras por canais inconscientes. Com certeza é fácil perceber a falta de livre-arbítrio no primeiro caso, e só é preciso um pouco mais de esforço para perceber a mesma coisa no segundo.”
Essa frase: “A consciência é irrelevante para o debate sobre o livre-arbítrio” leva a pergunta óbvia de qual seria então o estado mental relevante para o debate. Eu não sei responder. Mas certamente dizer que é mais fácil perceber a falta de livre arbítrio nas atitudes conscientes é, primeiro, altamente duvidoso e subjetivo. E, sobretudo, é destruído como argumento pelo argumento anterior da irrelevância da consciência.
Por outro lado, dizer “A compreensão que temos sobre a ação consciente muda alguma coisa? Em algum nível, tomar uma decisão consciente seria algo ‘mais livre’ do que reações inconscientes?” é absurdo porque o que distingue o consciente do inconsciente é justamente seu caráter voluntário.
Mas se está ruim, ainda pode piorar: “Digamos que você tem uma intenção e está consciente dela. Você tem uma ideia bastante boa do que provavelmente vai acontecer se você seguir o que essa intenção dita e tem outras alternativas disponíveis. E, para muita gente, isso resolve a parada: trata-se de livre-arbítrio.”
Sim, exatamente. É isso que chamamos de livre-arbítrio.
“Mas se você apenas analisar o que acontece quando alguém formula uma intenção de agir, está deixando de lado 99% do que é relevante.”
Sim, por óbvio. Mas, e daí? Afirmar que 99% das alternativas rejeitadas são relevantes é um argumento retórico e sem sentido. Mas mesmo que fosse verdadeiro, dai não se seguiria que: “a verdadeira questão é: como você se tornou o tipo de pessoa que formularia aquela intenção naquele momento.”
Para Sapolsky “a verdadeira questão” se responde apelando a uma espécie de “historicismo psicologista” que eliminaria o livre-arbítrio. A hipótese é fraca e absurda. Porque, sim, pode-se levar conta – e de fato levamos – uma série de características singulares que podem em parte ser atribuídas à relação do sujeito com o mundo.
Mas é exatamente essa subjetividade que reforça a ideia de livre-arbítrio, não? Diante das alternativas 1, 2 e 3, se o sujeito A, que tem um temperamento e uma certa história de vida, escolhe 1 e o sujeito B, escolhe 2, essas escolhas singulares afirmam ou negam o livre-arbítrio? A mim, ao menos, me parece que afirmam.
Desde que, por óbvio, não se suponha o livre-arbítrio como uma espécie de superpoder capaz de produzir por mera ação da vontade o impossível. Ou dito de outro modo: o fato do livre-arbítrio estar limitado pelo possível não o elimina de modo algum.
E Sapolsky finaliza: “E essa é a história completa: não a de quem você é, mas a de como você se tornou quem você é. E isso tem a ver com o que aconteceu na sua infância, no útero da sua mãe, na cultura dos seus ancestrais ao longo de centenas de anos e assim por diante.”
Ninguém nega o valor da história individual na formação de um sujeito, a influência social, etc – mas ninguém sério ousa elevar esse argumento a uma condição tão fundamental a ponto de negar o livre-arbítrio. É a hora em que o materialismo dialético de Sapolsky deixa de ser juvenil para se tornar simplesmente senil.
O mais engraçado e tentador é ler o relato de Sapolsky de como largou o seu campo científico para se meter com a filosofia: “Acabei tendo de fazer uma decisão muito intuitiva sobre que tipo de célula inflamatória deveríamos modificar geneticamente e provavelmente escolhi o tipo errado.” Por isso cortaram suas verbas e fecharam seu laboratório.
Ele foi vitima do seu livre arbítrio, é isso? Vale portanto perguntar se, movido pelo ressentimento, Sapolsky não está simplesmente tentando negar seu erro apelando para a negação do livre-arbítrio.