Publiquei uma série de três videos sobre Hume no meu canal do You Tube. Como sempre falo de improviso, o que me leva a digressões às vezes longas, e a repetições, e não faço edição, achei que seria interessante escrever um resumo mesmo parcial do que disse.
Hume é um pensador – e uma figura humana – interessantíssimo. Infelizmente para seu infortúnio (e talvez contra sua vontade se lhe fosse dado escolher) teve seu nome associado a Kant, que atribui à leitura de um de seus livros, não lembro exatamente qual, o despertar de seu “sono dogmático” – para embarcar no pesadelo idealista que nos assombra até hoje.
Não se poderia pensar pessoas mais distintas: o que Hume tinha de solar, Kant tinha de sombrio.
Hume percorre o caminho aberto por Locke de um empirismo racionalista sem preocupações metafísicas. Ou talvez se possa dizer, um cartesianismo à inglesa. Se aceitamos essa hipótese interpretativa, fica fácil compreender a conclusão de Hume pela rejeição da causalidade baseada em indução. Partindo do suposto de que a causalidade não é uma evidência empírica, mas uma inferência baseada numa sucessão de eventos que se repetem com regularidade, isto é, toda vez que tenho A segue-se B, a causalidade perde seu “sentido forte”, tanto no sentido ontológico e metafisico, quanto no sentido lógico. Em resumo, o vínculo entre causalidade e necessidade (e portanto universalidade) é refutado.
Kant enxergará aí a reivindicação do relativismo e do ceticismo, onde encontrará pretexto para a construção de sua epistemologia absurda.
No entanto, a conclusão de Hume pode ser interpretada de uma maneira positiva, certamente mais afinada ao caráter de seu autor, e sem prejuízo de seu ceticismo – antimetafísico sobretudo.
(Uma digressão: o que quero dizer com isso? Que Hume aceita o racionalismo cartesiano com alguns ajuste, mas despreza a fundamentação metafísica que Descartes considerava fundamental)
A rejeição da causalidade nos termos de Hume é uma afirmação d contigẽncia de todos os fatos que se impõe como um saudável princípio de prudência que não rejeita a possibilidade da verdade, no sentido forte, mas considera seu alcance sempre pontual, parcial e incompleto, de modo que, muto ao gosto de Tomás de Aquino, de toda verdade sempre nos será possivel extrair mais verdade, porque a verdade é inesgotável.
É essa adesão à “contigência de todos os fatos” (no dizer de Wittgenstein) como um princípio de prudência (e de economia) para toda produção intelectual o que torna Hume tão importante.
Por outro lado, a opção pela “teologia negativa” de Kant não é indiferente: ao contrário, tem consequências trágicas.
Na teoria do conhecimento de Kant, que ele chama de Estética e com ela abre sua Crítica da Razão Pura, a relação entre a mente o mundo se dá do seguinte modo: os sentidos captam os dados sensíveis dos objetos ao redor; esses dados são imediatamente formatados espaço-temporalmente pela mente. É sob essa forma indireta, mentalmente formatada, que percebemos o mundo. Daí a célebre tolice: “a coisa em si é incognicível”.
Como já disse em outros textos e vídeos, a própria ideia de coisa em si é uma bobagem, um falso problema, se admitimos que o Ser é relacional.
Mas o que Kant faz com sua teoria é cortar o vínculo intelectual (e espiritual) entre a mente e o mundo, pois em última instância o que de fato apreendemos não são os objetos, mas ideias humanamente tratadas dos objetos. Não há portanto diálogo com o mundo, a natureza, a vida. E por isso não há relação, êtase, conhecimento de fato. Como escreve Fernando Pessoa/ Alvaro de Campos (aquele que tem “feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu”):
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Eu costumo dizer que a refutação dessa tolice é simples: basta ver um cão brincando com seu dono, pegando no ar os objetos que ele lhe atira. Cão e homem partilham as mesmas coordenadas espaço-temporais – assim como tudo mais ao redor. Conclusão: a estética kantiana ou é falsa ou é redundante.
Mas a coisa é ainda pior.
Apliquemos o mesmo esquema aos objetos artificiais produzidos pelos homens. A cadeira que tenho agora diante de mim, ela foi idealizada, isto é, deve sua forma, a outro homem, que só pode tê-la pensado em termos humanos, isto é, tridimensionais.
Logo quando a minha mente formata tridimensionalmente os dados sensíveis que colhe dessa cadeira, a ideia obtida é de supor ser muito mais precisa que aquela que me vem do gato, da árvore e das coisas em geral.
Ou seja: minha desconfiança da Natureza é altamente compensada pela intimidade que acredito ter com os objetos que outros humanos produziram. Aquilo que os pintores chamam de “natureza morta” é onde o homem kantiano mais à vontade está.
Se pensarmos agora no mundo em que vivemos hoje, facilmente se percebe que ele foi criado segundo esse paradigma kantiano. A natureza foi submetida, escravizada, domesticada e vivemos todos confortavelmente cercados pelos produtos humanos dessa devastação.
Essa consequência do kantismo não lembro de ter visto apontada por ninguém, apesar de me parecer muito óbvia. Se entendermos o kantismo como uma forma de idealismo, e o idealismo como a expressão moderna do gnosticismo, percebemos que a questão é muito mais profunda e vital – e exige, me parece, um vigoroso retorno ao realismo.