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De Moisés a Marx e a revolta dos escravos

Se fosse pra ser literal, esta página deveria estar em branco: foi uma semana em que não escrevi nem gravei nada. Tenho, sim, dois posts quase prontos – se entendermos esse “quase” com voluptuosa elasticidade. E uma ideia muito geral sobre o que dizer no vídeo que pretendo gravar hoje (se isso acontecer, atualizarei este post com o link).


Sobre os textos: o que primeiro comecei é sobre uma ideia que me ocorreu aos poucos. Sempre refleti sobre o contraste entre a escravidão explícita da Antiguidade e a exploração do trabalhadores depois da Revolução Industrial.
Até hoje fico pasmo quando vejo, leio ou ouço conjecturas que atribuem a construção dos grandes monumentos da Antiguidade – as pirâmides, por exemplo – a alguma tecnologia perdida, cuja origem às vezes é atribuída até a extraterrestres. A resposta pra esse pseudo-enigma é muito mais simples: mão de obra escrava ilimitada.

Um exemplo: a construção sob as ordens de Stalin do canal que liga o Mar Branco ao Báltico. A história é contada – sob o ponto de vista dos escravos que lá trabalharam – por Alexander Soljenítsin, em Arquipélago Gulag.

Com os campos de concentração de presos políticos abarrotados e ansioso por uma obra que rivalizasse com o Canal do Panamá – mas que fosse mais longa e construída em menos tempo – Stalin decidiu-se pela ligação do Mar Branco ao Báltico.

Só havia um problema: dinheiro. Escravos não faltavam, mas não havia grana nem para a compra de ferramentas e máquinas. Solução: que os prisioneiros dos gulags se virassem.

E assim foi feito: mais de 150 mil prisioneiros foram mobilizados e tiveram de improvisar a fabricação de boa parte das ferramentas e máquinas. Mas a obra inútil foi executada em tempo recorde (20 meses) e ao preço de um número de vidas estimado entre 11 mil e 60 mil.

Mas os escravos da Antiguidade não saíam na foto. Só depois da Declaração dos Direitos do Homem, da industrialização crescente, da literatura social (Hugo, Dickens, Zola, Proudhon Marx, etc) e da invenção da fotografia, claro, é que os escravos começaram a se tornar visíveis.

Mas foi só outro dia que percebi uma outra obviedade: católico e leitor (mais eventual do que gostaria) da Bíblia, me dei conta de repente que o Êxodo – isto é, a condução dos judeus do Egito à Terra Prometida – pode ser lido como o registro – e por milênios o único, que eu saiba – da primeira revolta de escravos bem sucedida da história humana!

Ou seja, há uma linha que liga Moisés a Marx, passando por todo o Cristianismo (uma heresia judaica, como disse Borges num conto) – gostemos disso ou não. Eu gosto.


O outro quase-texto é sobre Fernando Pessoa.

Minha aposta é que em mais uma geração Fernando Pessoa será considerado o maior escritor em prosa e verso do século 20. Porque essa dita inteligência artificial 1.0 tem uma aplicação imediata óbvia – e realmente útil: traduções. O que vai beneficiar muito autores como Pessoa, que escreveram a maior parte de sua obra em línguas periféricas como o português.

Mas é possível discordar (e muito!) do Pessoa filósofo – cujo pensamento se nutriu até a indigestão no esoterismo da primeira metade do século: Blavatsky, Crowley, astrologia, etc. O que na prática se traduz numa frase que irá perseguir Pessoa à exaustão (literalmente): “Tudo é simbolo”.

Pois é, eu digo: nada é simbolo de nada. Tudo é o que é, em sua profundidade abissal e inesgotável. Ou dito de outro modo: tudo é Ser.

Atenção: isso não me faz melhor que Pessoa nem o diminui sequer um milimetro como escritor. Tabacaria segue sendo o maior poema do século 20 e o Livro do Desassossego o melhor romance em prosa.

1 comentário

  1. Vale atentar para o fato de que alguns dos heterônimos fez poemas sobre o Menino Jesus. Mas O fato é que todo esotérico que conheci amava o que achavam esoterismo em Pessoa ( será que era mesmo?).
    Ele não foi o Bruxo do Cosme mas um Bruxo.

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