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O sorriso da Amora

Quanto bem pode um pacote de biscoitos, mais os trocados que eu tinha no bolso: oito reais em notas de dois, todas azuis com convém a quem quer ganhar sorrisos: o sorriso de Amora desenha-se no rosto e brilha nos olhos imensos emoldurados pelos cabelos cortados Chanel.

Seis anos talvez tenha Amora e já me comoveu vê-la sentada num paninho ao lado da mãe quase na entrada do supermercado tão longe da rua tocando para ninguém, só voz e violão diante de um microfone e uma caixinha de som; no chão, umas moedas se espalhavam, mas não vi nenhuma nota.

Tão magra a mãe de Amora, tão moça ainda e já na rua, vivendo da mão pra boca entre os sem-rumo, que se juntam num canto escondido da vista do distinto público, com suas tralhas e cachorros também abandonados, para fumar e beber qualquer coisa que apareça e os faça desaparecer deste mundo mas não da vida, ao menos…

Duvido muito que eu não fizesse o mesmo se o infortúnio de não ter ninguém me alcançasse. É sempre mais fácil cobrar de homens aparentemente válidos ainda, que se virem de algum modo, pegando no pesado e ganhando pouco, que é o muito que espera quem nada tem.

Mas Amora e sua mãe, que dor me dá vê-las nessa situação. Eu as levaria para casa se tivesse coragem – e de quebra levaria sua amiga trans, magérrima e altíssima, cuja única posse parecia ser uma alegria genuína. Ah, sim! e os cães também – que imediatamente obedeceram aos gritos de Amora quando ousaram latir pra mim.

Mas não é só a covardia o que me sobra… Há tantas miudezas práticas, tantos entraves mesquinhos, diminutos, mas que somados formam um monturo fedorento de preconceitos que são a parte podre do cotidiano.

De noite, na escuridão dos olhos fechados, só então me dou conta do quanto seria fácil a salvação. E no entanto, o que escolhemos? O Poder em vez do Amor. Esse o único “privilégio” que partilham ricos e pobres.

1 comentário

  1. Dorila

    Realmente…. a salvação oscila entre pensamentos, palavras, atos e omissões (e a esperança na misericórdia divina).

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