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Por um novo modelo cognitivo

Meu objetivo ao propor um Novo Modelo Cognitivo (NMC) é integrar a emoção ao processo cognitivo. O papel da emoção na produção do pensamento não é adequadamente representado nos modelos disponíveis. Essa, enfim, é a premissa que orienta este texto.

Comecemos pela experiência imediata e trivial de estar vivo, isto é, pela Via Contemplativa – de que falarei em meu weblivro Ver e Ver-se , ainda em produção.

Se nos observamos no mundo, acredito que sejamos todos capazes de reconhecer sem esforço duas dimensões: a interna, nossa vida interior, como costumamos chamar; e a externa, o mundo das coisas onde estamos também imersos. Essa é então a percepção primeira e a mais primária: interno e externo.

Logo a seguir, outro par é derivado: imaterial e material. De fato, a dimensão interior é toda imaterial (como as palavras, sua representação mais acabada, ela está e não está no mundo); a dimensão exterior é, ao contrário, ostensivamente material.

De posse desses dois pares de percepções autoevidentes – interno/ imaterial, externo/ material – podemos derivar mais dois pares conceituais, mais elaborados, portanto. O primeiro par é uma derivação mais ou menos imediata: de interno/imaterial deriva-se o conceito de alma ou mente; e do par externo/material o conceito de corpo. Mais adiante, num elaboração ainda mais refinada, chegaremos finalmente aos conceitos de Deus e Mundo.

Esses novos pares podem ser ditos conceituais porque deles derivaremos ciências correlatas: do conceito de Alma ou Mente derivamos a Psicologia; do conceito de Corpo, a Fisiologia; do conceito de Deus, a Metafísica; e do conceito de Mundo, a Física.

É interessante notar que podemos associar os pares iniciais – interno/externo. imaterial/material – às res cogitans e res extensa de Descartes e às materia e forma de Aristóteles, que são os dois filosofos que orientam minhas reflexões.

NMV, Quadro 1: percepções autoevidentes e conceito primários

Quando, seguindo a Via Introspectiva – de que falarei em meu weblivro Ver e Ver-se , ainda em produção – observamos nossa mente, classicamente o que primeiro parecemos constatar é que ela se constitui de dois, chamemos assim, impulsos: a Vontade e o Entendimento – para usar a terminologia cartesiana. Pensar e Querer: acredito que podemos reduzir a atividade genérica do nossa mente a esse binômio cujo fim último é mover-nos à preservação e manutenção de nossa Vida.

A Vontade, que prefiro chamar de Volição por razão que logo esclarecerei, obviamente interage com o Entendimento, mas a relação entre ambos é controversa e ambígua, segundo se coloque uma ou outro como dominante ou primeiro. Neste texto, Vontade e Entendimento são pensados numa relação incessante não-hierárquica de mútua dependência.

O Entendimento, mais uma vez seguindo Descartes, se constitui de quatro faculdades: o Intelecto, a Memória, a Imaginação e a Sensibilidade (tratei desse tema específico na primeira edição de meu weblivro Para Escrever Melhor).

A Sensibilidade, apesar de ser um modo do pensamento (ver o argumento do sonho na primeira das Meditações Metafísicas de Descartes) e uma faculdade cognitiva, está evidentemente ligada ao corpo e é dele dependente. Ela funciona como a interface entre a Mente e o Mundo – a ponto de Aristóteles afirmar que nada há na mente que não tenha antes passado pelos sentidos. A despeito disso, seu papel é frequentemente negligenciado exatamente por sua associação com o corpo – definido como “a prisão da alma”, segundo com a máxima platônica, em concordância com o pensamento dito filosófico dominante em toda a Antiguidade até a emergência do Cristianismo.


O caminho para integrar a Emoção no modelo cognitivo é obviamente a Sensibilidade.

Para isso é preciso definir um papel mais exato pra Emoção no processo cognitivo. Se a Sensibilidade é a interface entre a Mente e o Mundo, por analogia, podemos dizer que a Emoção é a interface entre a Volição e o Entendimento.

A Volição, por outro lado, se exerce segundo dois modos: a Vontade, que seria a faculdade de querer o Bem; e a Noluntade, que seria a faculdade de não querer o Mal. Essa dupla modalidade da Volição tem sido ostensivamente ignorada pela filosofia, ainda que São Tomás de Aquino lhe confira um papel importante na Suma, e Descartes a ela recorra implicitamente no passo decisivo da dúvida hiperbólica e na gênese do Cogito.

NMC, Quadro 4: a Emoção como interface entre a Volição e o Entendimento.

Esse mesmo quadro pode ser reconstruído de modo a deixar mais evidente a analogia entre o Modelo e corpo humano – definido aqui como um organismo pensante – isto é, corpo inteiro está envolvido no ato de pensar.

Novo Modelo Cognitivo

Destaco dois pontos principais. Primeiro o papel central atribuido à Emoção ou Sensibilidade e sua relação com a Memória e a Imaginação. Isto é, a Sensibilidade não se reduz aos cinco sentidos.

O segundo ponto é associação do Modelo com o que chamei de As Duas Vias da Metafísica: a Via Contemplativa e a Via Introspectiva.

Ha ainda um terceiro ponto: a leitura do Modelo tanto no sentido horizontal, quanto no sentido vertical. Há múltipas leituras simultâneas e simétricas que destacam a interdependência dos elementos e o caráter contínuo do processo cognitivo.


A analogia evidente com a Árvore da Vida não é fortuita nem tampouco uma novidade. Evaristo Eduardo de Miranda escreveu um livro interessantíssimo sobre o tema: Corpo: Território do Sagrado.

Tal analogia não é sempre necessariamente esotérica. A mim, o esquema gráfico da Árvore atrai pela maneira como os elementos se distribuem em mútua relação permanente, como num circuito, mas matendo-se integrados pela tensão dualista essencial própria da Vida, expressa nos pares simétricos e complementares direita e esquerda, abaixo e acima, externo e interno.

Não hierarquia nem sínteses, apenas movimento incessante.

Seguindo nossa analogia com o corpo e supondo a cognição como um processo que envolve a totalidade do ser, temos o Intelecto na cabeça, a Sensibilidade ou Emoção no peito, e a Volição no ventre. Se levarmos em conta, sem ironia, a tese mais ou menos recente que os intestinos seriam como um “segundo cérebro”, a Emoção está onde intuitivamente a colocaríamos: mediando os impulsos da Volição e os argumentos do intelecto.

Minha hipótese é que é essa mediação que torna toda ação humana imprevisível, em última instância – e livre, portanto.


Fiz uma pausa e enquanto tomava um café, dei de cara com um desses memes que circulam pelas redes em que se lê, ao lado da foto de um desses influenciadores intelectuais: “O problema não é que João não leia. O problema não é sequer que João não pense. O problema é que João não sabe o que é pensar; ele confunde com sentir”.

Eis um resumo do que uma certa filosofia entende por pensar – e sentir. Eis o que genuinamente poderíamos chamar de Inteligência Artificial.


Pois o que é esse “pensamento algoritmo” que passa por inteligência – artificial ou psicótica – senão isso, um pensamento sem emoção? Já escrevi sobre isso aqui no Café nas Nuvens: vale a pena reler Demência Artificial.

Por isso me parece tão urgente um novo modelo que integre a Emoção ao processo cognitivo. Como se não bastasse toda alienação e sofrimento que o modelo dominante é capaz de produzir – e os documentários de Adam Curtis são didáticos e pedagógicos a esse respeito – agora enfrentamos o risco de produzir máquinas psicóticas incapazes de pensar de fato.

3 comentários

  1. Alvaro Aquino

    O texto é excelente e esclarecedor,

    • Obrigado, Alvaro!
      Estou pensando em juntar os amigos e os amigos dos amigos interessados no tema numa livre pra gente conversar sobre o assunto. O que acha?

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