Eu acho que ninguém ainda se deu conta que o que se está criando não é a inteligência artificial, mas demência artificial.
Numa frase: quem se move por algorítimo é psicopata.
Ele processa dados em busca padrões para prever ou induzir comportamentos. Uma máquina indutora (e indutiva) de padrões com fins de controle e manipulação.

Uma máquina que quer dizer para mim o que eu devo querer hoje em função do que eu quis ontem. Despersonalizante? Pois assim funciona a indicação de filmes do Netflix.
Não digo que a demência artificial seja inútil; ela dará traduções quase perfeitas.
Com sua capacidade de armazenar e cruzar dados, imagino que basta abastecê-la com a gramática das principais línguas, dicionários técnicos específicos, traduções e originais clássicos, e ela fará o resto.
Não é essa, afinal, receita do bom tradutor?
Claro, os grandes tradutores são insubstituíveis. E lembro logo de minha querida Celina Portocarrero – que fiz questão de conhecer depois de ler sua tradução de As Pipas, de Roman Gary – desde então um dos meus 10 livros que levaria pra uma ilha ou para o desterro. E depois de conhecê-la, tornou-se imperioso ser seu amigo, porque ninguém é bom tradutor à toa.
Outro grande tradutor que não tive a felicidade de conhecer (ainda que tenha tentado) é o Ivo Barroso, tradutor de Rimbaud. Sua traduçção de Uma Estadia no Inferno é perfeita – a começar pelo título.
Mas erros de tradução como eu já peguei e só conto em privado – por pudor e por vergonha, afinal já cometi os meus, também monumentais – esses a Demência Artificial vai liquidar.
Fora isso, só enxergo até agora a rápida criação de um elegante mentiroso, como todo bom psicopata – com o perdão do aparente paradoxo.
Depois eu conto minha primeira experiência com uma dessas ferramentas de IA…
[…] Pois o que é esse “pensamento algoritmo” que passa por inteligência – artificial ou psicótica – senão isso, um pensamento sem emoção? Já escrevi sobre isso aqui no Café nas Nuvens: vale a pena reler Demência Artificial. […]