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Liberalismo e Cristianismo

Alasdair MacIntyre..Photo by Matt Cashore/University of Notre Dame

“For MacIntyre, the ascendance of liberalism is seen most starkly and ominously in the evolution of moral reasoning from Aristotle to the present. The classical tradition of Aristotle and Aquinas rested on a shared conception of cosmic or social order, derived from Aristotle’s metaphysics and Aquinas’s theology. Both thinkers—like most other human beings until a few hundred years ago—believed in a hierarchy of causes and of authorities culminating in a Supreme Being, i.e., God.”

Liberalism’s Two Sides, George Scialabba, The Nation

Minha ignorância não se cansa de me surpreender: não conhecia Mr. MacIntyre. Será certamente uma leitura interessante. Me reconheço na sua trajetória errática, quase tateante e imprevisível: se lhe dessem mais cem anos de vida é provável que reformularia seu pensamento mais algumas vezes, sempre insatisfeito com as suas conclusões – e as alheias.

No trecho em destaque, os grifos são meus. Mas há dois princípios correlatos que mudam tudo: Deus é a causa primeira de todas as coisas – e todas as criaturas são filhas de Deus, portanto. Isso mina de cara toda hierarquia – seja lógica, seja social – mesmo talvez a contragosto de Aquino – a quem essa diferença parecem não ter escapado: ele tanto admite qualquer forma de governo como passível de ser tocada pela graça, como afirma que nossa inteligência humana é incapaz de esgotar a verdade de uma mosca.

Eu entendo a linha de raciocínio que vai da decadência do presente a um ponto qualquer do passado, no caso, do caos moderno (e liberal) à emergência do nominalismo. por exemplo. Mas acho falsa essa tese.

Primeiro, por uma constatação trivial: o presente sempre nos parecerá decadente em face de algum momento idealizado do passado. Isso é quase biológico – eu diria até “patológico”.

No caso especifico da crítica dita conservadora ao liberalismo e à modernidade, eu apontaria um razão óbvia de sua falsidade: o liberalismo é uma consequência, um corolário, do cristianismo.

Eis uma afirmação que há de desagradar a todos, ainda mais antecedida pelo termo “óbvio”. Mas me parece evidente que uma filosofia que tem por fundamentos a equivalência (em última instância) de corpo e alma (portanto, a excelência da matéria) e a igualdade entre os homens (porque todos são filhos de Deus) conduza ao liberalismo – liberalismo, aliás, que emerge exclusivamente do ambiente cristão europeu – não existe, nem nunca existiu, liberalismo oriental (a exceção é o Japão, reinventado pelos americanos depois da Segunda Guerra).

Nesse sentido, para quem gosta das big pictures históricas, talvez se possa dizer com alguma dose de otimismo que isso que lhes parece decadência e caos é, ao contrário, as dores do parto e a primeira infância da maior de todas as novidades – talvez a única – dos últimos 10 mil anos de história humana: a emergência do igualitarismo cristão, consequente, como disse, do boa nova da excelência ontológica da matéria.

Nessas horas , eu sempre lembro do comentário final de Remi Brague ao encerrar uma entrevista: “Who can say that Christianity has had the time to translate the totality of its contents into institutions? I have the impression that instead we are still at the beginning stages of Christianity.” (link para a entrevista)

Esse comentário me marcou muito. Eu também às vezes tenho a impressão que o Cristianismo ainda mal começou. Que essa novidade tenha florescido nessa península asiática que é a Europa, entre bárbaros, depois da queda do Império Romano e daí se espalhado decisivamente pelo resto do mundo é uma prova do seu vigor, de sua verdade.

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