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Quando começamos a entender o mundo

Quando Deixamos de Entender o Mundo é um livro emocionante. Benjamin Labatut mistura história e ficção com um senso de medida impecável, oferecendo ao mesmo tempo muita informação – nova, inclusive – e uma narrativa que nos prende como um thriller. Como escritor, aliás, Labatut é uma descoberta e tanto. Tem estilo, na melhor tradição da literatura hispano-americana . Seu domínio da linguagem me lembrou Mario Vargas Llosa que com o tempo foi se tornando meu favorito entre os sul-americanos.

Minha critica ao livro se dá no nível filosófico, digamos assim. Ou melhor até: metafísico. O título que dei ao post resume bem o sentido dessa crítica: no meu entender, as descobertas da Física quântica só apontam para um “desentendimento” do mundo quando interpretadas pela má filosofia herdada dos séculos 18 e 19 – e produzida especialmente em alemão, pátria de boa parte dos principais físicos e matemáticos que iriam revolucionar a Física.

Essa combinação resultou numa tragédia intelectual: em vez de comemorarmos uma árdua conquista que nos demandou quase 2.500 anos – desde o conceito de ato/ potência de Aristóteles até Einstein, Heisenberg, Oppenheimer – passamos a lamentar que o Universo revelado não correspondia às expectativas deterministas de uma filosofia ultrapassada e anacrônica.

Quando Aristóteles, para resolver o paradoxo do não-ser, herdado pelos gregos da velha filosofia oriental, substituiu o conceito de não-ser pelo conceito de potência de ser, e definiu todo ente criado e finito como uma combinação de ato e potência, isto é, um ser em ato mergulhado em um campo de possibilidades continuamente atualizáveis a partir de sua relação com o mundo ao redor, a contingência e a liberdade tornaram-se a marca definidora de todos os entes criados. Em resumo: o mundo é livre. Ontologicamente livre – os homens inclusive, por óbvio. Do ponto de vista humano, aliás,essa liberdade nos iguala: somos todos filhos de Deus.

Acredito que esse breve resumo seja suficiente para mostrar o caráter explosivo dessa ideia em culturas dominadas pelas ideias de hierarquia e dominação. E assim é até hoje.

A partir de Aristóteles, o esquema ato/ potência, associado ao esquema matéria/ forma, revelou-se profundamente produtivo, conduzindo o pensamento e a ciência a patamares nunca alcançados até então. No entanto, a discussão sobre o estatuto de realidade desses pares seguia em aberto, Especialmente a ideia de potência – por uma razão óbvia: sua imaterialidade – associada como condição de possibilidade do que é a pr[opria expressão da matéria: o ato.

Por um lado, a potência já devia estar dada ao ser em ato para que este pudesse atualizá-la; por outro, ela seria por definição inverificável, na medida que não existe em ato. ou, se me permitirem um interessante jogo de palavras: ela é sem existir. Não é exatamente assim tão difícil de intuir, e quem está um pouco familiarizado com a Física quântica acostumou-se já com esse tipo de “paradoxo”.

O idealismo buscou isolar a questão de modo a não deixar que suas consequências metafisicas contaminassem a ética e a política – insistindo que esses seriam conceitos meramente formais, entes de razão que pouco ou corresponderiam à realidade. Eu gosto de dizer que a bomba atômica enterrou de vez essa pretensão.

No entanto, o esforço de deslegitimar ou encobrir as consequências metafísicas (e ontológicas) das conclusões da Física quântica seguem adiante. Tenta-se impor a interpretação de que as conclusões da Física quântica apontam para um indeterminismo radical, para um mundo caótico, selvagem, e, em última instância, irracional. Um mundo que, portanto, exige a ação vigilante de uma elite centralizadora e autoritária para manter-se funcionando.

Mas é exatamente o contrário!

O que o comportamento das partículas subatômicas nos revela é o estado de potência inerente ao ser e intuído por Aristóteles há 2.500 anos. Finalmente, conseguimos “ver” a potência do ser – e trabalhar com ela! É essa liberdade intrínseca a toda a Criação que confere ao Mundo e à Vida sua plasticidade e diversidade exuberantes.

Essa Natureza livre não está submetida a causalidades estritas, mas busca padrões estáveis de economia: obter o melhor rendimento com o mínimo de esforço.

É evidente que as consequências éticas e politicas dessas conclusões são aterradoras para os que cultivam o poder – desde sempre. Não é o meu caso – e acredito que não é o seu, leitor.

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