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Notas sobre o idealismo

Se o movimento é próprio das coisas finitas e se o movimento é relacional logo as coisas (as criaturas, os seres: como queiram) são relacionais. É da relação entre as coisas que deduzo o ser, não de uma suposta coisa em si. O Ser, ou o que entendo como Ser, é relacional.

Se tempo e espaço fossem formas (internas) da sensibilidade o movimento não seria relativo, mas ilusório: pois não se poderia afirmar sua realidade.


Se vós tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria”.

Lucas 17,5-6


Logo a dualidade é uma condição inerente a um mundo de criaturas finitas. Tudo tem fim, tudo traça uma trajetória. A simples experiência cotidiana o demonstra.

No entanto, essa percepção da inexorável sucessão das coisas parece supor um fundo de simultaneidade que lhe dê suporte, fundamento, consistência. A experiência cartesiana das vicissitudes do pedaço de cera sob o calor da chama é o exemplo clássico.

O conceito que a expressa é ainda mais clássico: a ideia de ato e potência de Aristóteles – sem dúvida, um corte epistemológico que lança a filosofia a um novo patamar.

Ser e não-ser estão em harmonia enquanto potência. O dilema ser ou não-ser só se instaura em face do inevitável impulso para o ato – quando mesmo o não-ser torna-se ser por privação: o não-fazer é um fazer, um ato que se incorpora ao ser que, por isso, é sempre positivo.


Nesse sentido, Kant é o anti-aristotélico por execelência. E um platônico vulgar.

Aristóteles restitui ou inaugura o prazer de conhecer que se funda na experiência sensível, singular, imediata. É exatamente o que Kant abole com a hipótese – abominável e absurda – de que as percepções sensíveis são imediatamente empacotadas (literalmente)pelo espaço e tempo supostos como formas da sensibilidade e não mais como propriedades do mundo.

Na verdade, o esquema epistemológico kantiano é uma cópia descarada do esquema platônico da passagem das ideias às coisas como simulacros dessas ideias. No caso kantiano, o papel da matéria-prima é exercido pelas percepções sensíveis e o papel das ideias pelas duas formas da sensibilidade. Mas o resultado são também simulacros: representações fenomênicas em vez de cópias de ideias.


“O Homem é um ser para morte” me parece a versão melodramática de uma trivialidade: somos finitos


BBC – Sabemos que o senhor gosta muito de gatos e prefere não se referir ao gato de Schrödinger e a discussão se ele está vivo ou morto (ou dormindo). O senhor poderia explicar por que, segundo esse famoso experimento, o animal pode estar vivo e morto ao mesmo tempo?

Carlos Rovelli – Acho que o gato não está realmente acordado e dormindo ao mesmo tempo. Considero que, com respeito a si mesmo, o gato está definitivamente acordado ou dormindo. Mas quando se trata de mim e de você, pode não haver nem um estado, nem outro. Porque eu acho que as propriedades das coisas (incluindo os átomos e os gatos) são relativas a outras coisas e só se tornam reais nas interações com elas. Se não houver interações, não há propriedades.


Agora que tempo e espaço se revelam mais do que meramente infinitos, mas incomensuráveis, já não nos seria suficiente um conceito de causalidade prudentemente reduzido a uma ideia de padrão que se sustenta no principio simples de economia ou conservação de energia próprio de tudo que é finito e que, portanto, tem com fim último simplesmente durar?

É nessa direção que me proponho uma revisão de Hume.

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