Por conta do meu fascínio pelas Meditações Metafísicas de Descartes, fiz o óbvio: fui procurar técnicas de meditação. Meu suposto era, e ainda é, que as Meditações são um experimento metafísico mais ou menos acessível a qualquer um que se disponha a praticá-lo. Mas para isso é preciso conhecer a técnica que o experimento envolve.
Como Descartes foi educado pelo jesuítas de La Fleche, é de supor que tenha tido contato com os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Como não consegui encontrar na época uma oferta da prática que me fosse acessível, acabei encontrando na meditação Vipassana orientada por S. N. Goenka uma alternativa.
Eu já lera The Cloud of Unkowing, conhecia os rudimentos dos Exercícios de Santo Inácio e da meditação budista então achei que não me seria difícil encontrar pontos comuns e ignorar as diferenças, pois meu foco era a técnica não a metafísica suposta pela técnica.
De fato, logo na primeira hora da primeira meditação do primeiro dia percebi que há um abismo óbvio e insolúvel entre as metafísicas do Ocidente e do Oriente: se para nós ocidentais o mistério central é o Ser, a Identidade, a Permanência, para os orientais esse mistério central é a Impermanência, o Não-Ser, a Identidade como ilusão. Nesse sentido, somos inconciliáveis. Porque se para o oriental a permanência é uma ilusão, para mim, ocidental, a impermanência é apenas a hipertrofia de uma trivialidade: a finitude de todas as criaturas criadas.
E isso não é pouca coisa porque implica uma série de consequências filosóficas, morais, físicas, politicas: enfim é a nossa relação com o mundo – aí incluído os outros homens – que está em jogo.
Para não estender ainda mais esse nariz de cera digno de um Cyrano de Bergerac, escreverei um texto a parte aprofundando um pouco mais esse ponto. Porque todo esse papo seria só para introduzir uma nota que encontrei sobre o budismo justamente desse tempo em que meditei entre eles.
Foram ao todo cinco cursos de 10 dias em silêncio, comendo pouco e meditando imóvel 10 horas por dia. Vida de monge, enfim… É uma comunidade muito ativa, de gente muito interessante. Perdi o contato, mas não a estima. Como é do meu feitio, li muito sobre Vipassana especificamente e sobre o budismo em geral. E fiquei surpreso em constatar como a ciência (entendida aqui como técnica) pode chegar às mesmas conclusões e soluções partindo de metafísicas tão díspares. A dita “psicologia budista”, por exemplo, supõe uma epistemologia praticamente igual à dita “psicologia ocidental”, e adota práticas e abordagens semelhantes.
Perceber que a ciência pode prescindir da metafísica é tranquilizador – entre outras coisas porque coloca a metafisica no mesmo patamar da poesia, da música e das artes em geral. Onde eu me sinto mais à vontade, diga-se (e o que talvez, se quiserem, explica essa minha percepção).
Bom, acho que chegamos ao fim deste nariz de cera… Vamos então a tal nota.
Ilusão e destino seriam as traduções que imediatamente me passariam pela cabeça quando penso em maya e karma. A leitura de O Budismo Zen (The Way of Zen), de Alan Watts, mostra o quanto é superficial essa idéia e como conduz a conclusões erradas que facilmente associam o Budismo e Taoísmo ao idealismo mais reles.
Partindo desse ponto, que não esclareço mais para não privá-los da leitura de Watts, digo que maya é também o passado que recobre o presente, anulando sua espontaneidade. Então, se nosso intuito é viver o presente, é preciso antes afastar o “véu de maya” que o anula.
Que passado é esse que quase sem que saibamos se infiltra no presente? São os comportamentos que aprendemos, são os traumas, as neuroses, as ilusões complacentes, a coleção de aversões e cobiças que se expressa sob a forma geral de um “eu sou assim”. É o drama infantil, quase sempre familiar, que revivemos, em busca de perdões, vinganças e outras compensações que jamais se cumprirão, porque de novo, apesar de todo o enredo aparentemente novo, a história sempre acabará do mesmo jeito.
Essa repetição – que se assemelha a um destino, mas não passa de um drama já tão bem ensaiado que até o tomamos por nós mesmos – isso, sim, é karma.
É fácil então entender como maya produz karma e porque a meditação Vipassana é uma terapia, uma cura para os “nós emocionais” que são um obstáculo à livre circulação da vida em nós.
Mais dois comentários finais.
Primeiro, se na metafísica oriental a idéia de karma está carregada de uma espécie de fatalismo, na abordagem de Watts essa interpretação pode ser rejeitada em favor de um conceito mais científico, ou melhor ainda: mais prático, aplicável, por exemplo, numa psicologia.
Segundo, essa tradução distorcida a que me refiro e que acaba por nos remeter ao idealismo mais relés não é provavelmente fruto do acaso. Esse “apelo ao oriente” é sobretudo um esforço justamente do idealismo alemão que não se esgota nem tão pouco começa com Schopenhauer, e que quer produzir convergências com o hermetismo e o gnosticismo alemães.