Se a ideia é criar inteligência artificial será preciso ensinar à máquina cor e música, intensidade e movimento – enfim, é preciso que ela aprenda a sentir. Mas a máquina é kantiana: ela não sabe sentir. É preciso voltar à Descartes: sentir é um modo do pensamento, integrado aos outros modos: memória, imaginação, entendimento. A sensibilidade, portanto, não é como em Kant, um a instância primária, bruta que informa à mente algo que nem mesmo sabemos propriamente o que é: há entre o que sinto e o que penso um abismo intransponível. É o horror, o horror..
E a citação de Conrad – no meu caso, de Coppola – não é casual. A psicose kantiana nos trouxe até aqui, a uma cultura que cultua as máquinas e desconfia da natureza. Porque, claro: se os dados sensíveis não me informam o que a coisa é, sinto-me mais confortável entre objetos produzidos por outros homens do que entre as criaturas da natureza que nem sei quem as criou. E pensar que Kant acreditava – ou dizia acreditar – que sua filosofia abriria caminho para a fé…
Cor e música, intensidade e movimento não são estranhos à matemática. Por outro lado, é com essas sensações que produzimos sentido – e aqui o jogo de palavras mostra algo óbvio: o sentido de uma frase não está nos dicionários ou não se reduz a eles, mas no tom e andamento em que são escandidas as palavras. Toda declaração é de fato uma declamação. E isso é óbvio porque é praticado por nós todos diariamente o tempo todo. As sensações, sim, estão, se quiserem, lá no começo, na gênese de um pensamento, mas estão também, no seu momento final – quando pretendemos comunicar um sentido que será sempre singular.

E aqui começa outro problema: a oposição que se estabeleceu entre o universal e necessário e o singular e contingente. Vale dizer, entre a eternidade e a vida, entre Deus e Natureza.
E talvez essa seja a diferença entre a boa filosofia e o que genericamente se convencionou chamar de gnose: onde a filosofia enxerga complementariedade, a gnose enxerga oposição.
É nesse sentido que considero tolo chamar Descartes de panteísta quando ela escreve na conclusão das Meditações Deus sive natura – se sabemos que Descartes crê num Deus encarnado que promete a vida eterna. Ou seja, que reconcilia ou expõe a complementariedade do que a gnose toma por opostos.
Voltarei ao tema ainda muitas vezes porque essa zona incerta partilhada pela epistemologia, a psicologia, a metafísica e teologia é meu lugar de predileção – e tem tudo a ver com a tal inteligência artificial que, como tenho dito, tem pouco de inteligência e muito de artificial.
Para um melhor entendimento da epistemologia psicótica de Kant, recomendo o artigo que escrevi: O Caso Kant. Para entender as Meditações de Descartes, recomendo a leitura do meu ensaio: Meditando com Descartes.