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Carlo Rovelli e Espinosa

Gravei um video para o meu canal no You Tube sobre o excelente livro do físico Carlo Rovelli: Sete Breves Lições de Física.

No entanto, a impressão de Rovelli sobre Espinosa é radicalmente oposta à minha. Eu não li Espinosa no original e o pouco que sei me veio de uma catastrófica exposição que assisti no You Tube feita por um professor incompreensivelmente famoso.

Mas seria capaz de apostar que também Rovelli não leu Espinosa no original nem se aprofundou em sua filosofia. Digo isso porque o argumento espinosista que fundamenta sua negação do livre arbítrio é incompatível com a Física tão bem exposta por Rovelli em seu livro.

Como no vídeo que gravei sobre o livro de Rovelli abusei das digressões, resolvi ordenar meu argumentos contra Espinosa por escrito para torná-los mais claros. Minha recusa da negação espinosista do livre arbítrio se funda em três argumentos.

O primeiro e mais óbvio se aplica também à Kant.

Espinosa argumenta que o livre arbítrio é uma ilusão da mente incapaz de abarcar a complexa cadeia de causas que determina cada ato humano. Ou seja, nossa impressão de liberdade é fruto de uma ignorância inata e incorrigível. Segue-se daí a pergunta óbvia: como então pode Espinosa perceber isso? Se não podemos nos dar conta da complexidade da cadeia de causas a ponto de nos iludirmos, como podemos sequer afirmar que ela existe e é ao mesmo tempo imperceptível? Talvez, presumo, pela conversão ao espinosismo – que então torna-se uma especie de seita.

O segundo argumento deriva desse e é tão óbvio quanto, ainda que demande um passo a mais. Suponhamos que de fato nos iludamos, mas – como parece pretender Espinosa – num esforço mental possamos perceber ao menos a existência da complexa cadeia de causas por trás de cada ato. Não seria então o caso de concluir exatamente o contrário de Espinosa, isto é, que tal complexidade confere a cada ato um status singularíssimo que afirma sua contingência e portanto a sua liberdade?

Por fim, há um argumento que extraio da Física tão brilhantemente apresentada por Rovelli. Como vemos logo na sua primeira lição, o tempo e o espaço constituem um campo, o campo gravitacional. Chamamos a esse campo de espaço-tempo. O espaço-tempo, como todo campo, é um contínuo.

Por sua vez, a causalidade é, em última instância, uma relação temporal onde a causa precede necessariamente a consequência, o que projeta a ideia de um tempo que corre irremediavelmente de uma passado que se apaga para um futuro que ainda não existe.

Então do ponto de vista da causalidade, o tempo é uma seta. Mas, do ponto de vista do continuum espaço-temporal, o tempo é uma ponte que une passado, presente e futuro que são simultâneos. Logo, do ponto de vista, espaço-temporal falar em causalidade no sentido forte é um contrassenso.

Claro, percebe-se que o uso de termos fortemente à noção antiga de tempo pode tornar o entendimento do conceito relativista até mais difícil. Mas fiquemos por ora simplesmente com o contraste entre a seta e a ponte. Imagine em seguida um universo formado por infinitas pontes ligando infinitos pontos como uma rede, esse conceito hoje tão cotidiano. É essa a antologia que melhor expressa o espaço-tempo.

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