“Como é o barro na mão do oleiro,
assim sois vós em minha mão, casa de Israel”.
Jeremias 18, 6
O que falta à filosofia das ciências hoje é exatamente essa percepção da plasticidade da vida e das coisas – especial e principalmente no sentido de resposta imediata aos estímulos externos, como permite intuir a passagem inteira:
Palavra dirigida a Jeremias, da parte do Senhor:
“Levanta-te e vai à casa do oleiro,
e ali te farei ouvir minhas palavras”.
Fui à casa do oleiro,
e eis que ele estava trabalhando ao torno;
quando o vaso que moldava com barro
se avariava em suas mãos,
ei-lo de novo a fazer com esse material um outro vaso,
conforme melhor lhe parecesse aos olhos.
Fez-se em mim a palavra do Senhor:
“Acaso não posso fazer convosco como este oleiro,
casa de Israel? diz o Senhor.
Como é o barro na mão do oleiro,
assim sois vós em minha mão, casa de Israel“.
O trecho destacado em negrito ilustra com perfeição esse imediatismo da Vida em face aos desafios do Mundo. A imagem, aliás, é linda. Não é difícil imaginar a cena do oleiro trabalhando o barro em sintonia com as circunstâncias imediatas que se apresentam. E, claro, a imagem nos remete à criação de Adão por Deus, no Genesis, moldado em barro, essa mistura de terra e água, que o calor de seus irá moldar e a quem seu sopro dará vida; Terra, água, fogo e ar: o Homem é a síntese dos elementos primordiais que constituem o Mundo e a Vida.
Ontem à noite ouvi um excelente episódio do podcast Rádio Novelo. Muito bom, como tudo do podcast. A entrevistada é uma bióloga brasileira especialista na genética dos cetáceos (baleias, golfinhos, vaquitas – enfim, os mamíferos marinhos). Talvez fosse mais adequado chamar de genética evolutiva, não sei – pois talvez a expressão soe redundante ao especialista. Enfim, ela pesquisa o genoma dos cetáceos especialmente em busca dos elementos comuns aos humanos que possam eventualmente contribuir para o tratamento geneticamente orientado do câncer, por exemplo. Muito bonito o trabalho dela.
Mas duas coisas me chamaram a atenção, digamos, negativamente: da parte da entrevistadora, o desconhecimento, – ou melhor, a superficialidade do seu conhecimento – de Aristóteles. Para quem conhece minimamente o sentido epistemológico (e metafisico) da filosofia aristotélica, percebe facilmente que os conceitos de matéria/forma e ato/potência não só criam o fundamento teórico do evolucionismo, como mais genericamente sustentam todo o edifício cientifico. Somos até hoje aristotélicos.