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Objetos perfeitos

Há décadas, escrevi uma crônica sobre o que chamo de objetos perfeitos. Outro dia lembrei dela ao me pegar listando mais uma vez esses objetos: é que velho não tem assunto, tem repertório – e esse é um dos meus números favoritos (outro é escalar a minha seleção brasileira de todos os tempos, tema que valerá qualquer dia uma crônica).

Na crônica original, a bicicleta era o centro da história, acho eu. De fato, vire e mexe me pego pensando que deveríamos ter parado na bicicleta – ao menos como veículo individual de transporte. Para distâncias e volumes maiores, o trem – subterrâneo ou de superfície. Erramos – e vejam onde esse desvio nos levou…

Mas não existe nada mais poético que que um ser humano equilibrado numa bicicleta. Lorca tem um poema em que fala da bicicleta de Buster Keaton e o cinema nos legou a cena memorável de Paul Newman e Katherine Ross em Butch Cassidy and Sundance Kid – essa ode à amizade.

Mas há outros objetos perfeitos. Por exemplo, o relógio – e especialmente o relógio automático, aquele que se nutre dos movimentos do dono. Cria-se assim uma sincronia íntima e silenciosa que é a imagem da relação ideal.

Outro objeto perfeito: os óculos. Foram séculos até chegarmos a essa forma irretocável. Falo deles e lembro do objeto mais que perfeito, o único objeto finito que compartilha a natureza dos anjos: claro – o livro.

E finalmente, pra encerrar, o mais universal dos objetos perfeitos – e talvez o mais antigo: o chapéu. Que na minha idade faz par com a bengala. Há tantas formas de chapéu – e no entanto não há cultura que o desconheça.

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