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O erro de Descartes e seus muitos acertos

Agora que tenho duas gatas em casa percebo claramente o quanto errou Descartes ao reduzir os animais a autômatos sem inteligência. Seguia provavelmente uma ideia que era já um lugar comum à época (uma vez me surpreendi quando um católico me disse que no Paraíso não haveria bichos…) e que ainda persiste, apesar de edulcorada pela redução dos animais à condição de… minoria.

Enfim, quem divide o espaço cotidiano com bichos logo se dá conta que eles possuem todas as faculdades que constituem nosso aparato cognitivo.

Eles obviamente possuem sensibilidade (aliás, aqui Descartes se redime, ao elevar a sensibilidade à condição de modo do pensamento, junto com as demais faculdades, corrigindo o esquema clássico que opunha sensibilidade/corpo) à razão/espírito). Obviamente possuem memória porque aprendem comandos, vozes, seus nomes – pra dizer o mínimo. Têm imaginação porque sonham, apenas pra citar o argumento que me parece mais forte. E, por fim, possuem entendimento suficiente para, por exemplo, cacular a trajetória de uma presa e agarrá-la no ar.

Ou seja, nossos respectivos aparatos cognitivos são capazes de dialogar de modo eficiente.

Então o que nos distingue? Voltamos aqui a O Reino da fala, de Tom Wolfe, que foi motivo de um ou dois vídeos no meu canal do You Tube: a fala. Isto é, o trinômio ler, falar e escrever.

Quando digo “ler”, uso o verbo no sentido amplo, quase como sinônimo de “perceber”. Da mesma forma, entendo “falar” aqui como “comunicar”, “tornar presente”. E “escrever” aqui é o mesmo que “registrar”, “legar ao futuro”.

Foi o que chamei em meu web-livro Para Escrever Melhor de domínio do tempo. Na época, não me dei conta da extensão desse conceito, sua singularidade. O que é estranho aos animais é justamente essa ideia de tempo que abarca não só o passado e o presente, mas também os futuros do presente e do passado, e todo o campo hipotético do subjuntivo.

Esse domínio do tempo, como chamei, não se explica por nenhuma evolução biológica ou material propriamente, mas exige a presença de uma ideia fundamental e inata (no sentido de fundamental e fundante): a ideia de infinito. E aí de novo Descartes acertou (e inovou) em cheio.

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