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E no fim, é o Verbo

In the new millennium, to take one example of the transformed terrain, environmental issues came to be central in a way that seemed to render linguistic constructionism irrelevant or seemed simply to suggest its falsity. Though discourse has many roles in helping create carbon emissions, for example, it’s the material interactions of particles, whether known or unknown to anyone, narrated or not, that is the heart of the problem. Any philosophy that seemed to undermine the reality of the natural world, or make it a malleable human artefact, has come to feel potentially destructive. Indeed, scholars’ obsession with linguistic interpretation, their notion that everyone has always experienced the world as though reading a book, came to seem at a certain point to be an artefact of privilege, as well as fundamentally implausible.

Crispin Sartwell, The post-linguistic turn, Aeon Magazine.


Gostei muito desse artigo. Sartwell é professor no Dickinson College da Pensilvânia e tem uma pegada anarquista interessante porque sua crítica à convergência das “filosofias da linguagem” dominantes converge, por sua vez, com a crítica à pós-modernidade operada por filósofos conservadores.

Crispin Sartwell

A redução da filosofia à análise da linguagem pode ser um tema árido para o leitor não tão interessado em questões aparentemente distantes da realidade cotidiana. Nada mais falso: sem ao menos uma ideia do que seja essa “virada linguística” é impossível entender a obsessão politicamente correta por neologismos e seu index de palavras e expressões que pretende alcançar até os clássicos da literatura. Só então o que parece um delírio de minorias – compreensível, mas passageiro – revela-se como a praxis de uma filosofia que crê – e esse é de fato o termo: crer – que a realidade é uma criação humana, cultural, e essencialmente linguística.

Como escreve Crispin Sartwell na abertura do seu artigo: “‘There is nothing outside the text,’ wrote Jacques Derrida in 1967. Like most everything Derrida said, this notorious declaration becomes more difficult to interpret as one examines its context and the context of its context. But it aptly captures the flavour of academic philosophy at the time it appeared, which was also the year of Richard Rorty’s anthology The Linguistic Turn, which embodied an argument that the most important philosophy of the 20th century was linguistic philosophy.”

Derrida e Rorty são ícones dessas duas vertentes antagônicas no varejo, mas convergentes no atacado: ambas se encontram no altar do mesmo culto à linguagem, numa espécie de, me ocorre agora, nominalismo às avessas ou hiperidealismo: se literalmente só percebemos o que podemos nomear, logo de um modo pra lá de contrassensual “as palavras precedem a existência”.

Mais contrassensual ainda é imaginar que figuras tão díspares quanto Kant e Hegel sejam os profetas dessas duas vertentes: o primeiro, dos analíticos (ou “anglicanos”, como prefiro) e o segundo dos continentais. No entanto, os dois teriam em comum a forte influência pietista, segundo o livro Hegel and the Hermetic Tradition, de G. A. Magee. Eu sempre imaginara o Pietismo como uma especie de jansenismo protestante, mas a coisa é muito mais complexa e tem seus laços com o Hermetismo alemão que remonta a Jacob Boheme – de quem eu já ouvira dizer que Hegel plagiara literalmente o essencial de sua obra. Ainda não terminei o livro, mas Magee dá a entender que sim.

Bem, se depois ler tudo isso você pensou em Cabala, somos dois. E aí começa a ironia, porque se tanto Kant quanto Hegel tem os dois pés fincados no Iluminismo anticlerical e ateísta, chega a ser cômico ver que “no fim, é o Verbo” – ainda que despido de toda a graça do Gênesis.

Como se vê, em filosofia o passado nos condena – não à morte, mas ao recomeço. Em seu furor antimetafísico, a filosofia se descolou demais da física, – e da própria realidade. Esse, aliás, o tema de outro livro que estou começando: Metafísicas Rebeldes, de Olivier Boulnois.

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