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Acaso e Hiperdeterminismo

Contingência e necessidade são dois conceitos que eu diria autoevidentes: a simples observação da Vida aponta para a existência de dois tipos de eventos: aqueles que parecem resultar de uma cadeia regular e muito exata de fatos – o que lhes garante uma previsibilidade mais ou menos segura. E outros, que parecem resultar do conluio de uma quantidade de variáveis e condições tão grande e mais ou menos aleatórias que os tornam imprevisíveis ou quase.

Dos primeiros dizemos que são necessários e deles extraímos leis. Dos segundos dizemos que são contingentes e tentamos calcular sua probabilidade de ocorrência.

Na Vida, Necessidade e Contingência se misturam ou se justapõem mais ou menos sem conflito. Agora mesmo, enquanto faço um café e observo minhas plantas, me ocorrem exemplos: se o tempo de floração das plantas acontece em períodos do ano bem determinados, por outro lado, seu crescimento segue uma trajetória aleatória orientada por sua carência de sol e os obstáculos que encontra pela frente.

Toda criatura para existir na plenitude de sua liberdade está submetida às necessidades de sua natureza.

Acaso e determinação – é preciso destacar – não são sinônimos de contingencia e necessidade. Se eu quisesse complicar, psicologizando a conversa, eu diria que, se necessidade e contingência são fatos, acaso e hiperdeterminação são sintomas.


É interessante perceber o estado em que o Pensamento se encontra neste momento de exaustão – perigoso, sem duvida, mas sobretudo entediante – em face da revolução digital e suas consequências tanto nas ciências quanto no cotidiano. Prisioneiro do materialismo grosseiro derivado do justificável anticlericalismo iluminista, estamos hoje numa bifurcação intelectual que nos conduz a dois becos sem saída: uma via que se funda no acaso e outra que se funda no determinismo – ou melhor, num hiperdeterminismo.


O Evolucionismo é um idealismo, um corolário da negação de qualquer relação de verdade entre a mente e o mundo. O Evolucionismo funda-se na ideia de que as mudanças genéticas não são respostas da Vida às vicissitudes do Mundo, mas uma consequência de mutações acontecidas ao acaso. Isto é, o Acaso toma o lugar da Inteligência: a natureza é essencialmente louca.

Que Natureza seja o nome que se dá a Deus na Biologia não considero um problema. É preferível que se deixe Deus para teólogos e fiéis e assim se evite essa tolice que se chama criacionismo, uma pseudoteoria que empobrece a Biologia e avilta a Teologia.

Mas esse correlação é incontornável, pois a quem se referem os biólogos quando tratam a Natureza como um ente? O que se deixa implícito, me parece óbvio, é a presunção de uma inteligência a mover essa entidade, Uma inteligência que se comunica com a inteligência humana, uma inteligência dialogante, portanto. Esse paralelo e suas consequências só se torna contraditório quando usado por evolucionistas: na teoria evolucionista, Acaso e Natureza são, em última instância, inconciliáveis. Não penso aqui, em contraponto, num fiat continuo e infalível ou, ao contrário, na emergência de mutações aleatórias espalhadas no tempo, mas num processo dialogante entre os seres e Natureza.

Enfim, o surpreendente é que haja inteligência no mundo e não o contrário. A tentativa – ou a obsessão – de negá-lo é uma herança negativa do anticlericalismo triunfante dos séculos 19 e 20. Um anticlericalismo compreensível, mas que o tempo tornou desnecessário.


O determinismo radical do tipo espinosista – não à toa, tão caro aos marxistas – se funda na incompreensão da ideia de infinito. Parto de Espinosa exatamente por isso: ao se pretender um cartesiano ou pós-cartesiano, Espinosa demonstra em suas conclusões não ter compreendido o alcance das Meditações e em especial da ideia de infinito.

O determinismo supõe o tempo como ele nos aparece, isto é, sucessivo e irrevogável. Mas, se pensado sob o ponto de vista do infinito, ele é simultâneo, isto é, está já todo dado aí como um imenso campo de possibilidade a ser atualizado por atos de vontade dos seres que dele participam.

Mais importante e evidente: hiperdeterminismo e evolucionismo são circulares. Da mesma forma que a sobrevivência é que atesta a aptidão, e não o contrário, qualquer evento passado parece inevitável aos olhos do presente. O hiperdeterminismo do tipo espinosista é um determinismo a posteriori!

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