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Descartes e Freud

Heidegger recupera a ideia de esquecimento. Esquecemos do corpo, do Mundo, dos seres. Esquecemos do Ser, acho que dirá Heidegger. Mas o que é Ser para Heidegger? Eu acho que ele o procura no lugar errado: Heidegger é alemão.

Ele, Husserl, Hegel, Kant estão presos naquele intervalo entre a Primeira e a Segunda Meditação de Descartes. Eles não emergem “do outro lado”, isto é, na Segunda Meditação.

Eles “abrem os olhos” antes de completar o percurso cartesiano e, por isso, dão por verdadeira a negação em que haviam voluntariamente mergulhado para engendrar a Primeira Meditação, isto é, concluem que o Mundo é de fato produto de um Gênio Maligno.

Segue-se, por óbvio, filosofias obscuras que oscilam entre a criptografia (Hegel & Husserl Inc.) e o non-sense (Kant S.A.) nutridas por uma patológica desconfiança da Mente e do Mundo – e, sobretudo, da presumida relação de verdade entre ambos. Não à toa, Wittgenstein falará em uma “função terapêutica” ao referir-se à sua filosofia e denunciará o que chamou de, agora não me ocorre a expressão exata, de feitiço da linguagem.

Porque, por óbvio (expressão que não cansarei aqui de repetir), na impossibilidade de crer nas representações sensíveis do mundo e dos conceitos que daí extraio seja para desenvolvê-las, seja para corrigi-las, será preciso sobrepor ao Mundo uma segunda camada, essa, sim, puramente humana: a linguagem. E acreditar que da sua análise, digamos, lógica, se obterá alguma forma de não mais “correspondência”, mas de “consistência” entre minhas representações e os eventos que por suposto ocorrem fora da Mente , no que será chamada não mais de Mundo, mas de mundo fenomênico. O aristotélico-platonismo subjetivista de Kant é um monstrengo trivial, vulgar, mas devastador. O espiritismo hegeliano segue por outras vias, mas chega ao mesmo lugar nenhum.


Qual a diferença essencial que os separa de Descartes?
Descartes não discute a verdade intuitivamente dada das representações mentais mas quer buscar para elas uma consistência metafisica – que necessariamente nos conduz à ideia de Deus, de Mente ou Alma, e de Mundo.

Incapazes de aceitar qualquer conclusão que repouse sobre esses fundamentos (porque não souberam completar o percurso do experimento metafísico cartesiano) os “obscurantistas” Hegel e Kant ficaram aprisionados no intervalo entre a Primeira e a Segunda Meditação, aguardando que “lhes abram a porta ao pé de uma parede sem porta”, confiando que da prolixa produção de palavras emerja a fórmula mágica que revele a “verdadeira verdade”: como Espinosa, eles também são produtores de lentes…


Freud, sem deixar de ser alemão, seguirá o caminho inverso. Em vez de buscar uma saída que não a cartesiana, ele escava o fundo do abismo e desce aos subterrâneos e literalmente descobre o que chamará de Inconsciente. A linguagem não mais será tratada como a interface entre a mente e o mundo fenomênico, cuja precisão repousa numa sempre problemática consistência, mas a janela involuntária para um outro mundo, tanto mais nítido em sua obscuridade quanto mais sugestivos seus erros e atos falhos.

Por isso, Freud é a única novidade depois de Descartes?


Freud percebe que nesse lugar o movimento não é de saída, mas de entrada. E descobre o inconsciente. Ou melhor: na ausência dos sentidos, Freud descobre a imaginação. A parte de nós menos submetida ao intelecto e mais próxima da volição – e dos sentidos.


A ideia de um nível de livre associação necessário para o bom funcionamento do sistema é interessantíssimo. E que esse nível tenha de ser necessarimanete pré-linguistico parece obvio.

Uma parte do intelecto deve permanecer primária, livre, pré-linguística para que a própria linguagem possa funcionar.

Essa descoberta freudiana é a maior novidade desde as Meditações.


Freud pensa como um alemão. Mas não é exatamente um alemão.
Porque é alemão, não consegue completar a experiência metafísica e despertar do outro lado. Mas porque é judeu (como Kafka), ele (aterrado pelo pesadelo kantiano) cava, desce, afunda para ultrapassar as muralhas do solipsismo: o idealismo alemão é um gueto.


Porque não consegue chegar ao “eu penso”, Freud maravilhosamente passa a pensar como se não houvesse eu penso?


Também podemos imaginar que Freud chegue ao outro lado, encontre o “Cogito”, mas em vez de seguir o percurso cartesiano, decida voltar para investigar as profundezas da escuridão e do silêncio.

Freud é um Escafandrista.

Freud quer explorar a obscura infinitude do Zero que antecede o Um.

Nessa outra dimensão, não há ainda eu nem mundo. Não há sequer Deus. Depois do Cogito, Descartes recupera o Mundo como memória. Lá para onde Freud retorna, no âmbito pré-linguístico, o que há é a errante imaginação que perdura em seu diálogo cego com os sentidos: e/ou s/ou ou só sonho?


Na Quarta Meditação, Descartes se pergunta “por que erro?” A resposta é desconsertante: porque minha vontade é infinita.

Aqui uma digressão: Vontade em Descartes, entendida como “vontade em geral”, será melhor denominada “Volição”, uma vez que acredito que a Volição tem dois modos: Voluntas (modo positivo) e Noluntas (modo negativo) que é exatamente o modo da volição acionado por Descartes em face da hipótese do Gênio Maligno.

Vontade ou Volição é o que em nós desdenha do Entendimento porque ele é finito – nos diz mais ou menos Descartes – porque nossa Volição é infinita. Freudianamente pensando, acho que a Volição (em seus dois modos simultaneamente dados) é o Desejo, o desejo de reproduzir, de sobreviver, de amar e ser amado.

Esse é o drama ontológico do cartesianismo : a Volição de viver não conhece limites, imago dei em mim. Por outro lado, há o Mundo. Cabe ao Entendimento, limitado, mediar a relação desse ser primordialmente desejante – que é por definição ególatra – com o Mundo – que é por definição relacional.

Freud assinaria embaixo, acho eu.

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