O mesmo argumento de que se vale Spinoza para “demonstrar” seu hiperdeterminismo ou a ilusão do livre arbítrio – isto é a limitação cognitiva humana incapaz de perceber a completa teia de causalidade que determina cada ato desde sempre – serviria para “demonstrar” exatamente o contrário: o indeterminismo radical que torna cada ato singularíssimo e imprevisível em última instância (ainda que, na prática, probabilisticamente quantificavel). Spinoza é cartesiano na forma, mas é anticartesano no conteúdo, uma vez que o Deus de Descartes é absolutamente livre, não estando sequer constrangido pelas leis do Mundo que criou, uma liberdade que por isso inclusive contagia toda a Criação: toda criatura está aberta à Graça e ao Milagre.
O hiperdeterminiso de Spinoza decorre presumo de uma má compreensão da natureza do tempo. De fato, nossa percepção imediata do tempo faz dele uma seta que segue irrevogavelmente, inexoravelmente, do passado para o futuro, de tal modo que o presente infinitesimal parece determinado pelo passado e determinar o futuro.
No entanto, se não podemos “experimentar” a eternidade (esse outro nome do infinito), isto é, se só podemos expermentar o tempo como sucessão, podemos pensá-lo como eternidade. Desse ponto ponto de vista, isto é do ponto de vista da eternidade, o tempo não é uma seta mas uma ponte: o tempo todo já está dado de tal modo que atos presentes alteram ou podem alterar não só o futuro como o próprio passado.
O delírio de controle tecnoautocrata deriva dessa interpretação tosca do cartesianismo por Spinoza com sua óbvia petição de principio (negativa) sobre a relação entre liberdade, vontade e entendimento. Por que petição de principio? Ora, se o ser humano é incapaz de dar conta da complexa cadeia causal que determinaria cada evento ou ato de vontade como seria capaz de se dar conta disso? O que o autorizaria a essa conclusão se ele supõe e conclui por sua incapacidade cognitiva?
É o mesmo problema que se dá em Kant e em toda filosofia alemã – idealista por deformação.
Tomemos o pedaço de cera observado por Descartes nas Meditações.
O que Descartes vê “com os olhos do espírito”? Ou melhor: o que Descartes vê com os olhos do espírito simultaneamente ao que vê com seus olhos carnais? A cera como ente imerso num campo de possibilidades em constante atualização em resposta às circunstâncias do mundo ao redor. Em resposta ao calor, a cera derreteu-se, e espalhou-se líquida sobre a mesa, adequando-se ao relevo dela. Fosse outra a superfície, poderia ter tomado incontáveis formas, cujo número, indefinido, beira o infinito.
Descartes nos demonstra empiricamente que temos uma ideia de infinito e – mais importante – ela está na base de todas as representações que temos das coisas, no sentido exato que o conceito de ato/ potência aristotélico aponta. Sim, nesse sentido, Descartes é aristotélico – e valeria dizer, como provocação, ao menos – tomista.