{"id":927,"date":"2025-12-21T21:21:22","date_gmt":"2025-12-21T21:21:22","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=927"},"modified":"2025-12-21T21:21:23","modified_gmt":"2025-12-21T21:21:23","slug":"sapolsky-negacao-e-ressentimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=927","title":{"rendered":"Sapolsky, nega\u00e7\u00e3o e ressentimento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de come\u00e7ar, duas observa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1) Este texto n\u00e3o sup\u00f5e necessariamente a leitura da entrevista na Folha (https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2025\/08\/ser-humano-nao-tem-e-nunca-teve-livre-arbitrio-diz-cientista-robert-sapolsky.shtml) que est\u00e1 sob um paywall, j\u00e1 que vou dissecando a entrevista quase frase por frase. Mas por uma quest\u00e3o de justi\u00e7a e rigor \u00e9 sempre bom ir \u00e0s fontes (e quebrar um paywall nem \u00e9 uma tarefa assim t\u00e3o complicada).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2) Escrevi esse longo texto, que, acho, \u00e9 do interesse especialmente de terapeutas, porque a &#8220;vis\u00e3o de mundo&#8221; exposta por Sapolsky \u00e9 no m\u00ednimo influente e afeta sobretudo os mais fr\u00e1geis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 seis meses atr\u00e1s, em agosto, saiu no UOL\/ Folha uma entrevista cujo t\u00edtulo me soou ao mesmo tempo pretensioso e absurdo: &#8220;Ser humano n\u00e3o tem e nunca teve livre-arb\u00edtrio, diz cientista Robert Sapolsky&#8221;. Separei para ler depois porque sabia que l\u00e1 estava mais um a tagarelar com sucesso sobre o que de fato n\u00e3o entende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o deu outra. A entrevista \u00e9 uma sucess\u00e3o de erros que s\u00f3 evidenciam a completa ignor\u00e2ncia de Sapolsky sobre conceitos pr\u00f3prios da Metaf\u00edsica &#8211; liberdade, conting\u00eancia, livre-arb\u00edtrio, vontade, mat\u00e9ria e forma, complexidade, tempo &#8211; e por a\u00ed vai&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coisa \u00e9 t\u00e3o ruim que eu nem sabia por onde come\u00e7ar. Decidi escrever uma an\u00e1lise da entrevista, gravar em v\u00eddeo algumas observa\u00e7\u00f5es sobre os erros conceituais filos\u00f3ficos e depois, escrever um segundo texto explorando mais o tema conceitual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tentativa de nos empurrar Sapolsky como autoridade no assunto come\u00e7a pela apresenta\u00e7\u00e3o de suas credenciais: professor da Universidade Stanford, fez gradua\u00e7\u00e3o em bioantropologia em Harvard e doutorado em neuroendocrinologia na Universidade Rockefeller, ambas nos EUA. Al\u00e9m de &#8220;Determinados&#8221;, \u00e9 autor de &#8220;Mem\u00f3rias de Um Primata&#8221; (2004), &#8220;Por Que As Zebras N\u00e3o T\u00eam \u00dalceras&#8221; (2008) e &#8220;Comporte-Se&#8221; (2021). Ou seja, nada o qualifica a se meter em Filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resumo do pensamento de Sapolsky, escrito pelo entrevistador \u00e0 guisa de introdu\u00e7\u00e3o, chega a ser ing\u00eanuo: &#8220;Para entender qualquer comportamento humano, diz o neurocientista e primat\u00f3logo americano Robert Sapolsky, 68, \u00e9 preciso entender toda a cadeia de fatores que o influenciaram.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso \u00e9 a princ\u00edpio n\u00e3o quer dizer nada, uma afirma\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica que pode ser aplicada em algumas circunst\u00e2ncias talvez, sobretudo no Direito &#8211; e s\u00f3. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil aceitar que as circunst\u00e2ncias t\u00eam valor no julgamento e interpreta\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es humanas, mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que elas n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Sim, isso \u00e9 o senso comum. E \u00e9 contra ele que Sapolsky se volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O entrevistador continua: &#8220;Ou seja, tem que levar em conta o que aconteceu horas antes, meses antes e mesmo d\u00e9cadas, s\u00e9culos e mil\u00eanios antes, quando a pessoa ainda estava na barriga de sua m\u00e3e ou quando seus ancestrais eram moldados pela hist\u00f3ria. Em nenhum ponto dessa trama intermin\u00e1vel de causas seria poss\u00edvel falar em livre-arb\u00edtrio.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o se poderia? Porque se trata de uma &#8220;trama intermin\u00e1vel de causas&#8221;, presume-se. Mas o que tem isso a ver com livre-arb\u00edtrio? No entanto, a express\u00e3o &#8220;moldados pela hist\u00f3ria&#8221; j\u00e1 nos uma indica\u00e7\u00e3o de para onde estamos indo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Sapolsky avan\u00e7ar\u00e1 r\u00e1pido, com a ajuda do entrevistador, um companheiro de viagem: &#8220;Uma coisa curiosa do livro \u00e9 o fato de que pessoas como neurocientistas e fil\u00f3sofos, que n\u00e3o deveriam ter um apego muito grande \u00e0 ideia de livre-arb\u00edtrio, acabam defendendo o conceito com unhas e dentes. E isso mesmo depois de deixarem de lado as bases religiosas e metaf\u00edsicas dessa ideia.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei dos neurocientistas, mas de onde o entrevistador &#8211; e Sapolsky, suponho &#8211; tirou a ideia de que fil\u00f3sofos n\u00e3o deveriam &#8220;ter apego&#8221; \u00e0 ideia de livre arb\u00edtrio? E que hist\u00f3ria \u00e9 essa de &#8220;bases religiosas e metaf\u00edsicas dessa ideia&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De cara, essa confus\u00e3o entre religi\u00e3o \u00e9 metaf\u00edsica \u00e9 absurda e j\u00e1 denota ignor\u00e2ncia. Segundo, a Filosofia n\u00e3o rejeitou a Metafisica pela simples raz\u00e3o de a Metafisica ser uma condi\u00e7\u00e3o de possibilidade da Filosofia. Dito de outro modo, a pretendida &#8220;nega\u00e7\u00e3o da metaf\u00edsica&#8221; \u00e9 apenas mais uma escola metaf\u00edsica e n\u00e3o alguma esp\u00e9cie de &#8220;corte epistemol\u00f3gico&#8221; como quer essa turma de que faz parte Sapolsky: kantianos, marxistas e positivistas; materialistas, idealistas e anal\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De onde Sapolsky tira, por exemplo, a ideia a seguir: \u201cJ\u00e1 no caso dos fil\u00f3sofos profissionais, as pesquisas sugerem que entre 90% e 95% se identificam como compatibilistas. Ou seja, eles afirmam: &#8220;\u00c9, o mundo \u00e9 feito de \u00e1tomos, assim como n\u00f3s e tal, mas de algum jeito a\u00ed ainda existe espa\u00e7o para o livre-arb\u00edtrio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o consigo imaginar um &#8211; um \u00fanico &#8211; fil\u00f3sofo s\u00e9rio que misture desse modo F\u00edsica e Metaf\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas Sapolsky n\u00e3o se abala: \u201cE, quando voc\u00ea olha com cuidado para os argumentos deles, sempre, em algum lugar l\u00e1 dentro, eles enfiam algum elemento m\u00e1gico para explicar isso. Mas n\u00e3o: o Universo, o c\u00e9rebro, os neur\u00f4nios n\u00e3o funcionam desse jeito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">o que ele chama de \u201celemento m\u00e1gico\u201d? Simples, qualquer conceito que n\u00e3o seja estritamente materialista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seguida, o del\u00edrio narcisista: \u201cMas n\u00e3o: o Universo, o c\u00e9rebro, os neur\u00f4nios n\u00e3o funcionam desse jeito.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja: ele domina todos os ramos do conhecimento e produziu a t\u00e3o sonhada \u201cunifica\u00e7\u00e3o do conhecimento\u201d, a \u201cteoria de todas as teorias\u201d. A semelhan\u00e7a com a fantasia juvenil do marxismo original de Marx e Engels, do seu &#8220;materialismo dial\u00e9tico&#8221; n\u00e3o \u00e9 obra do acaso, mas uma escolha. \u00c9 a Escolinha de Viena do professor Adorno n\u00edvel quinta s\u00e9rie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o del\u00edrio segue: \u201cSobre a raz\u00e3o para tanta resist\u00eancia, \u00e9 porque essa ideia \u00e9 perturbadora demais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto \u00e9: todos os que discordam dele, s\u00e3o pessoas fr\u00e1geis &#8211; n\u00e3o s\u00f3 intelectualmente, como j\u00e1 vimos, mas emocionalmente tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 praxe entre maus argumentadores, ele abusa de atribuir aos advers\u00e1rios argumentos idiotas contra os quais ele mesmo se volta &#8211; s\u00e3o seus moinhos de vento: \u201cA primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de alarme c\u00edvico. &#8220;Ah, que \u00f3timo, vamos deixar os assassinos soltos nas ruas&#8221; ou algo assim, o que \u00e9 bobagem. \u00c9 um tipo de alarme religioso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem afinal reage com esse tipo de \u201calarme c\u00edvico\u201d? Que eu saiba ningu\u00e9m, ningu\u00e9m salta da aus\u00eancia suposta de livre-arb\u00edtrio para inimputabilidade de assassinos e outros criminosos &#8211; s\u00f3 um imbecil talvez. Ao contr\u00e1rio, a consequ\u00eancia jur\u00eddico-penal \u00f3bvia da tese sapolskiana seria a transforma\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios em manic\u00f4mios judici\u00e1rios e a medica\u00e7\u00e3o em massa dos encarcerados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segue-se outro contra-argumento idiota produzido sob medida: \u201cTamb\u00e9m h\u00e1 quem adote uma postura muito fatalista: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que nada nunca vai mudar no mundo&#8221;, ou seja, nem adianta tentar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De onde algu\u00e9m tiraria essa consequ\u00eancia da falta de livre-arb\u00edtrio? O m\u00e1ximo seria supor que n\u00e3o temos controle individual sobre as mudan\u00e7as do mundo, da sociedade, etc. e que elas ocorrer\u00e3o por si mesmas &#8211; movidas talvez pela Hist\u00f3ria com H mai\u00fasculo, como queria o marxismo juvenil de Marx e Engels, o seu materialismo hist\u00f3rico que reduzia os indiv\u00edduos a meros epifen\u00f4menos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seguir, a inconsist\u00eancia bate no topo: \u201cQuando voc\u00ea come\u00e7a a escutar esse pessoal mais acad\u00eamico para entender de onde vem a postura deles, percebe que, na maior parte dos casos, a vis\u00e3o \u00e9 a seguinte: &#8220;N\u00e3o venha me dizer que eu n\u00e3o mere\u00e7o elogios pelo meu trabalho duro. N\u00e3o venha me dizer que n\u00e3o foi por m\u00e9rito que eu me matei para conseguir meus t\u00edtulos e minha c\u00e1tedra chique de professor Fulano de Tal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ent\u00e3o n\u00e3o faria parte desse \u201cpessoal mais acad\u00eamico\u201d, \u00e9 isso? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bem isso, apesar de sua cultivada apar\u00eancia de primata, de &#8220;homem da natureza&#8217;. Ele n\u00e3o faz parte \u00e9 dessa turma de pessoas ego\u00edstas e interesseiras que temem perder poder por conta da \u201cverdade do hiperdeterminismo\u201d. Ou, como ele mesmo diz, supostamente repetindo seus advers\u00e1rios:&#8221;N\u00e3o venha me dizer que n\u00e3o foi por m\u00e9rito que eu me matei para conseguir meus t\u00edtulos e minha c\u00e1tedra chique de professor Fulano de Tal&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o, n\u00e3o: ele n\u00e3o faz parte dessa turma&#8230; E o seu hiperdeterminismo \u00e9 mais uma v\u00edtima da m\u00e1-f\u00e9 dos &#8220;acad\u00eamicos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ai, enfim, a carteirada final de marxista juvenil: \u201cEnt\u00e3o, parece ser um conforto para a classe dominante.\u201d Classe dominante? Estava demorando&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E l\u00e1 vamos n\u00f3s ladeira abaixo: \u201cMas mesmo jogando fora tudo isso, l\u00e1 no fundo ainda sobra o terror existencial de por que dever\u00edamos nos importar com alguma coisa se somos s\u00f3 m\u00e1quinas. \u00c9 duro de enfrentar. \u00c9 assustador, mexe com nossas intui\u00e7\u00f5es mais b\u00e1sicas. Seus privil\u00e9gios passam a ser vistos como coisas que voc\u00ea n\u00e3o conquistou de verdade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja: as quest\u00f5es centrais da Filosofia s\u00e3o reduzidas ao terror existencial de n\u00e3o se perceber que todos os argumentos contra o hiperdeterminismo s\u00e3o pura \u201cideologia de classe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como o entrevistador \u00e9 ele mesmo um &#8220;convertido&#8221;, a inconsist\u00eancia pomposa segue com facilidade seu caminho: \u201cNo livro, o sr. diz que at\u00e9 mesmo outros primatas parecem ter essa intui\u00e7\u00e3o instintiva de que o livre-arb\u00edtrio existe. Seria um jeito de pensar \u00fatil para a vida em sociedade, para saber quem \u00e9 confi\u00e1vel e quem n\u00e3o \u00e9?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltamos ao utilitarismo do s\u00e9culo 19 t\u00e3o caro ao evolucionismo juvenil. E repare: ele \u00e9 um materialista, um antimetaf\u00edsico, um ateu &#8211; mas existe algo (um Inconsciente Coletivo? uma Ess\u00eancia Comum? A Hist\u00f3ria? A Natureza?) que se move segundo o \u00fatil. S\u00f3 que o apelo ao \u00fatil, como o apelo \u00e0 &#8220;sobreviv\u00eancia do mais apto\u201d \u00e9 um argumento circular &#8211; ele s\u00f3 se prova a posteriori: o que ou quem se imp\u00f5e ou sobrevive? O mais \u00fatil ou o mais apto. Mas o que \u00e9 ou quem \u00e9 mais \u00fatil ou mais apto? o que se imp\u00f5e ou sobrevive. Uma peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio que qualquer aluno de l\u00f3gica elementar percebe h\u00e1 pelo menos 2500 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta de Sapolsky chega a ser engra\u00e7ada, mas fiquemos s\u00f3 com a repeti\u00e7\u00e3o do recurso de inventar contra-argumentos idiotas: \u201cPoucos seres humanos est\u00e3o dispostos a sentar e dizer: &#8220;Espere a\u00ed. Vamos tentar entender como aquela pessoa se tornou quem \u00e9 e se ela realmente tinha algum controle sobre isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como assim, \u201cpoucos seres humanos\u201d? Fazemos isso h\u00e1 pelo menos 2000 mil anos, mas n\u00e3o precisamos ir t\u00e3o longe: est\u00e3o a\u00ed todas as terapias, toda uma literatura ficcional, um bando de filmes e pe\u00e7as de teatro, etc, etc. O drama existe exatamente a\u00ed, na tens\u00e3o entre a vontade singular e as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que c\u00edrculos esse senhor frequenta? J\u00e1 sabemos: kantianos, marxistas e positivistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E claro, na sequ\u00eancia, como n\u00e3o dava pra encaixar Hitler e o nazismo, vamos de teoria qu\u00e2ntica, com a ajuda mais uma vez do entrevistador: \u201cVemos outros pensadores usando elementos da ci\u00eancia que n\u00e3o t\u00eam nada a ver diretamente com o comportamento humano, como a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica e a teoria do caos, como poss\u00edveis bases para o livre-arb\u00edtrio. Por que eles buscam se apoiar nessas teorias complexas e distantes?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pra come\u00e7ar pelo \u00f3bvio: liberdade, conting\u00eancia, vontade, livre-arb\u00edtrio s\u00e3o conceitos que j\u00e1 estavam a\u00ed h\u00e1 mais de dois mil anos quando os f\u00edsicos os introduziram na F\u00edsica &#8211; e n\u00e3o o contr\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claro existem picaretas e pseudopensadores que gostam de misturar as coisas. Mas, de novo: nenhum fil\u00f3sofo s\u00e9rio vai buscar na F\u00edsica argumentos ou mistura as coisas desse jeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dito isso, vamos \u00e0 resposta de Sapolsky: \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o examina detidamente esse tipo de coisa, \u00e9 f\u00e1cil ficar com a impress\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel produzir livre-arb\u00edtrio desse jeito, com coisas novas surgindo a partir do nada. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. As coisas n\u00e3o se libertam das suas propriedades f\u00edsicas s\u00f3 porque um n\u00famero muito grande delas est\u00e1 interagindo ao mesmo tempo. Ideias como a teoria do caos e a complexidade emergente s\u00e3o t\u00e3o bonitas, t\u00e3o interessantes, permitem explicar fen\u00f4menos t\u00e3o complicados como a otimiza\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria das formigas ou a organiza\u00e7\u00e3o dos neur\u00f4nios no c\u00e9rebro, que \u00e9 tentador us\u00e1-las para dizer: \u00e9 assim que nos transformamos em agentes de nossas pr\u00f3prias escolhas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta \u00e9 t\u00e3o confusa que soa enigm\u00e1tica: \u201cAs coisas n\u00e3o se libertam das suas propriedades f\u00edsicas s\u00f3 porque um n\u00famero muito grande delas est\u00e1 interagindo ao mesmo tempo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos diante do que Kant, vejam s\u00f3, chamaria de antinomia: o argumento far\u00e1 sentido tanto em sua forma negativa (&#8220;as coisas n\u00e3o se libertam&#8221;) como em sua forma afirmativa (&#8220;as coisas se libertam&#8221;) a depender da defini\u00e7\u00e3o e o peso conceitual que se atribua \u00e0s ideias de &#8220;propriedade f\u00edsica&#8221; e de &#8220;intera\u00e7\u00e3o&#8221; (rela\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso ainda n\u00e3o \u00e9 o pior: \u201cIdeias como a teoria do caos e a complexidade emergente s\u00e3o t\u00e3o bonitas, t\u00e3o interessantes, permitem explicar fen\u00f4menos t\u00e3o complicados como a otimiza\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria das formigas ou a organiza\u00e7\u00e3o dos neur\u00f4nios no c\u00e9rebro, que \u00e9 tentador us\u00e1-las para dizer: \u00e9 assim que nos transformamos em agentes de nossas pr\u00f3prias escolhas. Claro que isso \u00e9 muito melhor do que dizer que o livre-arb\u00edtrio existe porque a gente \u00e9 &#8220;capaz de senti-lo&#8221;, ou porque seria deprimente demais dizer que ele n\u00e3o existe. E \u00e9 algo mais palat\u00e1vel para certos tipos de fil\u00f3sofos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui me parece que ele exp\u00f5e sua ignor\u00e2ncia filos\u00f3fica sobre conceitos como causalidade e complexidade, e de novo recorre ao \u201cargumento psicol\u00f3gico\u201d para refutar seus advers\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a coisa s\u00f3 piora: \u201cA compreens\u00e3o que temos sobre a a\u00e7\u00e3o consciente muda alguma coisa? Em algum n\u00edvel, tomar uma decis\u00e3o consciente seria algo &#8216;mais livre&#8217; do que rea\u00e7\u00f5es inconscientes?&#8221; \u201cA consci\u00eancia \u00e9 irrelevante para o debate sobre o livre-arb\u00edtrio. Algumas das coisas que fazemos acontecem por meio de canais conscientes e outras por canais inconscientes. Com certeza \u00e9 f\u00e1cil perceber a falta de livre-arb\u00edtrio no primeiro caso, e s\u00f3 \u00e9 preciso um pouco mais de esfor\u00e7o para perceber a mesma coisa no segundo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa frase: \u201cA consci\u00eancia \u00e9 irrelevante para o debate sobre o livre-arb\u00edtrio\u201d leva a pergunta \u00f3bvia de qual seria ent\u00e3o o estado mental relevante para o debate. Eu n\u00e3o sei responder. Mas certamente dizer que \u00e9 mais f\u00e1cil perceber a falta de livre arb\u00edtrio nas atitudes conscientes \u00e9, primeiro, altamente duvidoso e subjetivo. E, sobretudo, \u00e9 destru\u00eddo como argumento pelo argumento anterior da irrelev\u00e2ncia da consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, dizer \u201cA compreens\u00e3o que temos sobre a a\u00e7\u00e3o consciente muda alguma coisa? Em algum n\u00edvel, tomar uma decis\u00e3o consciente seria algo &#8216;mais livre&#8217; do que rea\u00e7\u00f5es inconscientes?&#8221; \u00e9 absurdo porque o que distingue o consciente do inconsciente \u00e9 justamente seu car\u00e1ter volunt\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas se est\u00e1 ruim, ainda pode piorar: \u201cDigamos que voc\u00ea tem uma inten\u00e7\u00e3o e est\u00e1 consciente dela. Voc\u00ea tem uma ideia bastante boa do que provavelmente vai acontecer se voc\u00ea seguir o que essa inten\u00e7\u00e3o dita e tem outras alternativas dispon\u00edveis. E, para muita gente, isso resolve a parada: trata-se de livre-arb\u00edtrio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, exatamente. \u00c9 isso que chamamos de livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMas se voc\u00ea apenas analisar o que acontece quando algu\u00e9m formula uma inten\u00e7\u00e3o de agir, est\u00e1 deixando de lado 99% do que \u00e9 relevante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, por \u00f3bvio. Mas, e da\u00ed? Afirmar que 99% das alternativas rejeitadas s\u00e3o relevantes \u00e9 um argumento ret\u00f3rico e sem sentido. Mas mesmo que fosse verdadeiro, dai n\u00e3o se seguiria que: \u201ca verdadeira quest\u00e3o \u00e9: como voc\u00ea se tornou o tipo de pessoa que formularia aquela inten\u00e7\u00e3o naquele momento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Sapolsky &#8220;a verdadeira quest\u00e3o&#8221; se responde apelando a uma esp\u00e9cie de &#8220;historicismo psicologista&#8221; que eliminaria o livre-arb\u00edtrio. A hip\u00f3tese \u00e9 fraca e absurda. Porque, sim, pode-se levar conta &#8211; e de fato levamos &#8211; uma s\u00e9rie de caracter\u00edsticas singulares que podem em parte ser atribu\u00eddas \u00e0 rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 exatamente essa subjetividade que refor\u00e7a a ideia de livre-arb\u00edtrio, n\u00e3o? Diante das alternativas 1, 2 e 3, se o sujeito A, que tem um temperamento e uma certa hist\u00f3ria de vida, escolhe 1 e o sujeito B, escolhe 2, essas escolhas singulares afirmam ou negam o livre-arb\u00edtrio? A mim, ao menos, me parece que afirmam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que, por \u00f3bvio, n\u00e3o se suponha o livre-arb\u00edtrio como uma esp\u00e9cie de superpoder capaz de produzir por mera a\u00e7\u00e3o da vontade o imposs\u00edvel. Ou dito de outro modo: o fato do livre-arb\u00edtrio estar limitado pelo poss\u00edvel n\u00e3o o elimina de modo algum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Sapolsky finaliza: \u201cE essa \u00e9 a hist\u00f3ria completa: n\u00e3o a de quem voc\u00ea \u00e9, mas a de como voc\u00ea se tornou quem voc\u00ea \u00e9. E isso tem a ver com o que aconteceu na sua inf\u00e2ncia, no \u00fatero da sua m\u00e3e, na cultura dos seus ancestrais ao longo de centenas de anos e assim por diante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m nega o valor da hist\u00f3ria individual na forma\u00e7\u00e3o de um sujeito, a influ\u00eancia social, etc &#8211; mas ningu\u00e9m s\u00e9rio ousa elevar esse argumento a uma condi\u00e7\u00e3o t\u00e3o fundamental a ponto de negar o livre-arb\u00edtrio. \u00c9 a hora em que o materialismo dial\u00e9tico de Sapolsky deixa de ser juvenil para se tornar simplesmente senil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mais engra\u00e7ado e tentador \u00e9 ler o relato de Sapolsky de como largou o seu campo cient\u00edfico para se meter com a filosofia: \u201cAcabei tendo de fazer uma decis\u00e3o muito intuitiva sobre que tipo de c\u00e9lula inflamat\u00f3ria dever\u00edamos modificar geneticamente e provavelmente escolhi o tipo errado.\u201d Por isso cortaram suas verbas e fecharam seu laborat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele foi vitima do seu livre arb\u00edtrio, \u00e9 isso? Vale portanto perguntar se, movido pelo ressentimento, Sapolsky n\u00e3o est\u00e1 simplesmente tentando negar seu erro apelando para a nega\u00e7\u00e3o do livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de come\u00e7ar, duas observa\u00e7\u00f5es: 1) Este texto n\u00e3o sup\u00f5e necessariamente a leitura da entrevista na Folha (https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2025\/08\/ser-humano-nao-tem-e-nunca-teve-livre-arbitrio-diz-cientista-robert-sapolsky.shtml) que est\u00e1 sob um paywall, j\u00e1 que&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=927\">Continuar lendo<span class=\"screen-reader-text\">Sapolsky, nega\u00e7\u00e3o e ressentimento<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":28,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-927","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=927"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":931,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/927\/revisions\/931"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}