{"id":858,"date":"2025-06-16T13:24:56","date_gmt":"2025-06-16T13:24:56","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=858"},"modified":"2025-08-26T01:11:52","modified_gmt":"2025-08-26T01:11:52","slug":"hume-e-o-pesadelo-idealista-de-kant","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=858","title":{"rendered":"Hume e o pesadelo idealista de Kant"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Publiquei uma s\u00e9rie de tr\u00eas videos sobre Hume no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@ahcaetano\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">meu canal do You Tube<\/a>. Como sempre falo de improviso, o que me leva a digress\u00f5es \u00e0s vezes longas, e a repeti\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o fa\u00e7o edi\u00e7\u00e3o, achei que seria interessante escrever um resumo mesmo parcial do que disse. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hume \u00e9 um pensador &#8211; e uma figura humana &#8211; interessant\u00edssimo. Infelizmente para seu infort\u00fanio (e talvez contra sua vontade se lhe fosse dado escolher) teve seu nome associado a Kant, que atribui \u00e0 leitura de um de seus livros, n\u00e3o lembro exatamente qual, o despertar de seu &#8220;sono dogm\u00e1tico&#8221; &#8211; para embarcar no pesadelo idealista que nos assombra at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se poderia pensar pessoas mais distintas: o que Hume tinha de solar, Kant tinha de sombrio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hume percorre o caminho aberto por Locke de um empirismo racionalista sem preocupa\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas. Ou talvez se possa dizer, um cartesianismo \u00e0 inglesa. Se aceitamos essa hip\u00f3tese interpretativa, fica f\u00e1cil compreender a conclus\u00e3o de Hume pela rejei\u00e7\u00e3o da causalidade baseada em indu\u00e7\u00e3o. Partindo do suposto de que a causalidade n\u00e3o \u00e9 uma evid\u00eancia emp\u00edrica, mas uma infer\u00eancia baseada numa sucess\u00e3o de eventos que se repetem com regularidade, isto \u00e9, toda vez que tenho A segue-se B, a causalidade perde seu &#8220;sentido forte&#8221;, tanto no sentido ontol\u00f3gico e metafisico, quanto no sentido l\u00f3gico. Em resumo, o v\u00ednculo entre causalidade e necessidade (e portanto universalidade) \u00e9 refutado. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kant enxergar\u00e1 a\u00ed a reivindica\u00e7\u00e3o do relativismo e do ceticismo, onde encontrar\u00e1 pretexto para a constru\u00e7\u00e3o de sua epistemologia absurda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, a conclus\u00e3o de Hume pode ser interpretada de uma maneira positiva, certamente mais afinada ao car\u00e1ter de seu autor, e sem preju\u00edzo de seu ceticismo &#8211; antimetaf\u00edsico sobretudo.<br><br><em>(Uma digress\u00e3o: o que quero dizer com isso? Que Hume aceita o racionalismo cartesiano com alguns ajuste, mas despreza a fundamenta\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica que Descartes considerava fundamental)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rejei\u00e7\u00e3o da causalidade nos termos de Hume \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o d contig\u1ebdncia de todos os fatos que se imp\u00f5e como um saud\u00e1vel princ\u00edpio de prud\u00eancia que n\u00e3o rejeita a possibilidade da verdade, no sentido forte, mas considera seu alcance sempre pontual, parcial e incompleto, de modo que, muto ao gosto de Tom\u00e1s de Aquino, de toda verdade sempre nos ser\u00e1 possivel extrair mais verdade, porque a verdade \u00e9 inesgot\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 essa ades\u00e3o \u00e0 &#8220;contig\u00eancia de todos os fatos&#8221; (no dizer de Wittgenstein) como um princ\u00edpio de prud\u00eancia (e de economia) para toda produ\u00e7\u00e3o intelectual o que torna Hume t\u00e3o importante.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, a op\u00e7\u00e3o pela &#8220;teologia negativa&#8221; de Kant n\u00e3o \u00e9 indiferente: ao contr\u00e1rio, tem consequ\u00eancias tr\u00e1gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na teoria do conhecimento de Kant, que ele chama de Est\u00e9tica e com ela abre sua Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura, a rela\u00e7\u00e3o entre a mente o mundo se d\u00e1 do seguinte modo: os sentidos captam os dados sens\u00edveis dos objetos ao redor; esses dados s\u00e3o imediatamente formatados espa\u00e7o-temporalmente pela mente. \u00c9 sob essa forma indireta, mentalmente formatada, que percebemos o mundo. Da\u00ed a c\u00e9lebre tolice: &#8220;a coisa em si \u00e9 incognic\u00edvel&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Como j\u00e1 disse em outros textos e v\u00eddeos, a pr\u00f3pria ideia de coisa em si \u00e9 uma bobagem, um falso problema, se admitimos que o Ser \u00e9 relacional. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que Kant faz com sua teoria \u00e9 cortar o v\u00ednculo intelectual (e espiritual) entre a mente e o mundo, pois em \u00faltima inst\u00e2ncia o que de fato apreendemos n\u00e3o s\u00e3o os objetos, mas ideias humanamente tratadas dos objetos. N\u00e3o h\u00e1 portanto di\u00e1logo com o mundo, a natureza, a vida. E por isso n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o, \u00eatase, conhecimento de fato. Como escreve Fernando Pessoa\/ Alvaro de Campos (aquele que tem &#8220;feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu&#8221;): <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Escravos card\u00edacos das estrelas,<br>Conquist\u00e1mos todo o mundo antes de nos levantar da cama;<br>Mas acord\u00e1mos e ele \u00e9 opaco,<br>Levant\u00e1mo-nos e ele \u00e9 alheio,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu costumo dizer que a refuta\u00e7\u00e3o dessa tolice \u00e9 simples: basta ver um c\u00e3o brincando com seu dono, pegando no ar os objetos que ele lhe atira. C\u00e3o e homem partilham as mesmas coordenadas espa\u00e7o-temporais &#8211; assim como tudo mais ao redor. Conclus\u00e3o: a est\u00e9tica kantiana ou \u00e9 falsa ou \u00e9 redundante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a coisa \u00e9 ainda pior. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apliquemos o mesmo esquema aos objetos artificiais produzidos pelos homens. A cadeira que tenho agora diante de mim, ela foi idealizada, isto \u00e9, deve sua forma, a outro homem, que s\u00f3 pode t\u00ea-la pensado em termos humanos, isto \u00e9, tridimensionais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo quando a minha mente formata tridimensionalmente os dados sens\u00edveis que colhe dessa cadeira, a ideia obtida \u00e9 de supor ser muito mais precisa que aquela que me vem do gato, da \u00e1rvore e das coisas em geral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja: minha desconfian\u00e7a da Natureza \u00e9 altamente compensada pela intimidade que acredito ter com os objetos que outros humanos produziram. Aquilo que os pintores chamam de &#8220;natureza morta&#8221; \u00e9 onde o homem kantiano mais \u00e0 vontade est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se pensarmos agora no mundo em que vivemos hoje, facilmente se percebe que ele foi criado segundo esse paradigma kantiano. A natureza foi submetida, escravizada, domesticada e vivemos todos confortavelmente cercados pelos produtos humanos dessa devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa consequ\u00eancia do kantismo n\u00e3o lembro de ter visto apontada por ningu\u00e9m, apesar de me parecer muito \u00f3bvia. Se entendermos o kantismo como uma forma de idealismo, e o idealismo como a express\u00e3o moderna do gnosticismo, percebemos que a quest\u00e3o \u00e9 muito mais profunda e vital &#8211; e exige, me parece, um vigoroso retorno ao realismo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publiquei uma s\u00e9rie de tr\u00eas videos sobre Hume no meu canal do You Tube. 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