{"id":75,"date":"2023-05-26T20:48:33","date_gmt":"2023-05-26T20:48:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=75"},"modified":"2023-05-26T20:48:33","modified_gmt":"2023-05-26T20:48:33","slug":"uma-ideia-de-infinito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=75","title":{"rendered":"Uma ideia de infinito"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conversando com um monge amigo para o <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?page_id=268\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">meu artigo sobre Kant<\/a>, l\u00e1 pelas tantas come\u00e7amos a imaginar o que seria de uma criatura ou de uma esp\u00e9cie se Deus decidisse \u201cesquec\u00ea-la\u201d &#8211; supondo que todas as criaturas s\u00e3o ideias de Deus e em Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fal\u00e1vamos da metafisica de Arist\u00f3teles, do conceito de mat\u00e9ria e forma, cujo exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 a ideia da est\u00e1tua na mente do escultor antes dele dar forma ao peda\u00e7o de m\u00e1rmore que lhe servir\u00e1 de mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso da minha palestra\/ artigo, usei o exemplo do clipe, uma inven\u00e7\u00e3o recente, que ilustra ainda melhor essa rela\u00e7\u00e3o entre forma e mat\u00e9ria, ess\u00eancia e exist\u00eancia, esp\u00e9cie e criatura &#8211; at\u00e9 chegar em pot\u00eancia e ato, a\u00ed j\u00e1 num \u201csalto\u201d de grau de complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro exemplo, inversamente, s\u00e3o esse objetos arqueol\u00f3gicos descobertos em ru\u00ednas de antigas civiliza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sabemos para que serviam. Nesse caso, temos o objeto, mas foi sua ideia que se perdeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesma linha de racioc\u00ednio, temos as plantas descobertas pelos europeus no Novo Mundo. A mandioca, no Brasil, \u00e9 um exemplo. Foi preciso entrar em contato com os \u00edndios para descobrir que como aquilo se transformava em alimento &#8211; ou melhor at\u00e9: como o alimento provinha daquilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 ideia criadora e ao objeto criado, dever\u00edamos acrescentar um terceiro elemento: a ideia coletiva do objeto criado. Essa ideia \u00e9, ao mesmo tempo, representa\u00e7\u00e3o do objeto, mas tamb\u00e9m potencialmente nela est\u00e3o contidas as inumer\u00e1veis varia\u00e7\u00f5es da ideia original. Assim, por exemplo, al\u00e9m de todas as varia\u00e7\u00f5es em torno da ideia do clipe original que foram sendo criadas, dispon\u00edveis nas papelarias, h\u00e1 o exemplo radical do monumento ao clipe, erguido na Noruega, que tem para os noruegueses o valor de um s\u00edmbolo nacional: durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista da Noruega, os noruegueses usavam um clipe na lapela como signo de sua resist\u00eancia passiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imaginemos a hip\u00f3tese c\u00f4mica de um arque\u00f3logo que daqui a 3.000 anos, depois de descobrir f\u00f3sseis de clipes por toda a regi\u00e3o que um dia fora a Noruega, finalmente se deparasse com a descoberta sensacional do monumento ao clipe. Chegaria, quem sabe a conclus\u00e3o, que os habitantes da regi\u00e3o adoravam uma entidade cuja representa\u00e7\u00e3o era aquela estranha forma que carregavam consigo, como amuletos, e cujo templo desaparecido gaur dava aquela monumental est\u00e1tua desse deus desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a forma do clipe totemizada num monumento gigantesco j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um clipe propriamente ainda que jamais deixe de s\u00ea-lo. Classific\u00e1-lo \u00e9 uma tarefa para os semi\u00f3ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, retomando a conversa com o monge meu amigo, e supondo que a todas as criaturas naturais corresponda uma ideia criadora em Deus, o Criador, por analogia ao esquema da cria\u00e7\u00e3o das coisas artificiais, imaginamos, eu e o monge, o que sucederia a uma criatura ou esp\u00e9cie se Deus decidisse \u201capag\u00e1-la\u201d de Si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa conclus\u00e3o, espetacular e aterradora, \u00e9 que essa criatura ou esp\u00e9cie deixaria imediatamente de ter existido, isto \u00e9, deixaria de existir, tanto no presente e obviamente no futuro, como tamb\u00e9m no passado. Seria ent\u00e3o como se ela jamais tivesse existido. Podemos, acho, imaginar todas as men\u00e7\u00f5es \u00e0 Rosa, por exemplo, simplesmente sumindo de todos os livros, quadros, poemas e lembran\u00e7as &#8211; num piscar de olhos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/11462221@N04\/1548609726\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"525\" src=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k-700x525.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-271\" srcset=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k-700x525.jpg 700w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k-300x225.jpg 300w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k-768x576.jpg 768w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1548609726_32d3bb64a4_k.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">O <strong>meu<\/strong> chafariz: o chafariz do Largo do Machado: &#8220;&#8230; la folie de l&#8217;eau em seu delicioso excesso&#8221; como escrevi uma vez.  <br><a href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/11462221@N04\/1548609726\/\">Foto de Wanda<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa hip\u00f3tese nos remete \u00e0 ideia de tempo e de Infinito. Nossa representa\u00e7\u00e3o do tempo sup\u00f5e que ele seja uma seta que aponta para o futuro, de tal modo que o passado \u00e9 uma fatalidade irrevog\u00e1vel. No entanto, visto sob essa nova perspectiva, o passado, assim como o futuro, seriam afetados e modificados pelas a\u00e7\u00f5es no presente. Seria ent\u00e3o como se o tempo fosse n\u00e3o uma seta, mas uma ponte, um fluxo que corre incessante, para frente e para tr\u00e1s, por assim dizer, modificando-se, refazendo-se, segundo algum principio ordenador que nos transcende.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa ideia combina perfeitamente com a defini\u00e7\u00e3o cartesiana de tempo discreto, mais ou menos resumida na no\u00e7\u00e3o de que para Deus criar e conservar s\u00e3o o mesmo. Na vida cotidiana, ela \u00e0s vezes nos surpreende quando, por exemplo, olhando um fluxo de \u00e1gua que desce ao longo do meio fio de uma ladeira, de repente, ele nos parece estar subindo, e n\u00e3o descendo; para, logo em seguida, parecer estar subindo e descendo &#8211; ao mesmo tempo! A mesma impress\u00e3o tamb\u00e9m nos pode ser causada pelos jatos verticais de um chafariz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa simultaneidade do tempo seria, por defini\u00e7\u00e3o, o infinito no que ele se confunde com o eterno. Faz sentido com o princ\u00edpio fundamental da f\u00edsica cartesiana de que a \u201cquantidade\u201d de extens\u00e3o e movimento est\u00e1 dada desde sempre e permanece inalterada. Faz sentido tamb\u00e9m, presumo eu, sem poder afirm\u00e1-lo com certeza, com a f\u00edsica relativista \u201ccl\u00e1ssica\u201d. E faz sentido igualmente com a teologia crist\u00e3 de um projeto providencial que alcan\u00e7aria em algum momento sua completude, culminando com uma esp\u00e9cie de upgrade, em que exatamente o que \u00e9 para ser &#8211; o que \u00e9 bom &#8211; se fixaria no ser, enquanto o que n\u00e3o \u00e9 para ser &#8211; o n\u00e3o-ser ou o mal, no sentido agostiniano &#8211; seria relegado ao esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;<em>&#8230; coisas passadas ser\u00e3o esquecidas, n\u00e3o voltar\u00e3o mais \u00e0 mem\u00f3ria.&#8221;<\/em> Isa\u00edas, 65, 17<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cO Senhor pousa seus olhos sobre os justos, e seu ouvido est\u00e1 atento ao seu chamado; mas ele volta a sua face contra os maus, para da terra apagar sua lembran\u00e7a.\u201d<\/em> Salmo 33,16-17<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqui entro no tereno movedi\u00e7o das cren\u00e7as pessoais. N\u00e3o creio no Inferno como sofrimento eterno. Creio no esquecimento eterno. Creio que sob do ponto de vista da criatura, infinito ou eterno n\u00e3o \u00e9 uma medida temporal, mas uma medida de intensidade: creio que a consci\u00eancia de apagar-se sem ter jamais existido ser\u00e1 um instante infinitesimal de dor infinita (mais ou menos como ser tragada por um buraco negro!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa minha personal\u00edssima \u201cteologia da salva\u00e7\u00e3o\u201d, chamemos assim, a medida que o amor avan\u00e7ar em sua incondicionalidade curadora um homem como Hitler ir\u00e1 se apagando at\u00e9 que reste um pequeno Adolf ressentido que se apagar\u00e1 por si s\u00f3 por conta de seu cora\u00e7\u00e3o duro que n\u00e3o conhece o arrependimento e sente-se justificado no mal que pratica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob um ponto de vista teol\u00f3gico &#8211; ou dogm\u00e1tico &#8211; e ainda recorrendo \u00e0s medita\u00e7\u00f5es de Descartes, Infinito e Deus s\u00e3o o mesmo. Ent\u00e3o, dito de outro modo, Deus pode tudo &#8211; inclusive mudar o passado. O tempo s\u00f3 nos parece irrevers\u00edvel porque somos criaturas finitas. Ou melhor, j\u00e1 que estamos no terreno da Teologia: porque somos, n\u00f3s humanos, criaturas marcadas pelo Pecado Original, ainda que mitigado pela Paix\u00e3o de Cristo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio de todas as outras criaturas, temos a (falsa) consci\u00eancia da morte, o que determina todos os nossos atos: vivemos segundo a economia pr\u00f3pria de tudo que \u00e9 finito, isto \u00e9, obter o m\u00e1ximo de \u201crendimento\u201d com o m\u00ednimo de esfor\u00e7o, porque nosso \u00fanico objetivo \u00e9 durar o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Essa tr\u00e1gica condi\u00e7\u00e3o explicaria o imp\u00e9rio da lei do mais forte &#8211; ou lei do menor esfor\u00e7o, neste contexto &#8211; fundamento de todas as rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas e abusivas que marcam todas as sociedades humanas at\u00e9 o Advento &#8211; e, depois, apesar dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tao, minha gatinha, \u00e9. Simplesmente \u00e9. Quero dizer com isso que Tao \u00e9 simplesmente sempre o melhor gato poss\u00edvel, sem desejar ser outra criatura ou de outra esp\u00e9cie. A inveja que nos marca &#8211; seguindo aqui a ideia geral do trabalho de Ren\u00e9 Girard &#8211; \u00e9 pr\u00f3pria da natureza humana corrompida pelo Pecado Original &#8211; e se expressa nessa insaci\u00e1vel vontade de poder t\u00e3o vis\u00edvel a olho nu;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, na Natureza (e aqui como em Descartes e talvez Spinoza) s\u00f3 o Homem existe, mas n\u00e3o \u00e9. S\u00f3 o Homem pode existir sem ser. Tudo mais pode, como Deus, porque criaturas dele, dizer \u201ceu sou o que sou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa condi\u00e7\u00e3o \u201cantinatural\u201d \u00e9 uma conting\u00eancia, no entanto, uma conting\u00eancia que, por outro lado, demanda de cada homem um esfor\u00e7o para alinhar-se de volta com o Ser. A chave para deixar de existir para ser \u00e9 o amor, o amor incondicional, o amor de m\u00e3e, pregado por Cristo, capaz de de \u201cnos restituir a Gl\u00f3ria\u201d pr\u00f3pria de quem se sabe imortal filho de Deus.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a id\u00e9ia de Infinito como fundamento da consci\u00eancia e do pr\u00f3prio pensamento, d\u00ea uma lida no meu web-book <a href=\"https:\/\/descartes.antoniocaetano.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Meditando com Descartes<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para uma abordagem mais matem\u00e1tica, digamos assim, da ideia de Infinito, vejam o excelente document\u00e1rio <em>Uma Viagem ao Infinito<\/em>, na Netflix.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conversando com um monge amigo para o meu artigo sobre Kant, l\u00e1 pelas tantas come\u00e7amos a imaginar o que seria de uma criatura ou de&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=75\">Continuar lendo<span class=\"screen-reader-text\">Uma ideia de infinito<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":24,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[37,39,26,38,36,25],"class_list":["post-75","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filosofia","tag-agostinho","tag-aristoteles","tag-infinito","tag-kant","tag-girard","tag-tempo","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/75","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=75"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/75\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":275,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/75\/revisions\/275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=75"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=75"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=75"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}