{"id":732,"date":"2024-06-23T15:18:07","date_gmt":"2024-06-23T15:18:07","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=732"},"modified":"2024-07-13T01:08:46","modified_gmt":"2024-07-13T01:08:46","slug":"resumo-da-semana-22-06-24","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=732","title":{"rendered":"De Mois\u00e9s a Marx e a revolta dos escravos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se fosse pra ser literal, esta p\u00e1gina deveria estar em branco: foi uma semana em que n\u00e3o escrevi nem gravei nada. Tenho, sim, dois posts quase prontos &#8211; se entendermos esse &#8220;quase&#8221; com voluptuosa elasticidade. E uma ideia muito geral sobre o que dizer no v\u00eddeo que pretendo gravar hoje (se isso acontecer, atualizarei este post com o link).<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre os textos: o que primeiro comecei \u00e9 sobre uma ideia que me ocorreu aos poucos. Sempre refleti sobre o contraste entre a escravid\u00e3o expl\u00edcita da Antiguidade e a explora\u00e7\u00e3o do trabalhadores depois da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial.<br>At\u00e9 hoje fico pasmo quando vejo, leio ou ou\u00e7o conjecturas que atribuem a constru\u00e7\u00e3o dos grandes monumentos da Antiguidade &#8211; as pir\u00e2mides, por exemplo &#8211; a alguma tecnologia perdida, cuja origem \u00e0s vezes \u00e9 atribu\u00edda at\u00e9 a extraterrestres. A resposta pra esse pseudo-enigma \u00e9 muito mais simples: m\u00e3o de obra escrava ilimitada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo: a constru\u00e7\u00e3o sob as ordens de Stalin do canal que liga o Mar Branco ao B\u00e1ltico. A hist\u00f3ria \u00e9 contada &#8211; sob o ponto de vista dos escravos que l\u00e1 trabalharam &#8211; por Alexander Soljen\u00edtsin, em <em>Arquip\u00e9lago Gulag<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com os campos de concentra\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos abarrotados e ansioso por uma obra que rivalizasse com o Canal do Panam\u00e1 &#8211; mas que fosse mais longa e constru\u00edda em menos tempo  &#8211; Stalin decidiu-se pela liga\u00e7\u00e3o do Mar Branco ao B\u00e1ltico. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 havia um problema: dinheiro. Escravos n\u00e3o faltavam, mas n\u00e3o havia grana nem para a compra de ferramentas e m\u00e1quinas. Solu\u00e7\u00e3o: que os prisioneiros dos gulags se virassem. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim foi feito: mais de 150 mil prisioneiros foram mobilizados e  tiveram de  improvisar a fabrica\u00e7\u00e3o de boa parte das ferramentas e m\u00e1quinas. Mas a obra in\u00fatil foi executada em tempo recorde (20 meses) e ao pre\u00e7o  de um n\u00famero de vidas estimado entre 11 mil e 60 mil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas os escravos da Antiguidade n\u00e3o sa\u00edam na foto. S\u00f3 depois da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem, da industrializa\u00e7\u00e3o crescente, da literatura social (Hugo, Dickens, Zola, Proudhon Marx, etc) e da inven\u00e7\u00e3o da fotografia, claro, \u00e9 que os escravos come\u00e7aram a se tornar vis\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas foi s\u00f3 outro dia que percebi uma outra obviedade: cat\u00f3lico e leitor (mais eventual do que gostaria) da B\u00edblia, me dei conta de repente que o \u00caxodo &#8211; isto \u00e9, a condu\u00e7\u00e3o dos judeus do Egito \u00e0 Terra Prometida &#8211; pode ser lido como o registro &#8211; e por mil\u00eanios o \u00fanico, que eu saiba &#8211; da primeira revolta de escravos bem sucedida da hist\u00f3ria humana!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, h\u00e1 uma linha que liga Mois\u00e9s a Marx, passando por todo o Cristianismo (uma heresia judaica, como disse Borges num conto) &#8211; gostemos disso ou n\u00e3o. Eu gosto.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro quase-texto \u00e9 sobre Fernando Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha aposta \u00e9 que em mais uma gera\u00e7\u00e3o Fernando Pessoa ser\u00e1 considerado o maior escritor em prosa e verso do s\u00e9culo 20.  Porque essa dita intelig\u00eancia artificial 1.0 tem uma aplica\u00e7\u00e3o imediata \u00f3bvia &#8211; e realmente \u00fatil: tradu\u00e7\u00f5es. O que vai beneficiar muito autores como Pessoa, que escreveram a maior parte de sua obra em l\u00ednguas perif\u00e9ricas como o portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 poss\u00edvel discordar (e muito!) do Pessoa fil\u00f3sofo &#8211; cujo pensamento se nutriu at\u00e9 a indigest\u00e3o no esoterismo da primeira metade do s\u00e9culo: Blavatsky, Crowley, astrologia, etc. O que na pr\u00e1tica se traduz numa frase que ir\u00e1 perseguir Pessoa \u00e0 exaust\u00e3o (literalmente): &#8220;Tudo \u00e9 simbolo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois \u00e9, eu digo: nada \u00e9 simbolo de nada. Tudo \u00e9 o que \u00e9, em sua profundidade abissal e inesgot\u00e1vel. Ou dito de outro modo: tudo \u00e9 Ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aten\u00e7\u00e3o: isso n\u00e3o me faz melhor que Pessoa nem o diminui sequer um milimetro como escritor. <em>Tabacaria <\/em>segue sendo o maior poema do s\u00e9culo 20 e o <em>Livro do Desassossego <\/em>o melhor romance em prosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se fosse pra ser literal, esta p\u00e1gina deveria estar em branco: foi uma semana em que n\u00e3o escrevi nem gravei nada. 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