{"id":690,"date":"2024-05-05T00:04:27","date_gmt":"2024-05-05T00:04:27","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=690"},"modified":"2024-05-05T00:04:28","modified_gmt":"2024-05-05T00:04:28","slug":"niilismo-e-a-morte-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=690","title":{"rendered":"Niilismo e a morte de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu acabara de comentar com um amigo sobre o niilismo que inspirara a carnificina que foi a Primeira Guerra Mundial e, em seguida, ao conferir meus e-mails, dei de cara com o texto abaixo do fil\u00f3sofo italiano Giorgio Agamben que me chegou pela newsletter da <a href=\"https:\/\/ayine.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">editora \u00c2yin\u00e9<\/a> &#8211; que vale muito a pena assinar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Quando Nietzsche, h\u00e1 quase cento e cinquenta anos, formulou seu diagn\u00f3stico sobre a morte de Deus, pensava que esse evento inaudito iria mudar radicalmente a exist\u00eancia dos homens sobre a terra. \u201cOnde nos movemos agora? \u2013 escrevia \u2013 N\u00e3o ca\u00edmos continuamente? [&#8230;] Ainda existem um \u2018em cima\u2019 e um \u2018embaixo\u2019? Ser\u00e1 que n\u00e3o estamos vagando atrav\u00e9s de um nada infinito?\u201d. E Kirilov, o personagem de Os Dem\u00f4nios, sobre cujas palavras Nietzsche havia meditado com aten\u00e7\u00e3o, pensava a morte de Deus com o mesmo pathos sincero, e dela extraia, como consequ\u00eancia necess\u00e1ria, a emancipa\u00e7\u00e3o de uma vontade j\u00e1 sem limites e, ao mesmo tempo, o sem sentido e o suic\u00eddio: \u201cSe Deus existe, eu sou Deus&#8230; Se Deus existe, toda a vontade \u00e9 sua e eu n\u00e3o posso me esquivar dessa sua vontade. Se Deus n\u00e3o existe, toda a vontade \u00e9 minha e sou obrigado a abra\u00e7ar meu livre arb\u00edtrio&#8230; Sou obrigado a me dar um tiro, porque a express\u00e3o mais plena de meu livre arb\u00edtrio \u00e9 me suicidar\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o podemos nos cansar de refletir sobre o fato de que, um s\u00e9culo e meio depois, esse pathos parece agora ter desaparecido por completo. Os homens sobreviveram placidamente \u00e0 morte de Deus e continuam a viver sem dificuldades, por assim dizer, como se nada tivesse acontecido. Como se nada \u2013 justamente \u2013 tivesse acontecido. O niilismo, que de in\u00edcio os intelectuais europeus haviam saudado como o mais inquietante dos h\u00f3spedes, tornou-se uma condi\u00e7\u00e3o cotidiana fraca e indiferente, com a qual, ao contr\u00e1rio do que pensavam Turgenev e Dostoievski, Nietzsche e Heidegger, \u00e9 poss\u00edvel tranquilamente conviver, continuando a buscar dinheiro e trabalho, a se casar e divorciar, a viajar e sair de f\u00e9rias. O homem hoje vaga sem pensar numa terra de ningu\u00e9m, al\u00e9m n\u00e3o s\u00f3 do divino e do humano, mas tamb\u00e9m (com todo respeito \u00e0queles que teorizam cinicamente um retorno dos homens \u00e0 natureza da qual prov\u00eam) do animal. Certamente todos concordar\u00e3o que tudo isso n\u00e3o tem sentido, que sem o divino n\u00e3o sabemos mais como pensar o humano e o animal, mas isso apenas significa que tudo e nada agora s\u00e3o poss\u00edveis. Nada: isto \u00e9, que, no limite, n\u00e3o haja mais mundo, mas reste a linguagem (isto \u00e9, pensando bem, o \u00fanico significado do termo \u201cnada\u201d \u2013 que a linguagem destrua, como est\u00e1 fazendo, o mundo, acreditando que a ele poder\u00e1 sobreviver). Tudo: talvez tamb\u00e9m, e isso \u00e9 para n\u00f3s decisivo, a apari\u00e7\u00e3o de uma nova figura \u2013 nova, isto \u00e9, arcaica e, ao mesmo tempo, muito pr\u00f3xima, t\u00e3o pr\u00f3xima que n\u00e3o conseguimos v\u00ea-la. De quem e do que? Do divino, do humano, do animal?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sempre pensamos o vivente no interior dessa tr\u00edade, ao mesmo tempo prestigiosa e incerta, sempre os jogando um contra o outro ou um com o outro. Talvez n\u00e3o tenha chegado o momento de nos lembrar de quando o vivente n\u00e3o era ainda nem um deus, nem um homem, nem um animal, mas simplesmente uma alma, isto \u00e9, uma vida?&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecia Agamben, mas nunca lera. Mas gostei tanto desse texto que resolvi comprar os dois livros dele que me eram oferecidos em promo\u00e7\u00e3o: <em>Coisas que vi, ouvi, aprendi\u2026<\/em> e <em>Quando a casa queima<\/em>. Imagino que esse texto perten\u00e7a ao primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto espero, li a vers\u00e3o digital do op\u00fasculo <em>O mist\u00e9rio do mal: Bento XVI e o fim dos tempos.<\/em> Fiquei encantado e dele falarei em outro texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00c2yin\u00e9 promete lan\u00e7ar no segundo trimestre <em>Filosofia primeira filosofia \u00faltima<\/em> onde Agamben busca responder a uma quest\u00e3o que tamb\u00e9m me inquieta: <em>&#8220;Enquanto n\u00e3o se esclarecer o nexo secreto que une e divide metaf\u00edsica, matem\u00e1tica e f\u00edsica, a rela\u00e7\u00e3o entre a filosofia e as ci\u00eancias n\u00e3o deixar\u00e1 de ser problem\u00e1tica e o saber do Ocidente continuar\u00e1 irremediavelmente cindido.&#8221;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu acabara de comentar com um amigo sobre o niilismo que inspirara a carnificina que foi a Primeira Guerra Mundial e, em seguida, ao conferir&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=690\">Continuar lendo<span class=\"screen-reader-text\">Niilismo e a morte de Deus<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":2,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[161,19,51,113,93],"class_list":["post-690","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filosofia","tag-agamben","tag-cristianismo","tag-epistemologia","tag-filosofia","tag-metafisica","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=690"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/690\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":691,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/690\/revisions\/691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}