{"id":579,"date":"2024-01-12T21:46:41","date_gmt":"2024-01-12T21:46:41","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=579"},"modified":"2024-01-14T00:46:17","modified_gmt":"2024-01-14T00:46:17","slug":"quando-comecamos-a-entender-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=579","title":{"rendered":"Quando come\u00e7amos a entender o mundo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Quando Deixamos de Entender o Mundo<\/em> \u00e9 um livro emocionante. Benjamin Labatut mistura hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o com um senso de medida impec\u00e1vel, oferecendo ao mesmo tempo muita informa\u00e7\u00e3o &#8211; nova, inclusive &#8211; e uma narrativa que nos prende como um thriller. Como escritor, ali\u00e1s, Labatut \u00e9 uma descoberta e tanto. Tem estilo, na melhor tradi\u00e7\u00e3o da literatura hispano-americana . Seu dom\u00ednio da linguagem me lembrou Mario Vargas Llosa que com o tempo foi se tornando meu favorito entre os sul-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha critica ao livro se d\u00e1 no n\u00edvel filos\u00f3fico, digamos assim. Ou melhor at\u00e9: metaf\u00edsico. O t\u00edtulo que dei ao post resume bem o sentido dessa cr\u00edtica: no meu entender, as descobertas da F\u00edsica qu\u00e2ntica s\u00f3 apontam para um &#8220;desentendimento&#8221; do mundo quando interpretadas pela m\u00e1 filosofia herdada dos s\u00e9culos 18 e 19 &#8211; e produzida especialmente em alem\u00e3o, p\u00e1tria de boa parte dos principais f\u00edsicos e matem\u00e1ticos que iriam revolucionar a F\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa combina\u00e7\u00e3o resultou numa trag\u00e9dia intelectual: em vez de comemorarmos uma \u00e1rdua conquista que nos demandou quase 2.500 anos &#8211; desde o conceito de ato\/ pot\u00eancia de Arist\u00f3teles at\u00e9 Einstein, Heisenberg, Oppenheimer &#8211; passamos a lamentar que o Universo revelado n\u00e3o correspondia \u00e0s expectativas deterministas de uma filosofia ultrapassada e anacr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Arist\u00f3teles, para resolver o paradoxo do n\u00e3o-ser, herdado pelos gregos da velha filosofia oriental, substituiu o conceito de n\u00e3o-ser pelo conceito de pot\u00eancia de ser, e definiu todo ente criado e finito como uma combina\u00e7\u00e3o de ato e pot\u00eancia, isto \u00e9, um ser em ato mergulhado em um campo de possibilidades continuamente atualiz\u00e1veis a partir de sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo ao redor, a conting\u00eancia e a liberdade tornaram-se a marca definidora de todos os entes criados. Em resumo: o mundo \u00e9 livre. Ontologicamente livre &#8211; os homens inclusive, por \u00f3bvio. Do ponto de vista humano, ali\u00e1s,essa liberdade nos iguala: somos todos filhos de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que esse breve resumo seja suficiente para mostrar o car\u00e1ter explosivo dessa ideia em culturas dominadas pelas ideias de hierarquia e domina\u00e7\u00e3o. E assim \u00e9 at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de Arist\u00f3teles, o esquema ato\/ pot\u00eancia, associado ao esquema mat\u00e9ria\/ forma, revelou-se profundamente produtivo, conduzindo o pensamento e a ci\u00eancia a patamares nunca alcan\u00e7ados at\u00e9 ent\u00e3o. No entanto, a discuss\u00e3o sobre o estatuto de realidade desses pares seguia em aberto, Especialmente a ideia de pot\u00eancia &#8211; por uma raz\u00e3o \u00f3bvia: sua imaterialidade &#8211; associada como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade do que \u00e9 a pr[opria express\u00e3o da mat\u00e9ria: o ato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, a pot\u00eancia j\u00e1 devia estar dada ao ser em ato para que este pudesse atualiz\u00e1-la; por outro, ela seria por defini\u00e7\u00e3o inverific\u00e1vel, na medida que n\u00e3o existe em ato. ou, se me permitirem um interessante jogo de palavras: ela \u00e9  sem existir. N\u00e3o \u00e9 exatamente assim t\u00e3o dif\u00edcil de intuir, e quem est\u00e1 um pouco familiarizado com a F\u00edsica qu\u00e2ntica acostumou-se j\u00e1 com esse tipo de &#8220;paradoxo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O idealismo buscou isolar a quest\u00e3o de modo a n\u00e3o deixar que suas consequ\u00eancias metafisicas contaminassem a \u00e9tica e a pol\u00edtica &#8211; insistindo que esses seriam conceitos meramente formais, entes de raz\u00e3o que pouco ou corresponderiam \u00e0 realidade. Eu gosto de dizer que a bomba at\u00f4mica enterrou de vez essa pretens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, o esfor\u00e7o de deslegitimar ou encobrir as consequ\u00eancias metaf\u00edsicas (e ontol\u00f3gicas) das conclus\u00f5es da F\u00edsica qu\u00e2ntica seguem adiante. Tenta-se impor a interpreta\u00e7\u00e3o de que as conclus\u00f5es da F\u00edsica qu\u00e2ntica apontam para um indeterminismo radical, para um mundo ca\u00f3tico, selvagem, e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, irracional. Um mundo que, portanto, exige a a\u00e7\u00e3o vigilante de uma elite centralizadora e autorit\u00e1ria para manter-se funcionando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que o comportamento das part\u00edculas subat\u00f4micas nos revela \u00e9 o estado de pot\u00eancia inerente ao ser e intu\u00eddo por Arist\u00f3teles h\u00e1 2.500 anos. Finalmente, conseguimos &#8220;ver&#8221; a pot\u00eancia do ser &#8211; e trabalhar com ela! \u00c9 essa liberdade intr\u00ednseca a toda a Cria\u00e7\u00e3o que confere ao Mundo e \u00e0 Vida sua plasticidade e diversidade exuberantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa Natureza livre n\u00e3o est\u00e1 submetida a causalidades estritas, mas busca padr\u00f5es est\u00e1veis de economia: obter o melhor rendimento com o m\u00ednimo de esfor\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 evidente que as consequ\u00eancias \u00e9ticas e politicas dessas conclus\u00f5es s\u00e3o aterradoras para os que cultivam o poder &#8211; desde sempre. N\u00e3o \u00e9 o meu caso &#8211; e acredito que n\u00e3o \u00e9 o seu, leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Deixamos de Entender o Mundo \u00e9 um livro emocionante. 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