{"id":524,"date":"2023-11-12T16:23:35","date_gmt":"2023-11-12T16:23:35","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=524"},"modified":"2023-11-15T01:19:14","modified_gmt":"2023-11-15T01:19:14","slug":"a-coisa-em-si-kantiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=524","title":{"rendered":"A coisa em si kantiana"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que \u00e9 afinal a \u201ccoisa em si\u201d kantiana? E por que ela seria inacess\u00edvel? Ou mais at\u00e9: como \u00e9 poss\u00edvel dizer que algo inacess\u00edvel existe? Como se v\u00ea, a coisa (em si) j\u00e1 come\u00e7a sob o signo da contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coisa em si, imagino, seria aquilo que desde Arist\u00f3teles chamamos de \u201cess\u00eancia\u201d, aquilo que resta, digamos assim, depois que abstra\u00edmos de um objeto suas qualidades particulares, acidentais, sens\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, por abstra\u00e7\u00e3o, chegamos \u00e0 generalidade, \u00e0 forma que define a mat\u00e9ria, \u00e0 sombra cujo teatro n\u00e3o sei se ainda hoje encanta os gregos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por exemplo, ao observarmos gatos singulares e deles abstraindo suas qualidade particulares &#8211; cor, tamanho, peso, etc &#8211; chegamos a uma imagem esquem\u00e1tica do que \u00e9 o gato como esp\u00e9cie, primeiro, e, a seguir, o felino como g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o desde Plat\u00e3o \u00e9 se essa ideia geral, esse universal, como chamou-se, tem uma exist\u00eancia real; e, se tem, que tipo de exist\u00eancia seria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a abstra\u00e7\u00e3o em si \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o mental puramente intuitiva, isto \u00e9, operamos abstra\u00e7\u00f5es desde que come\u00e7amos a operar com a linguagem, porque abstrair \u00e9 dar nome \u00e0s coisas e reconhecer seus exemplares. O m\u00e9rito infinitamente grande de Arist\u00f3teles est\u00e1 em desvendar essa opera\u00e7\u00e3o em termos l\u00f3gico-filos\u00f3ficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas Arist\u00f3teles teve uma outra percep\u00e7\u00e3o que, me parece, operou um corte epistemol\u00f3gico insuper\u00e1vel e definitivo, isto \u00e9, que levou a filosofia a um outro patamar: a ideia de que as coisas se constituem de ato e pot\u00eancia. Que as coisas s\u00e3o em ato \u00e9 uma evid\u00eancia tautol\u00f3gica. Mas &#8211; e este \u201cmas\u201d deveria vir em mai\u00fasculas garrafais &#8211; esse estar a\u00ed, em ato, se d\u00e1 circunscrito em um campo de possibilidades que lhe \u00e9 pr\u00f3prio &#8211; e a isso chamou de pot\u00eancia, pot\u00eancia de ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos chamar \u00e0 essa pot\u00eancia de ser de ess\u00eancia? Eu imagino que sim, e talvez mais propriamente at\u00e9 do que \u00e0quela abstra\u00e7\u00e3o generalizante que \u00e9 a forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a pot\u00eancia abarca n\u00e3o apenas os aspectos gerais da coisa, sua forma, que lhe define os limites pr\u00f3prios da esp\u00e9cie, mas tamb\u00e9m seus aspectos singulares &#8211; Arist\u00f3teles diria \u201cacidentais\u201d &#8211; aquilo que a define como aquela criatura espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato quando nossa aten\u00e7\u00e3o se volta para uma coisa em particular o que buscamos perceber s\u00e3o suas potencialidades enquanto ser. N\u00e3o nos \u00e9 dif\u00edcil perceber o que a coisa \u00e9 &#8211; um cavalo, por exemplo &#8211; mas a partir de suas qualidades, digamos como Arist\u00f3teles, acidentais, tentamos intuir suas potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o n\u00e3o me parece abusivo dizer que a verdadeira ess\u00eancia de uma coisa est\u00e1 na sua pot\u00eancia de ser que, de um modo mais ou menos velado, se mostra j\u00e1 na coisa em ato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pot\u00eancia, guardados os limites da esp\u00e9cie e da imprevis\u00edvel finitude a que todas as coisas est\u00e3o sujeitas, beira o infinito. Um infinito fechado, digamos assim, que intelig\u00eancia nenhuma \u00e9 capaz de abarcar plenamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pot\u00eancia revela tamb\u00e9m outro aspecto que me parece o mais pr\u00f3prio do Ser, aquilo que o define enquanto ser: ela \u00e9 inteiramente relacional. Isto \u00e9, a pot\u00eancia para atualizar-se responde a impulsos internos e externos, num di\u00e1logo permanente consigo mesmo e o mundo ao redor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como todo ato \u00e9 atualiza\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia, por isso podemos dizer que a coisa, como ato\/ pot\u00eancia, \u00e9 puramente relacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que nos devolve \u00e0 quest\u00e3o: o que \u00e9 a coisa em si? Pode ela ser pensada como algo est\u00e1tico ou como algo em si mesma? N\u00e3o seria isto um falso problema?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, haveria um em si da coisa ou o que h\u00e1 \u00e9 uma pot\u00eancia em ato que se reatualiza sucessivamente at\u00e9 o fim, isto \u00e9, at\u00e9 esgotar-se como ser? E enfatizo \u201csucessivamente\u201d porque \u00e9 o que distingue o ser finito de um ser infinito, que seria uma pot\u00eancia em ato simultaneamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, tomado como pot\u00eancia em atualiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, aquilo que chamamos Ser seria puramente relacional, isto \u00e9, n\u00e3o existiria &#8220;em si&#8221;, mas com outro ou para outro. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo o kantismo e tudo que lhe segue &#8211; Heidegger inclusive com sua enfadonha ladainha nazista &#8211; seriam falsas filosofias fundadas em falsos problemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o falta nesse mundo quem me d\u00ea raz\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 afinal a \u201ccoisa em si\u201d kantiana? E por que ela seria inacess\u00edvel? 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