{"id":520,"date":"2023-11-06T20:35:53","date_gmt":"2023-11-06T20:35:53","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=520"},"modified":"2024-12-18T09:33:02","modified_gmt":"2024-12-18T09:33:02","slug":"morrer-ou-quase","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=520","title":{"rendered":"Morrer &#8211; ou quase"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o cheguei a morrer. Mas a morte estava ali, ao alcance da m\u00e3o, como para um soldado no front. Cumpriram-se a tempo todos os protocolos, mas h\u00e1 o imponder\u00e1vel, o acaso, a vontade Deus. A calma est\u00e1 na escolha que se faz. Eu h\u00e1 muito escolhera Deus o que me permitia at\u00e9 ser grato por todo o esfor\u00e7o que me era dedicado e rir do que estava acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sala vermelha ficava em frente \u00e0 morgue, \u00e0 dist\u00e2ncia de n\u00e3o mais do que tr\u00eas metros. N\u00e3o cheguei a visit\u00e1-la, mas certamente n\u00e3o ser\u00e1 muito maior do que a sala vermelha, a \u00faltima esta\u00e7\u00e3o antes da morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Valdecir perdeu o filho h\u00e1 tr\u00eas meses. Quase enlouqueceu, ele me conta, mas sabe que o pior come\u00e7a agora, o longo processo de aceitar que a aus\u00eancia \u00e9 definitiva &#8211; e inexplic\u00e1vel. Enquanto espera, ele se distrai salvando vidas. Salvou a minha. Ou sendo mais justo: cumpriu com presteza a parte que lhe coube.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na impossibilidade de dizer alguma coisa, apenas comento que a medita\u00e7\u00e3o poderia quem sabe ajudar, como ao menos a mim estava ajudando a dormir na maca estreita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Mindfulness&#8221;, escrevo num peda\u00e7o prec\u00e1rio de papel e lhe dou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao meu lado dona Ada,de idade indefinida, geme sem parar a intervalos mais ou menos regulares. Ela parece cantar, na verdade, pois h\u00e1 um tra\u00e7o de melodia nos longos e quase mon\u00f3tonos acessos de gemidos que n\u00e3o s\u00e3o de dor ou de tristeza exatamente. Em um desses momentos, dona Edda come\u00e7ou a repetir \u201cEm\u00edlia, Em\u00edlia, Em\u00edlia\u201d e eu, na minha semi-imobilidade na maca ao lado, imaginei que ele sonhava estar num baile de carnaval cantando uma marchinha antiga. Seria lindo e foi, naquele instante, consolador. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ironia \u00e9 sempre um b\u00e1lsamo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Saving someone\u2019s life is like falling in love: the best drug in the world. (&#8230;) Why deny that, for a moment there, God was you?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nicolas Cage em Bringing out the Dead, de Martin Scosese, roteiro de Paul Schrader.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os param\u00e9dicos do SAMU s\u00e3o como monges-guerreiros medievais imbu\u00eddos daquele amor pr\u00e1tico e firme de que fala padre Pio em sua ora\u00e7\u00e3o, e metidos numa intermin\u00e1vel <em>jam session<\/em> de procedimentos que se combinam \u00e0 for\u00e7a de uma lucidez que nasce da intui\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia: cada caso \u00e9 um caso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E tudo isso rindo, injetando esperan\u00e7a direto na veia dos sujeitos que embarcam naquelas barcas de Caronte coloridas com medo de n\u00e3o voltar, vendo ou imaginando ver (se de fato tivessem calma para tanto) sua vida girando no ar como uma moeda &#8211; n\u00e3o sabendo se ainda ascendente ou j\u00e1 em queda &#8211; cara ou coroa, cara ou coroa?  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqueles rostos luminosos de otimismo talvez sejam a \u00faltima coisa viva que voc\u00ea ver\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a primeira coisa que morre \u00e9 a onipot\u00eancia. Sim, ela, essa imortal &#8211; surpreendida em algum est\u00e1gio de seu longo percurso. H\u00e1 onipot\u00eancias mais maduras e discretas. A minha seguia infantil como sempre fora, at\u00e9 ser capturada de repente ainda em suas fraldas de cupido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cAtrav\u00e9s do pecado, entrou a morte.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o Paulo aos Romanos 5,12. <br>Liturgia Di\u00e1ria, ter\u00e7a-feira, 24 de outubro de 2023<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ter\u00e1 sido Borges quem escreveu em algum lugar que temos a certeza inconsciente de sermos imortais? Ser\u00e1 mesmo de Borges essa justificativa da onipot\u00eancia nunca perdida de todo, esse ind\u00edcio t\u00e3o flagrante do enfado que \u00e9 para alguns ter de cuidar de si, essa revolta contra o estoicismo vulgar que esqueceu o pr\u00f3prio nome e origem, moral de escravos perdida em dietas e exerc\u00edcios de uma consist\u00eancia t\u00e3o substancial quanto uma imagem no espelho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que, vencida e superada essa onipot\u00eancia infantil e injustificada, de novo o que reencontro (por outros meios) \u00e9 essa certeza da imortalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 noite, im\u00f3vel na maca estreita, envolto em fraldas que me permitir\u00e3o urinar sem preocupa\u00e7\u00e3o, quando finalmente o cansa\u00e7o chegou para todos: Val, Lu, dona Ida, s\u00f3 ent\u00e3o eu quase choro pensando na Tao sozinha pela primeira vez em casa. S\u00f3 ela agora est\u00e1 s\u00f3, s\u00f3 ela nesse momento n\u00e3o tem ningu\u00e9m e n\u00e3o tem como entender porqu\u00ea. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 ent\u00e3o entendi a morte como inf\u00e2mia. E n\u00e3o chorei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 dif\u00edcil desaprender um condicionamento. Como foi dif\u00edcil aprender a n\u00e3o urinar nas cal\u00e7as. Como \u00e9 dif\u00edcil reaprender a urinar nas cal\u00e7as. Como foi dif\u00edcil desaprender a usar fraldas. Com o \u00e9 dif\u00edcil aprender a us\u00e1-las de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, que conforto \u00e9 quando a bexiga se esvazia sem molhar a roupa, a cama, a alma &#8211; e finalmente durmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquele que morre (ou quase) s\u00f3 tem a Deus. Ou n\u00e3o tem nada. \u00c9 preciso morrer (ou quase) para aprender que quase toda a filosofia contempor\u00e2nea \u00e9 uma vasta tolice.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dormi &#8211; amparado no Vipassana e no Ter\u00e7o, corpo e alma meditando e se descobrindo t\u00e3o intrinsecamente unidos justo quando t\u00e3o pr\u00f3ximos de se separar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte \u00e9 um equivoco, poderia ter dito S\u00e3o Paulo aos romanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acordo com dona Edda gemendo sua cantoria. Me consola imaginar que ela n\u00e3o sofra e em sonhos se divirta. Duro foi ouvir o genu\u00edno choro de um beb\u00ea internado por pnenumonia enquanto tentavam lhe achar a veia. O choro do beb\u00ea, a solid\u00e3o da Tao &#8211; o que se perde com o tempo (e no tempo) n\u00e3o \u00e9 a inoc\u00eancia mas a autenticidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cruzo os umbrais da sala vermelha, mas n\u00e3o sigo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 morgue: meu destino \u00e9 outro &#8211; o hospital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso morrer (ou quase) \u00e0s vezes. Faz bem \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que passeio de ambul\u00e2ncia. Nem foi a dor mais intensa que senti. Lembro disso quando os m\u00e9dicos me pedem para inventariar minhas dores e hierarquiz\u00e1-las: qual a intensidade da dor que o trouxe at\u00e9 aqui? Vergonhosamente baixa. Mas o estrago poderia ter sido grande.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cVoc\u00ea deu sorte!\u201d, n\u00e3o me canso de ouvir. Sorte, acaso, destino, gra\u00e7a. Tudo em mim escolhe a gra\u00e7a como a explica\u00e7\u00e3o mais satisfat\u00f3ria. O que por outro lado s\u00f3 aumenta minha responsabilidade: seria uma ingratid\u00e3o profunda e imperdo\u00e1vel n\u00e3o me esfor\u00e7ar para viver. Um ingratid\u00e3o com Deus e o Mundo &#8211; literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois tudo transcorreu como se ensaiado: todos estavam l\u00e1, a pessoa certa, no lugar certo e na hora certa para que eu n\u00e3o morresse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o morrer \u00e9 uma forma discreta de ressuscitar, poderia ter dito Machado. Mas n\u00e3o disse. Morreu antes. Sem atendimento. N\u00e3o havia SAMU, nem SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dona Soraia usa uma toca enfeitada com emblemas do Vasco. Ela faz parte da equipe que em pouco mais de 15 minutos me dar\u00e1 uma nova vida. Uma esp\u00e9cie de fio fino, male\u00e1vel e inteligente subir\u00e1 desde o pulso at\u00e9 o mais \u00edntimo de mim e operar\u00e1 micro-altera\u00e7\u00f5es fundamentais e refundantes. &#8220;O segredo est\u00e1 nos detalhes&#8221; nunca foi t\u00e3o verdadeiro. Sem sangue, sem cortes, sem gritos &#8211; o corpo-m\u00e1quina desejante ser\u00e1 restitu\u00eddo ao mundo por tempo indeterminado &#8211; graciosa prorroga\u00e7\u00e3o. Am\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de seguir para a enfermaria, digo para dona Soraia: \u201cEstou torcendo para o Vasco n\u00e3o cair\u201d. \u201cObrigado, meu filho\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A alegria quase hist\u00e9rica de uma enfermaria. A solidariedade fraterna dos que vivem de esperan\u00e7a. A esperan\u00e7a \u00e9 uma das tr\u00eas virtudes teologais: f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade. Na enfermaria \u00e9 poss\u00edvel descobrir que as tr\u00eas s\u00e3o misteriosamente uma s\u00f3. Como a Trindade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De volta a uma obrigat\u00f3ria imobilidade. Vipassana e os Mist\u00e9rios do Ter\u00e7o de novo. Jesus e Buda. Porque se deixasse s\u00f3 por minha conta seria insuport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na escurid\u00e3o de olhos fechados e cobertos por um par de meias, inventario os grandes filmes que t\u00eam a ver com hospital: Um Estranho no Ninho, Amargo Regresso, MASH, Nascido em Quatro de Julho (que n\u00e3o vi), Antes de Partir, Bicho de Sete Cabe\u00e7as&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Caverna de Plat\u00e3o \u00e9 uma sala de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jesus e Buda s\u00e3o homens e sabem quem s\u00e3o. Jesus sabe que \u00e9 Deus. Buda sabe que n\u00e3o \u00e9. Talvez a ilumina\u00e7\u00e3o seja isso: saber-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">* * *<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 despedida cl\u00e1ssica de todo hospital: \u201cEspero que a gente n\u00e3o se veja nunca mais\u201d, acrescento : \u201cMas se me ver na rua, fale comigo!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Valdecir, Lu, Princesa \u00c1fia, Saulo, Alessandra, Nat\u00e1lia, Ronaldo; dr. Tiago, dr. Erick, dr. Jo\u00e3o, dr. Gustavo, dr. Rafael; Douglas, seu Manoel &#8211; e tantos outros cujos nomes n\u00e3o guardei: todos agora amigos de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, sim, parafraseando Machado: \u201cQuase morrer \u00e9 uma forma interina de ressuscitar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 bom estar na rua de volta &#8211; na vertical.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o cheguei a morrer. Mas a morte estava ali, ao alcance da m\u00e3o, como para um soldado no front. 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