{"id":508,"date":"2025-08-25T22:00:00","date_gmt":"2025-08-25T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=508"},"modified":"2025-10-28T17:30:51","modified_gmt":"2025-10-28T17:30:51","slug":"descartes-e-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=508","title":{"rendered":"Descartes e Freud"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Heidegger recupera a ideia de esquecimento. Esquecemos do corpo, do Mundo, dos seres. Esquecemos do Ser, acho que dir\u00e1 Heidegger. Mas o que \u00e9 Ser para Heidegger? Eu acho que ele o procura no lugar errado: Heidegger \u00e9 alem\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele, Husserl, Hegel, Kant est\u00e3o presos naquele intervalo entre a Primeira e a Segunda Medita\u00e7\u00e3o de Descartes. Eles n\u00e3o emergem &#8220;do outro lado&#8221;, isto \u00e9, na Segunda Medita\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eles &#8220;abrem os olhos&#8221; antes de completar o percurso cartesiano e, por isso, d\u00e3o por verdadeira a nega\u00e7\u00e3o em que haviam voluntariamente mergulhado para engendrar a Primeira Medita\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, concluem que o Mundo \u00e9 de fato produto de um G\u00eanio Maligno. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segue-se, por \u00f3bvio, filosofias obscuras que oscilam entre a criptografia (Hegel &amp; Husserl Inc.) e o <em>non-sense<\/em> (Kant S.A.) nutridas por uma patol\u00f3gica desconfian\u00e7a da Mente e do Mundo &#8211; e, sobretudo, da presumida rela\u00e7\u00e3o de verdade entre ambos. N\u00e3o \u00e0 toa, Wittgenstein falar\u00e1 em uma &#8220;fun\u00e7\u00e3o terap\u00eautica&#8221; ao referir-se \u00e0 sua filosofia e denunciar\u00e1 o que chamou de, agora n\u00e3o me ocorre a express\u00e3o exata, de feiti\u00e7o da linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, por \u00f3bvio (express\u00e3o que n\u00e3o cansarei aqui de repetir), na impossibilidade de crer nas representa\u00e7\u00f5es sens\u00edveis do mundo e dos conceitos que da\u00ed extraio seja para desenvolv\u00ea-las, seja para corrigi-las, ser\u00e1 preciso sobrepor ao Mundo uma segunda camada, essa, sim, puramente humana: a linguagem. E acreditar que da sua an\u00e1lise, digamos, l\u00f3gica, se obter\u00e1 alguma forma de n\u00e3o mais &#8220;correspond\u00eancia&#8221;, mas de &#8220;consist\u00eancia&#8221; entre minhas representa\u00e7\u00f5es e os eventos que por suposto ocorrem fora da Mente , no que ser\u00e1 chamada n\u00e3o mais de Mundo, mas de mundo fenom\u00eanico. O aristot\u00e9lico-platonismo subjetivista de Kant \u00e9 um monstrengo trivial, vulgar, mas devastador. O espiritismo hegeliano segue por outras vias, mas chega ao mesmo lugar nenhum.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual a diferen\u00e7a essencial que os separa de Descartes?<br>Descartes n\u00e3o discute a verdade intuitivamente dada das representa\u00e7\u00f5es mentais mas quer buscar para elas uma consist\u00eancia metafisica &#8211; que necessariamente nos conduz \u00e0 ideia de Deus, de Mente ou Alma, e de Mundo.<br><br>Incapazes de aceitar qualquer conclus\u00e3o que repouse sobre esses fundamentos (porque n\u00e3o souberam completar o percurso do experimento metaf\u00edsico cartesiano)  os &#8220;obscurantistas&#8221; Hegel e Kant ficaram aprisionados no intervalo entre a Primeira e a Segunda Medita\u00e7\u00e3o, aguardando que  &#8220;lhes abram a porta ao p\u00e9 de uma parede sem porta&#8221;, confiando que da prolixa produ\u00e7\u00e3o de palavras emerja a f\u00f3rmula m\u00e1gica que revele a &#8220;verdadeira verdade&#8221;: como Espinosa, eles tamb\u00e9m s\u00e3o produtores de lentes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud, sem deixar de ser alem\u00e3o, seguir\u00e1 o caminho inverso. Em vez de buscar uma sa\u00edda que n\u00e3o a cartesiana, ele escava o fundo do abismo e desce aos subterr\u00e2neos e literalmente descobre o que chamar\u00e1 de Inconsciente. A linguagem n\u00e3o mais ser\u00e1 tratada como a interface entre a mente e o mundo fenom\u00eanico, cuja precis\u00e3o repousa numa sempre problem\u00e1tica consist\u00eancia, mas a janela involunt\u00e1ria para um outro mundo, tanto mais n\u00edtido em sua obscuridade quanto mais sugestivos seus erros e atos falhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, Freud \u00e9 a \u00fanica novidade depois de Descartes? <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud percebe que nesse lugar o movimento n\u00e3o \u00e9 de sa\u00edda, mas de entrada. E descobre o inconsciente. Ou melhor: na aus\u00eancia dos sentidos, Freud descobre a imagina\u00e7\u00e3o. A parte de n\u00f3s menos submetida ao intelecto e mais pr\u00f3xima da voli\u00e7\u00e3o &#8211; e dos sentidos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de um n\u00edvel de livre associa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para o bom funcionamento do sistema \u00e9 interessant\u00edssimo. E que esse n\u00edvel tenha de ser necessarimanete pr\u00e9-linguistico parece obvio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma parte do intelecto deve permanecer prim\u00e1ria, livre, pr\u00e9-lingu\u00edstica para que a pr\u00f3pria linguagem possa funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa descoberta freudiana \u00e9 a maior novidade desde as Medita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud pensa como um alem\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 exatamente um alem\u00e3o. <br>Porque \u00e9 alem\u00e3o, n\u00e3o consegue completar a experi\u00eancia metaf\u00edsica e despertar do outro lado. Mas porque \u00e9 judeu (como Kafka), ele (aterrado pelo pesadelo kantiano) cava, desce, afunda para ultrapassar as muralhas do solipsismo: o idealismo alem\u00e3o \u00e9 um gueto.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque n\u00e3o consegue chegar ao &#8220;eu penso&#8221;, Freud maravilhosamente passa a pensar <strong>como se n\u00e3o houvesse eu penso<\/strong>?<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m podemos imaginar que Freud chegue ao outro lado, encontre o &#8220;Cogito&#8221;, mas em vez de seguir o percurso cartesiano, decida voltar para investigar as profundezas da escurid\u00e3o e do sil\u00eancio.<br><br>Freud \u00e9 um Escafandrista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud quer explorar a obscura infinitude do Zero que antecede o Um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa outra dimens\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 ainda eu nem mundo. N\u00e3o h\u00e1 sequer Deus. Depois do Cogito, Descartes recupera o Mundo como mem\u00f3ria. L\u00e1 para onde Freud retorna, no \u00e2mbito pr\u00e9-lingu\u00edstico, o que h\u00e1 \u00e9 a <strong>errante<\/strong> imagina\u00e7\u00e3o que perdura em seu di\u00e1logo cego com os sentidos: e\/ou s\/ou ou s\u00f3 sonho?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Quarta Medita\u00e7\u00e3o, Descartes se pergunta &#8220;por que erro?&#8221; A resposta \u00e9 desconsertante: porque minha vontade \u00e9 infinita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui uma digress\u00e3o: Vontade em Descartes, entendida como &#8220;vontade em geral&#8221;, ser\u00e1 melhor denominada &#8220;Voli\u00e7\u00e3o&#8221;, uma vez que acredito que a Voli\u00e7\u00e3o tem dois modos: Voluntas (modo positivo) e Noluntas (modo negativo) que \u00e9 exatamente o modo da voli\u00e7\u00e3o acionado por Descartes em face da hip\u00f3tese do G\u00eanio Maligno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vontade ou Voli\u00e7\u00e3o \u00e9 o que em n\u00f3s desdenha do Entendimento porque ele \u00e9 finito &#8211; nos diz mais ou menos Descartes &#8211; porque nossa Voli\u00e7\u00e3o \u00e9 infinita. Freudianamente pensando, acho que a Voli\u00e7\u00e3o (em seus dois modos simultaneamente dados) \u00e9 o Desejo, o desejo de reproduzir, de sobreviver, de amar e ser amado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o drama ontol\u00f3gico do cartesianismo : a Voli\u00e7\u00e3o de viver n\u00e3o conhece limites, <em>imago dei <\/em>em mim. Por outro lado, h\u00e1 o Mundo. Cabe ao Entendimento, limitado, mediar a rela\u00e7\u00e3o desse ser primordialmente desejante &#8211; que \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o eg\u00f3latra &#8211; com o Mundo &#8211; que \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o relacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud assinaria embaixo, acho eu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Heidegger recupera a ideia de esquecimento. Esquecemos do corpo, do Mundo, dos seres. Esquecemos do Ser, acho que dir\u00e1 Heidegger. 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