{"id":446,"date":"2023-08-22T21:58:04","date_gmt":"2023-08-22T21:58:04","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=446"},"modified":"2023-08-22T21:58:06","modified_gmt":"2023-08-22T21:58:06","slug":"o-ser-se-diz-de-muitos-modos-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=446","title":{"rendered":"O ser se diz de muitos modos 1"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este \u00e9 um  s\u00e9rie de cinco posts mais ou menos longos mas divididos em trechos curtos e mais ou menos aut\u00f4nomos. H\u00e1 portanto v\u00e1rios pontos de respiro.<br> Leia como um bate-papo num bar a beira da praia. A conversa gira, vai e volta, negaceia:  roda de capoeira, jam session. Mas sempre em torno de um ponto: os efeitos alienantes da epistemologia kantiana. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Eles d\u00e3o sequ\u00eancia a reflex\u00e3o come\u00e7ada em <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=417\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=417\">Groucho Marx e a epistemologia kantiana<\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os links da s\u00e9rie<\/strong>:  <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=446\">1 <\/a>&#8211; <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=455\">2 <\/a>&#8211; <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=464\">3 <\/a>&#8211; <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=466\">4 <\/a>&#8211; <a href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=469\">5 <\/a><br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tao tem olhos de r\u00e9ptil e salta como um s\u00edmio: ela v\u00ea e se move diferente de mim. E no entanto, concordamos quando brincamos de desafiar o espa\u00e7o e o tempo, o que \u00e9 pr\u00f3prio de todo jogo. Isso significaria que ela partilha comigo as mesmas <em>formas da sensibilidade?<\/em><br><br>Nesse caso, n\u00e3o se enfraquece o cetismo impl\u00edcito no kantismo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C\u00e9tico de qu\u00ea, se partilhamos  com destreza o mesmo espa\u00e7o e tempo? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Repito: c\u00e9tico de qu\u00ea? Da <em>coisa em si<\/em>? Mas o que se quer dizer com isso, &#8220;coisa em si?&#8221; ? N\u00e3o ser\u00e1 a coisa em si essa partilha, esse entendimento comum que temos eu e a gata, n\u00f3s dois e as mariposas, e tudo mais ao redor? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kantianamente isso significaria que rodamos o mesmo <em>sistema operacional.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, se \u00e9 assim, por que reivindicar mais essa camada se posso pensar o processo todo como uma rela\u00e7\u00e3o direta sem intermedi\u00e1rios? <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O idealismo seria ent\u00e3o uma <em>redund\u00e2ncia<\/em>? <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Coisa em si,<\/em> se entendido como ess\u00eancia, \u00e9 isso que faz de Tao um gato. Um gato f\u00eamea. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas e ela, Tao, singular\u00edssima, como tudo mais? Ao ganhar um nome ela j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais simplesmente um gato f\u00eamea, mas a Tao<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aparentemente essa <em>singularidade<\/em> s\u00f3 se realiza havendo um outro: nossa sant\u00edssima dualidade, que se completa como trindade por esse la\u00e7o que se cria entre n\u00f3s e nos une, eu e a gata, com nossos nomes, sons, gestos, jogos e sil\u00eancios.  <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coisa, em si, para si, j\u00e1 o demonstrara Descartes, \u00e9 uma <em>dura\u00e7\u00e3o vazia de conte\u00fado.<\/em> Fora da sua rela\u00e7\u00e3o com o Mundo, ela n\u00e3o \u00e9 propriamente nada al\u00e9m de um ser que pensa. Um quase-nada, que \u00e9 o mais longe que consigo ir, se adota a via da noluntade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Noluntade: precisamos ressuscitar esse conceito&#8230;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse autoconhecimento intr\u00ednseco \u00e9 pr\u00f3prio de todos os seres: a Tao sabe que \u00e9 gato. E n\u00e3o quer ser outra coisa. A nossa marca diferencial \u00e9 a linguagem &#8211; ou at\u00e9 mais exatamente, a escrita: eu posso dar conta como agora dos meus estados de autoconsci\u00eancia. Ela n\u00e3o &#8211; ou n\u00e3o como eu. Por escrito. Sim, h\u00e1 os gritos, os mios, as mordidas.. Mas ainda que a escove diariamente a seu pedido, n\u00e3o lhe posso escrever uma carta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Descartes, essa singularidade, uma vez estabelecida, isso que chamam muito imperfeitamente de Cogito, sai em busca  de um par e por isso come\u00e7a a indagar aquilo que ele pode deixar-se lembrar &#8211; ou imaginar? Essa quest\u00e3o n\u00e3o se coloca ainda no \u00e2mbito onde ele est\u00e1: na presun\u00e7\u00e3o hiper-idealista de que n\u00e3o h\u00e1 mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E por meio desse invent\u00e1rio, Descartes chega \u00e0 ofuscante ideia de infinito, inenarr\u00e1vel, mas que permeia tudo, como pot\u00eancia de ser, como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade de toda coisa ser o que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dos momentos mais belos da literatura, quando Descartes abre os olhos e faz dissolver um peda\u00e7o de cera na chama da vela e a cera transmuta-se em outra coisa inteiramente diversa do que ainda h\u00e1 pouco fora.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas &#8211; e aqui come\u00e7a a virada realista &#8211; ele a reconhece como a <strong>mesma cera<\/strong>. E sobretudo ele percebe que a despeito das infinitesimais varia\u00e7\u00f5es de forma que ela poderia ter tomado no processo ele ainda assim a reconheceria como <strong>a mesma cera.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ess\u00eancia pl\u00e1stica, quase-inomin\u00e1vel, um campo de possibilidades de ser, virtualmente dado, simult\u00e2neo a si mesmo, e por isso, dif\u00edcil de reduzir \u00e0 linguagem sucessiva.<br><br>Qualquer descri\u00e7\u00e3o dessa ideia de infinito ser\u00e1 sempre imperfeita, um desafio \u00e0 linguagem: h\u00e1 coisas que s\u00f3 se dizem por meio da matem\u00e1tica &#8211; e <em>Oppie <\/em>ocncordaria comigo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sera muito dificil perceber o quanto isso reduz o kantismo a um jogo inutil, em busca de uma coisa em si que s\u00f3 existe como rela\u00e7\u00e3o? que n\u00e3o existe como coisa est\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quimera dos <em>ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori<\/em> \u00e9 o ponto de partida de Kant.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um silogismo t\u00e3o banal que chega a parecer falso:<br><br>1) Se todo conhecimento deriva da experi\u00eancia <em>repetida<\/em> &#8211; e toda experiencia \u00e9 contingente, ressalte-se, s\u00f3 pra complicar &#8211; o conhecimento resulta da reflex\u00e3o sobre esse ac\u00famulo e ser\u00e1 sempre t\u00e3o imperfeito quanto o sujeito que a produz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria um hiper aristotelismo, um realismo bem cru? Acho que resultaria nisso, como acabou resultando, Mas \u00e9 tamb\u00e9m um princ\u00edpio de economia e de prud\u00eancia: todo conhecimento \u00e9 parcial. Nem exatamente por defici\u00eancia do sujeito mas pela complexidade do objeto.  O conhecimento seria portanto sint\u00e9tico e a posteriori. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Voltemos \u00e0s premissas de Kant:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2) Mas a verdade tem de ser necess\u00e1ria, ela \u00e9 universal  isto \u00e9 valida todo tempo em todos os cen\u00e1rios, Portanto a priori. Mas justamente por isso, ela \u00e9 anterior a qualquer experi\u00eancia (a priori) e imut\u00e1vel (n\u00e3o lhe posso acrescentar novas notas a partir da experi\u00eancia (conhecimento sint\u00e9tico) mas apenas decomp\u00f4-la por an\u00e1lise (conhecimento anal\u00edtico). Logo o conhecimento da verdade \u00e9 a priori e anal\u00edtico. N\u00e3o h\u00e1 possibilidade portanto de <em>verdades novas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3) Logo chegamos a um impasse: como seria poss\u00edvel um conhecimento ao mesmo tempo sint\u00e9tico e a priori? Ou dito de outro modo: como conciliar a <em>t\u00e1bula rasa <\/em>de Rousseau com o empirismo de Hume &#8211; as duas leituras que mais impressionam Kant na fase pr\u00e9-Cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque, se da experi\u00eancia do Mundo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel obter sen\u00e3o verdades parciais e a an\u00e1lise das verdades universais nada me revela de novo, est\u00e1 pronto o  cen\u00e1rio para se concluir que se a verdade n\u00e3o vem do mundo, ela s\u00f3 pode ir ao mundo, invertendo o fluxo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis a <em>boa nova <\/em>do kantismo com seus ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori: o kantismo pretende ser uma <em>Revela\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O kantismo \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o complicada para um problema inexistente. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o estou nem um pouco familiarizado com o pensamento de Hume, suponho que o que choca Kant \u00e9 o <em>sensualismo<\/em> de Hume.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se perguntado sobre a possibilidade de ju\u00edzos sint\u00e9ticos a priori, Hume, acredito, responder\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. O conhecimento \u00e9 sempre deduzido da nossa prec\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o com o mundo.  \u00c9 portanto a posteriori e contingente. Sacrifica-se o ideal da universalidade no altar de um hiperrealismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, acredito que choca a Kant ter de abrir de suas &#8220;fixa\u00e7\u00f5es&#8221; de suas certezas subjetivas A ideia daquele an\u00e3ozinho emperiquitado passando todo dia \u00e0 mesma hora na minha porta \u00e9 um exemplo folcl\u00f3rico do <em>espirito kantiano<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele precisa de algo que seja fixo, uma verdade pra chamar de sua: a <em>derradeira <\/em>epistemologia. Um lugar para a sua quimera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para acomod\u00e1-la, Kant ir\u00e1 cortar os nexos que unem a mente e o Mundo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O kantismo \u00e9 uma especie <em>platonismo solipsista<\/em> onde a minha mente \u00e9 o mundos das ideias que, atravessada pela cora dos dados sensiveis, projeta simulacros fenom\u00eanicos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para dar conta da &#8220;raz\u00e3o&#8221;, Kant incorpora Arist\u00f3teles em seu castelo <em>de cartes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tudo t\u00e3o sem imagina\u00e7\u00e3o, t\u00e3o sem arte, que \u00e9 impressionante que perdure &#8211; a n\u00e3o ser <em>como sintoma<\/em> &#8211; j\u00e1 o perceber\u00e1 Nietzsche em <em>O Crep\u00fasculo dos \u00cddolos. <\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Kant,  aquilo que vejo \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o que a minha mente faz do mundo. Reparem: ela pode at\u00e9 coincidir com as coisas do mundo, como o retrato coincide com a pessoa, mas j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais como ter certeza. E, at\u00e9 certo ponto, essa certeza se torna irrelevante, pois o v\u00ednculo ontol\u00f3gico j\u00e1 foi rompido..<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante ressaltar que Kant \u00e9 um homem casto. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 um s\u00e9rie de cinco posts mais ou menos longos mas divididos em trechos curtos e mais ou menos aut\u00f4nomos. 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