{"id":294,"date":"2023-05-30T23:23:34","date_gmt":"2023-05-30T23:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=294"},"modified":"2023-08-02T22:38:27","modified_gmt":"2023-08-02T22:38:27","slug":"ulisses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=294","title":{"rendered":"Ulisses"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 muito tempo n\u00e3o chegava t\u00e3o perto do mar. T\u00e3o perto a ponto da voz do mar se sobrepor ao ru\u00eddo da cidade \u00e0s suas costas. A voz do mar, que desde a inf\u00e2ncia o impressionava porque de t\u00e3o forte se fazia gravar no interior das conchas. Lembrava-se de ficar por longos momentos, sozinho, sentado nos degraus da escada da casa de sua tia, com uma grande concha que servia de enfeite encostada na orelha, ouvindo, encantado, o que lhe diziam ser a voz do mar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, conforme movia a cabe\u00e7a ligeiramente, conseguia ouvir o mar em toda a sua plenitude. Uma plenitude assustadora, n\u00e3o fosse a respeitosa intimidade que o unia a esse ser colossal: o mar. Via seu dorso evoluir lentamente desde o horizonte distante at\u00e9 vir, dobrando-se sobre si mesmo, se arrebentar diante dele, num turbilh\u00e3o de branca efervesc\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"466\" src=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/800px-Seurat_bathers-700x466.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-296\" srcset=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/800px-Seurat_bathers-700x466.png 700w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/800px-Seurat_bathers-300x200.png 300w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/800px-Seurat_bathers-768x511.png 768w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/800px-Seurat_bathers.png 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Georges Seurat,&nbsp;<em>Une baignade \u00e0 Asni\u00e8res<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um animal imenso, incessante, indescrit\u00edvel que se espalhava igual por todas as praias do mundo, as unindo todas numa simultaneidade de espa\u00e7o e tempo que nem o sol rivalizava. O mesmo mar que lambera os p\u00e9s de Ulisses vinha agora lhe beijar as m\u00e3os. Era ele ent\u00e3o tamb\u00e9m Ulisses em sua muda contempla\u00e7\u00e3o do mar nas areias solit\u00e1rias ao cair da tarde chuvosa e fria. No c\u00e9u nublado, a lua cheia, suave e firme. furava as nuvens com a sua luz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que tinha ele a ver com a cidade \u00e0s suas costas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ru\u00eddo met\u00e1lico e a fuligem dos carros, a desconfian\u00e7a e a pressa estampada nos olhos de tantos, o ostensivo mau gosto dos pr\u00e9dios que tomaram o lugar das casas, cuja singeleza era poss\u00edvel deduzir das poucas que ainda sobraram e resistiam, fechadas em si mesmas: o que ele tinha a ver com tudo isso?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saltara na \u00faltima esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4 e viera andando devagar e absorto por dentro da cidade, por caminhos abertos na pedra, at\u00e9 dar na lagoa. O ar \u00famido e frio, a chuvinha insidiosa e sonsa, esvaziavam as cal\u00e7adas, ressaltando a melancolia da natureza domesticada que ornamenta os bairros mais ricos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passara duas semanas em um lugar quase selvagem, onde os p\u00e1ssaros ainda n\u00e3o haviam aprendido a temer os homens e onde os homens de tudo faziam para que eles jamais viessem a tem\u00ea-los. Voltara havia uns poucos dias e a paisagem cotidiana agora se exibia na exuber\u00e2ncia de sua tristeza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teria Ulisses vacilado ao pisar de novo em \u00cdtaca? N\u00e3o sabia, mas ele em si mesmo n\u00e3o encontrava tra\u00e7o de vacila\u00e7\u00e3o. Enquanto esperava diante do mar a hora marcada para o encontro, sentia-se \u00edntegro, calmo e vazio. Um vazio bom que era como uma esp\u00e9cie de ref\u00fagio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cheiro acre do mar sempre o inebriara. Podia senti-lo penetrar suas narinas e um frescor revigorante ir lhe impregnando todo o corpo. Aos poucos, sua respira\u00e7\u00e3o foi tomando o mesmo compasso do mar. Sentia-se &#8211; e nada mais esperava da vida. Respirou mais fundo e o peito se expandiu, desmesuradamente comovido.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:31% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"1050\" src=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1-700x1050.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-295 size-full\" srcset=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1-700x1050.png 700w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1-200x300.png 200w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1-768x1152.png 768w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1-1024x1536.png 1024w, https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/cronicaspostais-1.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/gp\/product\/B00D64785M\/ref=dbs_a_def_rwt_hsch_vapi_tkin_p1_i2\">Cr\u00f4nica publicada na colet\u00e2nea <em>Postais de Mim<\/em><\/a>, \u00e0 venda na Amazon.<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo n\u00e3o chegava t\u00e3o perto do mar. 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