{"id":1052,"date":"2026-09-26T00:23:04","date_gmt":"2026-09-26T00:23:04","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=1052"},"modified":"2026-09-26T00:23:04","modified_gmt":"2026-09-26T00:23:04","slug":"a-tragedia-de-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?p=1052","title":{"rendered":"A trag\u00e9dia de existir"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos condenados \u00e0 liberdade. Nossa condi\u00e7\u00e3o de criatura finita, nossa irrevog\u00e1vel conting\u00eancia, a isso nos obriga. N\u00e3o determinamos nosso nascimento nem nossa morte; nem como somos ou o que somos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No que diz respeito \u00e0 Vida, assim \u00e9: ela nos ocorre sem pedirmos e se encerra sem querermos e, entre um momento e outro, nada ocorre que n\u00e3o esteja marcado por circunst\u00e2ncias que nos ultrapassam &#8211; mais ou menos, segundo a nossa sorte. E por todo esse tempo somos por isso obrigados a escolher, a exercer essa liberdade que nos imp\u00f5e a conting\u00eancia, e sempre sob pena de pagar at\u00e9 com a vida pela escolha errada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso a liberdade nos pesa como uma forma de desamparo: estamos s\u00f3s &#8211; somos apenas n\u00f3s, nossas circunst\u00e2ncias e nossas escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quem o acaso ou a provid\u00eancia dotou de alguma riqueza, talvez esse peso n\u00e3o seja t\u00e3o evidente. Mas aos desassistidos, que cotidianamente enfrentam uma s\u00e9rie de percal\u00e7os para simplesmente ir e voltar do trabalho, a tens\u00e3o de ser livre difere pouco daquela que deveria acompanhar os homens no estado de natureza. Enfim para a maioria, a vida ainda \u00e9 uma selva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um evidente paradoxo em uma liberdade que se imp\u00f5e como necess\u00e1ria, obrigat\u00f3ria, inescap\u00e1vel. E dessa tragicidade deriva outra: toda escolha tem consequ\u00eancias e corrigi-las, quando \u00e9 o caso, implica no m\u00ednimo em atrasos e recuos, em reinvestimentos e escusas, que pagamos na moeda que nos \u00e9 mais escassa: o tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda criatura \u00e9 livre: da part\u00edcula mais simples ao homem &#8211; passando pelos animais e as plantas. Mas por que s\u00f3 ao homem essa liberdade soa tr\u00e1gica?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque s\u00f3 n\u00f3s conhecemos o arrependimento, a inveja, a patol\u00f3gica vontade de ser outro. Espremidos entre o \u201cse\u201d do ressentimento e o \u201cse\u201d da vingan\u00e7a, deixamos escapar o presente, que \u00e9 s\u00f3 o que de fato possu\u00edmos. Empapados de remorso e imperme\u00e1veis ao perd\u00e3o, falta-nos coragem at\u00e9 para a maldade genu\u00edna: nos esgueiramos entre as sombras da grandeza que n\u00e3o vemos em n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os animais e mesmo as plantas parecem n\u00e3o conhecer o arrependimento: como Deus, eles s\u00e3o o que s\u00e3o. Todo gato, por exemplo, \u00e9, todo tempo, o melhor gato poss\u00edvel &#8211; sem jamais desejar ser outra coisa &#8211; at\u00e9 o fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Raro encontrar tanta nobreza entre os homens.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque eu sou a \u00fanica criatura que tem o que chamo de \u201cdom\u00ednio do tempo\u201d. \u00c9 esse dom\u00ednio do tempo que nos permite perceber n\u00e3o s\u00f3 os ciclos temporais e o sempiterno presente (comuns a todas as criaturas), mas as ideias de passado e futuro e sobretudo, as ideias de passado poss\u00edvel, futuro condicionado e etc. Percebemos n\u00e3o s\u00f3 o passado, o presente e o futuro, como tamb\u00e9m o que poderia ter sido, o que ainda poder\u00e1 ser, como tamb\u00e9m o que antes nunca se pensara poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wittigenstein fala da necessidade das rela\u00e7\u00f5es &#8211; e portanto do amor: os objetos s\u00f3 existem em estados de coisas ou em liga\u00e7\u00f5o com outros objetos. Tudo \u00e9 rela\u00e7\u00e3o, enfim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos aristot\u00e9licos, os objetos s\u00e3o a mat\u00e9ria do mundo e as liga\u00e7\u00f5es entre os objetos (os estados de coisas poss\u00edveis) sua forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed (talvez) a tens\u00e3o que existe entre liberdade e amor: o amor exige a ren\u00fancia a uma liberdade que se imp\u00f5e como necess\u00e1ria. A brecha que existe \u00e9 o paradoxo de uma \u201cliberdade necess\u00e1ria\u201d que s\u00f3 pode ser atenuada pelo amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos condenados \u00e0 liberdade. Nossa condi\u00e7\u00e3o de criatura finita, nossa irrevog\u00e1vel conting\u00eancia, a isso nos obriga. 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