{"id":268,"date":"2023-05-26T19:35:29","date_gmt":"2023-05-26T19:35:29","guid":{"rendered":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?page_id=268"},"modified":"2023-05-27T00:42:01","modified_gmt":"2023-05-27T00:42:01","slug":"o-caso-kant","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?page_id=268","title":{"rendered":"O Caso Kant"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo desta texto \u00e9 apresentar um tema central do pensamento de Kant: as \u201cformas da sensibilidade\u201d que, na Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura, s\u00e3o abordadas na Est\u00e9tica Transcendental \u2013 \u201cest\u00e9tica\u201d aqui com o sentido de \u201cgnosiologia\u201d ou \u201cteoria do conhecimento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto est\u00e1 dividido em tr\u00eas partes. Na primeira, trato do modo como pensamos, num exerc\u00edcio do que podemos chamar de \u201cgnosiologia natural\u201d. Na segunda, veremos como Arist\u00f3teles e S\u00e3o Tom\u00e1s sistematizaram essa \u201cgnosiologia natural\u201d. E na terceira, veremos o quanto e como Kant se afasta dessa concep\u00e7\u00e3o, numa invers\u00e3o que ele chamou \u201ccopernicana\u201d, em refer\u00eancia a Cop\u00e9rnico, e que n\u00f3s bem poder\u00edamos chamar de psic\u00f3tica, por conta de tudo o que ser\u00e1 perdido.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comecemos ent\u00e3o \u201cpensando o pensamento\u201d. N\u00e3o \u00e9 uma tarefa t\u00e3o complicada, \u00e9 apenas algo que n\u00e3o estamos acostumados a fazer, pela simples raz\u00e3o de o pensamento funcionar t\u00e3o bem, de um modo t\u00e3o natural, espont\u00e2neo e eficaz, que nunca nos ocorre pensar como ele funciona. Sabemos, por experi\u00eancia, que ele funciona. E isso nos basta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tomemos um objeto muito simples: o clipe de papel. Todos n\u00f3s sabemos o que \u00e9 um clipe. Imagino que ningu\u00e9m ter\u00e1 dificuldade em conceb\u00ea-lo mentalmente.  Sabemos que h\u00e1 do clipe uma variedade imensa de tamanhos, cores, mat\u00e9rias e formas. Mas a ideia que unifica todos esse exemplares \u00e9 uma s\u00f3.  Reparem o quanto essa ideia \u00e9 vaga, gen\u00e9rica. Ela n\u00e3o tem cor, tamanho, um material espec\u00edfico. Exatamente por isso, nela \u201ccabem\u201d todos os clipes poss\u00edveis. \u00c9 como se houvesse um parentesco entre essa ideia do clipe e a ideia de infinito. Enfim, guardem bem este ponto: na id\u00e9ia que temos do clipe cabem todos os clipes poss\u00edveis. (2)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora vejam que curioso: houve um tempo em que o clipe n\u00e3o existia. Ele s\u00f3 come\u00e7ou a existir a partir de 1899, quando dois homens o patentearam ao mesmo tempo: o noruegu\u00eas Johann Vaaler, que patenteou o clipe na Alemanha; e o americano William Middlebrook, que o patenteou nos Estados Unidos. Middlebrook, no entanto, tem uma vantagem: ele patenteou n\u00e3o s\u00f3 o clipe, mas tamb\u00e9m a m\u00e1quina de fabricar clipes. Por isso, darei primazia a Middlebrook, para compreens\u00edvel desgosto dos noruegueses, que t\u00eam em Johann Vaaler um her\u00f3i e fazem do clipe um s\u00edmbolo nacional. Durante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista da Noruega na Segunda Guerra Mundial, usar um clipe na lapela foi um signo de oposi\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia que levou muita gente \u00e0 pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para n\u00f3s, o que importa \u00e9 saber que o clipe n\u00e3o existiu sempre. Ele foi criado. Isto \u00e9, ele existiu primeiro como ideia na cabe\u00e7a de algu\u00e9m. Depois tornou-se um objeto material. E, finalmente, tornou-se uma ideia na mente de todos n\u00f3s. H\u00e1 ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de circuito: ideia criadora \u2013 coisa criada \u2013 ideia da coisa criada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que seja poss\u00edvel dizer que a ideia da coisa criada \u00e9 uma ideia conservadora, no sentido de que ela \u00e9 a mem\u00f3ria viva da ideia criadora presente em todo objeto criado. Ela \u00e9 obtida por abstra\u00e7\u00e3o a partir de nossa experi\u00eancia com o objeto criado. No entanto, a ideia criadora obviamente n\u00e3o chega a algu\u00e9m por abstra\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 como uma esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o, intui\u00e7\u00e3o, inspira\u00e7\u00e3o que lhe aparece como que do nada. Podemos at\u00e9 dizer que a ideia original do clipe foi obtida por composi\u00e7\u00e3o de outras ideias &#8211; desde que com isso isso n\u00e3o se comprometa sua originalidade:, pois, ningu\u00e9m antes pensara um objeto com aquela forma para cumprir aquela determinada fun\u00e7\u00e3o que \u00e9 a de manter juntas folhas soltas. Certamente h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a ideia criadora do clipe, a primeira ideia original, e a ideia que existe \u2013 mais ou menos precisa segundo o conhecimento que cada um tenha dele \u2013 na mente de cada um de n\u00f3s, essa ideia que chamei de conservadora. Isto \u00e9, a ideia que temos do clipe nos remete de modo mais ou menos imperfeito \u00e0 ideia original.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto,  n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela forma, mas tamb\u00e9m pela finalidade que definimos o que \u00e9 um clipe. A finalidade do clipe \u00e9 juntar folhas de papel. Ent\u00e3o se lhes mostro um grampo de cabelo, todos concordar\u00e3o que o grampo n\u00e3o \u00e9 um clipe, mas, ainda assim, pode ser usado improvisadamente para juntar pap\u00e9is. Mas, se lhes mostro o monumento ao clipe que existe na Noruega, uma est\u00e1tua de sete metros em forma de clipe, e pergunto: \u201cIsto \u00e9 um clipe?\u201d, a resposta ser\u00e1 obviamente \u201cn\u00e3o\u201d, porque, apesar de ter a forma de um clipe, o monumento n\u00e3o serve para juntar pap\u00e9is. Dir\u00edamos simplesmente que se trata de uma representa\u00e7\u00e3o do clipe. Ent\u00e3o vejam que forma e finalidade andam juntas, mas a finalidade tem preced\u00eancia na defini\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias e das coisas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensemos agora na rosa. H\u00e1 uma variedade grande de rosas, mas, na ideia de rosa que tenho na mente cabem todas as rosas poss\u00edveis. Ent\u00e3o \u00e9 natural que n\u00f3s apliquemos agora \u00e0 rosa o mesmo racioc\u00ednio que aplicamos ao clipe e nos perguntemos: \u201cQuem criou a rosa? Na mente de quem ela existiu primeiro?\u201d Com essa pergunta saltamos de repente do \u00e2mbito mais ou menos tranq\u00fcilo de uma \u201cgnosiologia natural\u201d para o \u201cchiaro-oscuro\u201d de uma \u201cteologia natural\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 quando se trata de um ente da natureza \u00e9 que percebemos com clareza que a abstra\u00e7\u00e3o ou a ideia que temos de uma coisa tamb\u00e9m tem um car\u00e1ter ontol\u00f3gico, no sentido de atribuirmos a ela uma rela\u00e7\u00e3o imediata com a ideia original ou criadora dessa coisa \u2013 ainda que seja mais f\u00e1cil admiti-lo quando se trata do clipe do que quando se trata da rosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso \u00e9 at\u00e9 poss\u00edvel dizer que a filosofia \u2013 ou ao menos uma filosofia realista \u2013 se funda nesta ideia que de um modo t\u00e3o natural formamos imediatamente das coisas. Porque \u00e9 da\u00ed que se constr\u00f3i o conceito de verdade como correspond\u00eancia. Ou como dir\u00e1 S\u00e3o Tom\u00e1s, seguindo Arist\u00f3teles: a verdade como adequa\u00e7\u00e3o do intelecto \u00e0 coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque reconhecemos naturalmente que h\u00e1 uma ideia criadora na origem das coisas, de cada coisa. E se h\u00e1 uma ideia, h\u00e1 de haver um idealizador &#8211; n\u00e3o importa quantas etapas ou processos separem a ideia criadora da coisa criada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por conta da rela\u00e7\u00e3o de adequa\u00e7\u00e3o entre intelecto e coisa \u00e9 que falamos em sujeito e objeto. Porque o sujeito \u00e9 chamado de sujeito porque se sujeita \u2013 isto \u00e9, submete-se \u2013 ao objeto. Ele recebe \u2013 ou se preferirem um termo mais po\u00e9tico: acolhe \u2013 em seu esp\u00edrito a imagem do objeto particular \u00e0 sua frente e, nessa experi\u00eancia que pode durar anos, vai abstraindo dele as caracter\u00edsticas que lhe s\u00e3o absolutamente singulares e aquelas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias da esp\u00e9cie. Do mais geral ao mais espec\u00edfico, nada deve escapar ao sujeito atento. Penso aqui tanto na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico\/paciente quanto na rela\u00e7\u00e3o amante\/amado. Ou seja, quanto maior a aten\u00e7\u00e3o que se dedica ao objeto, maior ser\u00e1 o conhecimento que se tende a obter dele, tanto como esp\u00e9cie quanto como objeto singular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O idealismo, no entanto, inverteu esse conceito. Usa-se objeto como sin\u00f4nimo de &#8220;coisa&#8221; e \u201csujeito\u201d como sin\u00f4nimo de \u201ceu\u201d e passa-se a acreditar que a \u201csubjetividade\u201d tem um papel decisivo na determina\u00e7\u00e3o da objetividade das coisas. \u00c9 na verdade quase uma cren\u00e7a, quase uma supersti\u00e7\u00e3o moderna, a ideia de que a realidade \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja um exagero dizer que Kant \u00e9 o fundador dessa supersti\u00e7\u00e3o. H\u00e1 antecedentes modernos \u2013 Hume, Berkeley \u2013 e a pr\u00f3pria possibilidade do conhecimento verdadeiro (ou do acesso humano \u00e0 verdade das coisas) \u00e9 uma quest\u00e3o que acompanha a filosofia desde sempre. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que Kant deu ao problema, n\u00e3o uma mera roupagem nova, mas uma formula\u00e7\u00e3o original.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Immanuel Kant nasceu em 1724 e morreu em 1804, aos 80 anos. Era de fam\u00edlia luterana e pietista. O Pietismo foi uma esp\u00e9cie de Jansenismo protestante, profundamente puritano, cuja influ\u00eancia no pensamento de Kant n\u00e3o parece desprez\u00edvel, como veremos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entendermos o que Kant fez \u00e9 preciso aprofundar um pouco mais nossa reflex\u00e3o sobre o modo como pensamos.  Vejamos o que Arist\u00f3teles e S\u00e3o Tom\u00e1s fizeram dessa nossa percep\u00e7\u00e3o simples e natural da ideia das coisas, isso que chamei de \u201cgnosiologia natural\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltemos, pois, \u00e0 pergunta inc\u00f4moda: Quem criou a rosa? Ou, dito de outro modo, em analogia ao clipe: quem primeiro pensou a rosa? A primeira resposta a essa pergunta foi formulada por Plat\u00e3o, n\u00e3o em termos de \u201cquem\u201d, mas de \u201conde\u201d. Em Plat\u00e3o, essas Id\u00e9ias s\u00e3o entes que existem de fato em outra dimens\u00e3o: o Mundo das Id\u00e9ias.&nbsp; Quem as ter\u00e1 criado, Plat\u00e3o n\u00e3o nos explica de imediato. E ainda que ele venha a admitir a exist\u00eancia de um criador, as Ideias t\u00eam uma exist\u00eancia aut\u00f4noma. Elas s\u00e3o eternas, imateriais e imprimem sua forma na mat\u00e9ria dando origem \u00e0s coisas. Tudo que existe no mundo sens\u00edvel \u00e9, portanto, c\u00f3pia de uma ideia que existe nesse outro mundo intelig\u00edvel. Uma c\u00f3pia infiel, deca\u00edda em perfei\u00e7\u00e3o. As coisas decaem na Exist\u00eancia, decaem do mundo intelig\u00edvel para o mundo sens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Plat\u00e3o, o mundo sens\u00edvel tem pouco valor: ele, na verdade, nos ilude com sua beleza ef\u00eamera e ilus\u00f3ria. O verdadeiro conhecimento est\u00e1 na contempla\u00e7\u00e3o do mundo intelig\u00edvel, o mundo das id\u00e9ias imut\u00e1veis, a que as coisas nos podem servir de acesso. O mundo sens\u00edvel \u00e9 ent\u00e3o como uma escada para o mundo intelig\u00edvel, uma escada que deve ser descartada t\u00e3o logo alcancemos esse patamar mais alto. H\u00e1 como que uma dist\u00e2ncia entre as coisas e as id\u00e9ias que s\u00e3o sua origem. A forma segue eterna, enquanto sua c\u00f3pia degenera junto com a mat\u00e9ria que a comp\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica mais modesta que se pode fazer \u00e0 concep\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica \u00e9 que ela \u00e9 profundamente contra-intuitiva. Principalmente, porque carrega em si uma evidente desvaloriza\u00e7\u00e3o do mundo sens\u00edvel. Aos olhos das pessoas comuns, o mundo n\u00e3o nos aparece como algo degradado, mas, ao contr\u00e1rio, impregnado de uma genu\u00edna &#8211; e \u00e0s vezes perigosa &#8211; beleza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arist\u00f3teles foi o disc\u00edpulo amado de Plat\u00e3o. Arist\u00f3teles n\u00e3o rejeita o platonismo plenamente, mas discorda da exist\u00eancia de um Mundo das Id\u00e9ias \u00e0 parte do mundo sens\u00edvel &#8211; central no platonismo. Sua solu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais engenhosa, porque sistematiza aquela nossa percep\u00e7\u00e3o natural em termos filos\u00f3ficos. Com apenas quatro pares conceituais interdependentes \u2013 forma e mat\u00e9ria; ato e pot\u00eancia; causa e efeito; subst\u00e2ncia e acidente \u2013 Arist\u00f3teles vai resolver o problema da rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gico-ontol\u00f3gica entre as id\u00e9ias e as coisas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Arist\u00f3teles concorda com Plat\u00e3o que todas as coisas resultam de uma composi\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria e forma. E que a ideia que temos das coisas corresponde \u00e0 forma que as define como tal, como exemplar de uma esp\u00e9cie. Onde eles se afastam \u00e9 na resposta \u00e0 quest\u00e3o seguinte: onde est\u00e3o as formas?<br>Plat\u00e3o, como vimos, afirmava a exist\u00eancia de um mundo das formas, distinto do mundo sens\u00edvel. Arist\u00f3teles, ao contr\u00e1rio, dir\u00e1 que a forma das coisas est\u00e1 nas pr\u00f3prias coisas \u2013 o que soa at\u00e9 como uma obviedade para n\u00f3s hoje. E \u00e9 essa exatamente a beleza do pensamento aristot\u00e9lico: sua simplicidade altamente intuitiva.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltemos \u00e0 rosa.<br>N\u00f3s dissemos que na ideia da rosa est\u00e3o contidas todas as rosas poss\u00edveis \u2013 e at\u00e9 por isso ela \u00e9 uma ideia t\u00e3o vaga, uma esp\u00e9cie de sombra ou contorno gen\u00e9rico.<br>Chegamos a essa ideia pela abstra\u00e7\u00e3o das qualidades sens\u00edveis dos objetos particulares. Ou seja: passamos do particular ao universal e nesse di\u00e1logo entre o singular e o gen\u00e9rico vamos construindo nosso conhecimento do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rosa, nem tanto, mas a \u00e1rvore \u00e9 ideia que eu posso desenhar no ar e todos a reconhecer\u00e3o imediatamente. Assim como outras tantas ideias que podem ser reduzidas a formas simples, esquem\u00e1ticas e que aparecem das pinturas rupestres aos primeiros desenhos das crian\u00e7as. O que nos leva a crer que se trata de uma percep\u00e7\u00e3o intuitiva de algo que est\u00e1 de fato nas coisas, e n\u00e3o de um mero convencionalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 mais ou menos isso que Arist\u00f3teles vai perceber e sistematizar. Mat\u00e9ria e forma est\u00e3o nas coisas. Tomadas em separado mat\u00e9ria e forma s\u00e3o inapreens\u00edveis. S\u00f3 apreendemos o composto que s\u00e3o j\u00e1 as coisas realmente existentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O par forma\/mat\u00e9ria d\u00e1 conta ent\u00e3o da dimens\u00e3o espacial das coisas existentes ao nosso redor. Mas como explicar a mudan\u00e7a, isto \u00e9, como dar conta da dimens\u00e3o temporal delas? Pela introdu\u00e7\u00e3o do par ato\/pot\u00eancia, correlato temporal de forma\/mat\u00e9ria. O composto forma\/mat\u00e9ria \u00e9 dotado de uma potencialidade de ser espec\u00edfica de sua esp\u00e9cie que pode ser atualizada por causas externas ou internas adequadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomemos por analogia a semente da roseira. Nela est\u00e3o contidas potencialmente todas as rosas poss\u00edveis &#8211; passadas e futuras. \u00c9 uma imagem forte, po\u00e9tica at\u00e9. Mas verdadeira. Ela \u00e9 um fragmento do infinito, um abismo de Ser.  Na simples ideia que temos de cada coisa podemos perceber \u2013 ainda que de modo imperfeito, ou t\u00e3o perfeito quanto \u00e9 poss\u00edvel ao humano \u2013 essa presen\u00e7a do infinito como condi\u00e7\u00e3o mesma do pensamento &#8211; e do pr\u00f3prio ser das coisas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, \u00e9 de se ressaltar a justaposi\u00e7\u00e3o de dois termos aparentemente antag\u00f4nicos: presen\u00e7a em ato e potencialidade. A pot\u00eancia de ser rosa est\u00e1 l\u00e1 em ato, mas como pot\u00eancia. Uma nova dimens\u00e3o de exist\u00eancia se imp\u00f5e, abrindo todo um campo novo de especula\u00e7\u00e3o intelectual. Nessa abordagem a oposi\u00e7\u00e3o entre Ser e N\u00e3o-Ser, e Ser e Devir resolve-se de uma maneira  simples e elegante: o N\u00e3o-Ser n\u00e3o \u00e9, simplesmente. E o Devir est\u00e1 j\u00e1 dado no Ser, indissoci\u00e1vel dele &#8211; n\u00e3o como necessidade, mas como conting\u00eancia,  ressalte-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obviamente, para que essa potencialidade se atualize, isto \u00e9, para que essa semente venha a ser roseira e rosas que por sua vez gerar\u00e3o as sementes de novas roseiras e rosas, indefinidamente, ela depende da realiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es que, por sua vez, quanto mais adequadamente satisfeitas, mais assegurar\u00e3o a qualidade de seus frutos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enfim, para explicar que a forma est\u00e1 na pr\u00f3pria coisa e n\u00e3o em alguma outra dimens\u00e3o, Arist\u00f3teles introduz um novo par conceitual correlato ao par \u201cforma e mat\u00e9ria\u201d: o par \u201cato e pot\u00eancia\u201d. De tal modo que o ato est\u00e1 para a forma assim como a pot\u00eancia est\u00e1 para a mat\u00e9ria.\u00c9 a ideia de pot\u00eancia se atualizando no tempo e no espa\u00e7o que explica para Arist\u00f3teles a mudan\u00e7a que \u00e9 a express\u00e3o pr\u00f3pria do Ser das criaturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falta ainda um par conceitual para fechar a abordagem aristot\u00e9lica: a no\u00e7\u00e3o de causa e efeito.<br>Pois, para que essa pot\u00eancia se atualize, \u00e9 preciso uma causa \u2013 no caso da semente da roseira, um conjunto de causas muito bem definido. A percep\u00e7\u00e3o de que tudo tem causa (e produz consequ\u00eancias) \u00e9 algo tido por \u00f3bvio porque \u00e9 condi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio pensamento. \u00c9 um princ\u00edpio: Tudo tem causa e conseq\u00fc\u00eancias &#8211; que, por sua vez, podem ser causa de novas consequ\u00eancias.  \u00c9 o que chamamos de cadeia causal. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se tudo tem uma causa, e se formos remontando de causa em causa, \u00e9 uma exig\u00eancia l\u00f3gica que em algum momento se diga: \u201cIsto tem de parar\u201d. Onde? Numa causa n\u00e3o causada. Essa causa n\u00e3o causada seria ent\u00e3o a causa primeira de tudo o mais. Se \u00e9 incausada \u00e9, portanto, incriada. Se ela \u00e9 incriada ela \u00e9 uma causa pura, ou seja, nela n\u00e3o h\u00e1 tra\u00e7o de pot\u00eancia. Portanto, \u00e9 ato puro. O que significa dizer que \u00e9, por exig\u00eancia l\u00f3gica, incessante e sempre atual. Logo, se a causa primeira cessasse de ser, tudo mais cessaria de ser imediatamente.<br>Ou seja: a Causa Primeira n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cria\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m conserva\u00e7\u00e3o de tudo.  A Causa Primeira \u00e9, portanto, origem e fonte de todas as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 o percurso trilhado por Arist\u00f3teles e depois por S\u00e3o Tom\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O entendimento dessa Causa Primeira como Deus \u00e9 o resultado de toda uma teologia que j\u00e1 est\u00e1 prefigurada no Evangelho de Jo\u00e3o. \u00c9 a Ele que nos remetem as id\u00e9ias que abstra\u00edmos das coisas. Como nos diz S\u00e3o Paulo: \u201cDesde a cria\u00e7\u00e3o do mundo, as perfei\u00e7\u00f5es invis\u00edveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam vis\u00edveis \u00e0 intelig\u00eancia, por suas obras\u201d (1Rom 1, 20). Ou seja, o mundo que enxergamos \u00e9 apenas o tra\u00e7o mais acess\u00edvel da Gloria de Deus.  As coisas, o mundo, tudo que existe, s\u00e3o como intermedi\u00e1rios entre o Homem e Deus. \u00c9 bel\u00edssimo perceber que no G\u00eanesis, Ad\u00e3o \u00e9 feito do barro, como uma esp\u00e9cie de s\u00edntese da Cria\u00e7\u00e3o. E depois \u00e9 chamado por Deus para junto com Ele nomear todas as coisas. Ent\u00e3o essa rela\u00e7\u00e3o de verdade, de intimidade at\u00e9, entre a mente humana e o mundo, entre o Homem e a Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma verdade profund\u00edssima, que nos obriga, a n\u00f3s cat\u00f3licos, a um vigoroso realismo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kant vai negar tudo isso. Ou para ser mais exato, vai inverter tudo isso. Por analogia \u00e0 invers\u00e3o produzida pelo sistema helioc\u00eantrico de Cop\u00e9rnico, que tira a Terra e coloca o Sol no centro do sistema, a auto-intitulada \u201crevolu\u00e7\u00e3o copernicana\u201d de Kant ir\u00e1 tirar o objeto do \u201ccentro\u201d, e colocar no lugar o homem, mas j\u00e1 n\u00e3o mais como sujeito, ao menos n\u00e3o no sentido cl\u00e1ssico de \u201cesp\u00edrito submetido ao objeto\u201d, como dissemos no come\u00e7o. De Kant em diante, o sujeito n\u00e3o est\u00e1 mais sujeito a nada. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 ele quem sujeita os objetos a uma forma determinada, como veremos agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para usar uma terminologia moderna, certamente estranha a Arist\u00f3teles e S\u00e3o Tom\u00e1s,  mas contra a qual eles n\u00e3o levantariam obje\u00e7\u00e3o, presumo, as coisas ao nosso redor podem ser definidas como entidades espa\u00e7o-temporais. Quando falamos de ato e pot\u00eancia, falamos de pot\u00eancias sendo atualizadas no tempo e no espa\u00e7o. Tempo e espa\u00e7o s\u00e3o, portanto, propriedades das coisas e do mundo. Isso nos parece a todos ineg\u00e1vel. Essa ser\u00e1 a originalidade de Kant: negar o ineg\u00e1vel ao senso comum e dar-lhe a forma de um sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kant dir\u00e1 que as no\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o e de tempo n\u00e3o est\u00e3o fora de n\u00f3s, como propriedades do mundo e das coisas criadas, mas dentro de n\u00f3s: s\u00e3o formas de nossa sensibilidade. Assim, quando nossos sentidos entram em contato com as coisas, imediatamente esses dados sens\u00edveis s\u00e3o formatados espa\u00e7o-temporalmente pela sensibilidade e ganham essa apar\u00eancia tridimensionalizada que elas t\u00eam em nossa mente. Mas em nossa mente apenas. Pois essa <em>imagem<\/em> n\u00e3o mant\u00e9m nenhuma rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria demonstr\u00e1vel com o objeto a que remete. Isso \u00e9 o mesmo que dizer que as imagens imediatas que temos das coisas n\u00e3o registram qualidades reais de objetos singulares, e por conseguinte, tampouco as id\u00e9ias s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es que apontam para a ess\u00eancia real dessas coisas, mas meras representa\u00e7\u00f5es mentais, sem nenhuma conex\u00e3o demonstr\u00e1vel com os objetos em si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Kant, o que vemos n\u00e3o \u00e9 a \u201ccoisa em si\u201d, mas a representa\u00e7\u00e3o mental que fazemos dela. Ou melhor ainda: que nos \u00e9 imposta por nosso aparato mental. Representa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o temos meios de saber se correspondem ou o quanto correspondem \u00e0s coisas em si. Por isso, Kant ir\u00e1 cham\u00e1-las de fen\u00f4meno e n\u00e3o de realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual a conseq\u00fc\u00eancia? De cara, j\u00e1 n\u00e3o podemos falar em ess\u00eancia, ideia ou forma obtida por abstra\u00e7\u00e3o. O que tempos \u00e9 simplesmente uma imagem que j\u00e1 n\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o com a coisa em si. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 propriamente uma ess\u00eancia no sentido ontol\u00f3gico do termo. \u00c9 um mero esquema mental. Portanto, j\u00e1 n\u00e3o temos mais, como sempre pens\u00e1ramos ter, acesso, por abstra\u00e7\u00e3o, \u00e0 ess\u00eancia das coisas criadas por Deus e, desse modo, ao pr\u00f3prio Deus, indiretamente. Nossa f\u00e9 perde aquela ancoragem na realidade de que nos j\u00e1 nos falava S\u00e3o Paulo na ep\u00edstola citada acima. Ao contr\u00e1rio, estamos cercados por uma coura\u00e7a fenom\u00eanica que nos separa irremediavelmente de Deus e do mundo. E que ironicamente \u00e9 produto irremedi\u00e1vel de nossa pr\u00f3pria mente &#8211; sem que nada possamos fazer. <em>Sola fides<\/em> seria nossa \u00fanica seguran\u00e7a, nesse caso. Uma f\u00e9 cega e sem fundamento: o pietismo familiar deixou sua marca na filosofia de Kant. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No pref\u00e1cio \u00e0 \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d, Kant afirma ter sido obrigado a negar o conhecimento de Deus de modo a dar lugar \u00e0 f\u00e9. N\u00e3o creio que haja na frase nenhum cinismo oculto. Mas \u00e9 certo que o kantismo abriu caminho para o ceticismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Peter Byrne (3) resume brilhantemente: \u201cEm contraste com o poder destrutivo de Robespierre, que matou apenas uma fam\u00edlia real, Kant produziu um terrorismo muito maior: Kant matou Deus\u201d. Sim, pois nossas representa\u00e7\u00f5es do mundo, em Kant, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o um elo de comunica\u00e7\u00e3o com o Criador, a Causa Primeira, mas a prova final do nosso isolamento ontol\u00f3gico: o que os homens partilham \u00e9, ao fim das contas, uma ilus\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A analogia com a Caverna de Plat\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. O mundo torna-se um hosp\u00edcio calmo onde todos compartilham o mesmo del\u00edrio. Ou um cinema, onde todos assistem ao mesmo filme como se fosse a realidade. \u00c9 evidente que num tal sistema a no\u00e7\u00e3o de verdade \u00e9 altamente inst\u00e1vel; ela existe como uma esp\u00e9cie de consenso involunt\u00e1rio, destitu\u00edda de qualquer valor ontol\u00f3gico ou metafisico. \u00c9 uma verdade fundada numa esp\u00e9cie de convencionalismo biol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9, enfim, nesse sentido, e s\u00f3 nesse sentido, que se pode compreender por que, em um ambiente kantiano, a verdade \u00e9 relativa. Ela \u00e9 relativa aos sujeitos e nem se pode dizer que ela sequer exista nesse contexto de vazio ontol\u00f3gico. A verdade facilmente se reduz a pontos de vista, opini\u00f5es subjetivas. E por mais que tentemos depois amarrar os sujeitos em \u201cimperativos categ\u00f3ricos\u201d, nada, a n\u00e3o ser a for\u00e7a bruta, ser\u00e1 capaz de ordenar esse mundo <em>kantianamente<\/em> determinado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A impress\u00e3o que tenho \u00e9 que, a partir do kantismo \u2013 ou, se preferirem, do subjetivismo moderno \u2013 o sujeito, ao assumir o lugar do objeto, coisificou-se. E o objeto, ao tomar o lugar do sujeito, humanizou-se \u2013 como farsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que se poderia mesmo dizer que, a partir de Kant, os objetos artificiais idealizados pela mente humana &#8211; como o clipe, por exemplo &#8211; tornaram-se at\u00e9 mais \u201cverdadeiros\u201d ou \u201cacess\u00edveis\u201d do que as coisas naturais, como a rosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois, se das coisas naturais n\u00e3o temos mais como atribuir \u00e0 ess\u00eancia que delas pens\u00e1vamos abstrair  qualquer valor ontol\u00f3gico real,  das coisas artificiais criadas pelos homens, como o clipe, exatamente por se tratar de objetos idealizados por outro homem, posso dizer que lhes conhe\u00e7o integralmente a origem,  pois sua ideia primeira n\u00e3o resulta de nenhum contato sens\u00edvel ao qual se adicionaram as formas espa\u00e7o-temporais da sensibilidade. \u00c9 uma ideia \u201cpura\u201d que os homens partilham entre si por interm\u00e9dio das coisas artificialmente criadas. As coisas artificiais s\u00e3o, por assim dizer, ontologicamente mais confi\u00e1veis.  \u00c9 como se literalmente cri\u00e1ssemos uma \u201csegunda\u201d Natureza \u2013 destitu\u00edda de ess\u00eancia, artificial, humanizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, se as id\u00e9ias que temos das coisas naturais s\u00e3o meras representa\u00e7\u00f5es de fen\u00f4menos, sem conex\u00e3o com qualquer ess\u00eancia que lhes garanta a condi\u00e7\u00e3o de verdade, elas tornam-se meros objetos (no sentido moderno que o conceito ganhou) ontologicamente inconsistentes: a Natureza se desnaturaliza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, se tudo se reduz \u00e0 ilus\u00e3o, a quest\u00e3o tentadora ser\u00e1 \u201cComo produzir ilus\u00e3o?\u201d. Da\u00ed tamb\u00e9m a obsess\u00e3o moderna pela educa\u00e7\u00e3o e pelo controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. \u00d3bvio: \u00e9 suposto que o bombardeio de dados sens\u00edveis com finalidades pr\u00e9-determinadas ser\u00e1 capaz de formar e direcionar os seres humanos para onde a \u201cvontade coletiva\u201d \u2013 um dos nomes que se pode dar \u00e0 coura\u00e7a fenomenol\u00f3gica kantiana \u2013 pretenda lev\u00e1-los. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil antever as distor\u00e7\u00f5es que um tal subjetivismo \u00e9 capaz de produzir. <\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O idealismo kantiano firmou-se como o contraponto do realismo aristot\u00e9lico-tomista. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 vimos que numa perspectiva realista toda coisa tem uma forma pensada que a afirma e conserva no Ser. No caso do clipe, ele foi primeiro pensado por Mr. Middlebrook antes de conhecer sua exist\u00eancia. De um ponto de vista metaf\u00edsico,  para todo clipe Mr. Middlebrooke \u00e9 Deus, pois, n\u00e3o fosse ele, os clipes jamais teriam existido &#8211; ainda que com isso n\u00e3o concordem os norueguenses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joseph Pieper, em um ensaio sobre o tomismo, (4), nos mostra que dizer, como S\u00e3o Tom\u00e1s, que tudo \u00e9 criatura, \u00e9 dizer que nada \u00e9 causa de si mesmo. Da nossa parte, isso \u00e9 f\u00e1cil de constatar: se f\u00f4ssemos causa de n\u00f3s mesmos, isto \u00e9, se nos tivesse sido poss\u00edvel tirar a n\u00f3s pr\u00f3prios do nada, ter\u00edamos poder suficiente para nos fazer imortais e indiferentes \u00e0 dor. O mesmo argumento \u00e9 facilmente estendido aos demais seres. \u00c9, portanto, evidente que n\u00e3o somos a causa de nosso ser. Por outro lado, se n\u00e3o somos causa de nossa cria\u00e7\u00e3o, tampouco, por conseq\u00fc\u00eancia, somos causa de nossa conserva\u00e7\u00e3o no ser \u2013 ou do contr\u00e1rio, novamente, nos garantir\u00edamos uma calma imortalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o se somos criaturas criadas e conservadas no Ser por Deus, logo todas as criaturas est\u00e3o vinculadas ao seu Criador por um la\u00e7o ontol\u00f3gico de verdade e realidade. Usando da mesma analogia de Pieper em seu texto, se o clipe existe na mente de um homem antes de se tornar um objeto real, do mesmo modo, todas as coisas existem em Deus como ideia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, S\u00e3o Tom\u00e1s dizia, como lembra Pieper, que n\u00e3o temos a capacidade intelectual e espiritual de esgotar a verdade sequer de uma mosca. Portanto, a verdade \u00faltima ou total de qualquer criatura nos \u00e9 inacess\u00edvel. Mas n\u00e3o \u00e9 uma inacessibilidade negativa,  como em Kant, mas de uma inacessibilidade positiva: as coisas s\u00e3o abismos inesgot\u00e1veis de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E aqui, para encerrar, voltamos ao come\u00e7o de nossa conversa, \u00e0quela id\u00e9ia que temos das coisas, vaga e gen\u00e9rica o bastante para abarcar virtualmente todos os exemplares poss\u00edveis de uma esp\u00e9cie \u2013 seja o clipe, seja a rosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como j\u00e1 disse acima, na simples ideia que temos de cada coisa podemos perceber \u2013 ainda que de modo imperfeito, ou t\u00e3o perfeito quanto \u00e9 poss\u00edvel ao humano \u2013 a Presen\u00e7a do infinito como condi\u00e7\u00e3o mesma do pr\u00f3prio pensamento.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Notas<\/strong>&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(1)<strong>&nbsp;Sobre o t\u00edtulo<\/strong>, me pergunto se a estrutura da filosofia de Kant n\u00e3o \u00e9 a mesma da psicose: o confinamento interno, a impossibilidade de empatia com o mundo exterior, a elabora\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria doen\u00e7a como sistema para retornar \u00e0 realidade, submetendo-a. Solipsismo, coura\u00e7a fenom\u00eanica, imperativo categ\u00f3rico: n\u00e3o haveria nessa trajet\u00f3ria o esbo\u00e7o de uma patologia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(2) Toda id\u00e9ia \u00e9 tamb\u00e9m o ind\u00edcio da presen\u00e7a da unidade na multiplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(3) \u201cIn contrast to the destructive power of Robespierre, who merely killed a royal family, Kant produces the greater terrorism. Kant killed Go\u201d Peter Byrne, Kant on God, Ashgate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(4) Joseph Pieper, Luz Inabarc\u00e1vel \u2013 o Elemento Negativo na Filosofia de Tom\u00e1s de Aquino, trad. Gabrielle Greggersen. (<a href=\"http:\/\/www.hottopos.com\/convenit\/jp1.htm\">http:\/\/www.hottopos.com\/convenit\/jp1.htm<\/a>), extra\u00eddo do livro The Silence of St. Thomas, de Joseph Pieper.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O objetivo desta texto \u00e9 apresentar um tema central do pensamento de Kant: as \u201cformas da sensibilidade\u201d que, na Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura, s\u00e3o abordadas&#8230;<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/?page_id=268\">Continuar lendo<span class=\"screen-reader-text\">O Caso Kant<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"iawp_total_views":1,"footnotes":""},"class_list":["post-268","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=268"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/268\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":276,"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/268\/revisions\/276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cafenasnuvens.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}