Estava passando em revista meus amigos blogueiros e parei para ler no blog da Bela (www.belacaleidoscopica.blogspot.com) trechos de uma carta de Hélio Pellegrino, descoberta por ela no livro "Lucidez embriagada", seleção de cartas do Hélio feita por sua neta, a cronista Antonia Pellegrino.
Como sempre acontece quando algo me agrada, fiz uma pesquisa na Internet, buscando por mais textos do Hélio e logo encontrei, no Releituras (www.releituras.com.br) desse meu outro amigo virtual, o Arnaldo Nogueira, uma das coisas mais bonitas que eu já li: um trecho extraído de sua "Autobiografia", onde Hélio conta o momento do ano de 1943 em que se decidiu pela psiquiatria (e, depois, pela psicanálise). É tão lindo o trecho, tão poético e comovente, que não vale resumo. Não se resumem poemas. Poemas se reproduzem na íntegra.
Então decidi fazer hoje algo que nunca fiz em quase sete anos de crônica: ocupar o espaço da crônica com um texto alheio. Liguei para minha amiga Maria Clara, filha do Hélio, e pedi mais que sua autorização informal; pedi sua benção, na invocação desse espírito luminoso e denso. E o momento, aliás, não poderia ser mais oportuno. Então, com vocês, um poema de vida (ou a vida feita poema) de Hélio Pellegrino:
"Lembro-me de uma aula de fisiologia nervosa, no segundo ano. O doente, com tabes dorsal, ao centro do anfiteatro escolar, era um velhinho miúdo, ex-marinheiro, vestido com o uniforme da Santa Casa, onde estava internado. Suas pernas, hipotônicas, atrofiadas, pendiam da mesa de exame como molambos inertes. Jamais me sairá da memória o antigo lobo-do-mar, exilado das vastidões marítimas, feito coisa, diante de nós. Suas andanças pelo mundo, seus amores em cada porto ficavam reduzidos, em termo de anamnese, a um contágio venéreo ocorrido décadas atrás. O velhinho, contrafeito, engrolava o seu depoimento, fustigado pelos gritos de "Fala mais alto!" com que buscávamos saciar nosso zelo científico. De repente, o desastre. Sem controle esfincteriano, o velho urinou-se na roupa, em pleno centro do mundo. Vejo-o, pequenino, curvado para frente, tentando esconder com as mãos a umidade ultrajante. Seu pudor, entretanto, nada tinha a ver com a ciência neurológica. Esta lavrara um tento de gala, e o sintoma foi saudado com ruidosa alegria, como um goal decisivo na partida que ali se travava contra a sífilis nervosa.
O velho ficou esquecido como um atropelado na noite. A aula prosseguiu, brilhantemente ilustrada. Os reflexos e a sensibilidade cutânea do paciente foram pesquisados com maestria. Agulhas e martelos tocavam sua carne - esta carne revestida de infinita dignidade, que um dia ressurgirá na Hora do Juízo. Meu colega Elói Lima percebeu, juntamente comigo, o acontecimento espantoso. "O marinheiro está chorando" - me disse. Fomos três a chorar.
Entre lágrima e urina, nasceu-me o desejo de me dedicar à psiquiatria. O choro do velho, seu desamparo, sua figura engrouvinhada sobre a qual parecia ter-se abatido todo o inverno do mundo, tudo me surgiu de repente como o grande tema de meditação, a partir de cuja importância poderia eu, quem sabe, encontrar um caminho."