Ultimamente tenho pensado em me tornar um pensador. Ora, dirá o leitor, para ser um pensador, basta pensar. Não é bem assim. Não quero apenas pensar, mas ser pago por isso. Logo, é preciso escrever teses e me tornar um doutor. Quem acompanha estas crônicas desde o início deve lembrar que, há uns três anos, lancei uma escola de filosofia, o Crepusculismo. Por coerência, pouco depois de despontar no firmamento das idéias elevadas, o Crepusculismo se recolheu às trevas de sua origem, e lá tem permanecido como um instrumento discreto e eficaz para a observação e análise da história e psicologia do ser humano, especialmente do brasileiro, esta invenção recente que tanto nos admira e exaspera.
Ainda que os fatos recentes arrisquem a trazer o Crepusculismo de novo ao centro dos debates filosóficos, nós, seus poucos e fiéis adeptos, lutamos para que ele permaneça como uma espécie de maçonaria.
Mas inspirado nos princípios centrais do Crepusculismo, tenho hesitado em propor uma tese à Academia que certamente me valeria o tão desejado título de doutor e a conseqüente "aposentadoria tranqüila", que é o fim último (ou melhor, primeiro) de todo brasileiro. Lembro ao leitor que FHC já tem a dele, Lula já tem a dele e quase todos os políticos também, mesmo antes de parar de trabalhar - ou de começar, depende do ponto de vista.
Minha tese em Ciência Política (seja lá que raios isso signifique) giraria em torno do conceito de "bom canalha". De Jean-Jacques Rousseau a Sigmund Freud, a percepção da alma humana passa, em pouco mais de 150 anos, de um ser intrinsecamente bom que é corrompido pela sociedade, para um ser intrinsecamente mal cuja vileza é contida pela cultura.
O mito do "bom selvagem", que Rousseau requentou de Montaigne, é talvez a última grande ilusão produzida pelos trópicos no imaginário europeu (a primeira seria o Barroco, mas esta é outra tese). Não consta que Freud tenha analisado algum político tropical para desenvolver suas teorias sobre a alma humana.
Mas a tese do "bom canalha", que pretendo desenvolver à luz do Crepusculismo para angariar um posto estável na burocracia pública educacional, bolsas de estudos e, por fim, uma "aposentadoria tranqüila", afirma que o homem não é intrinsecamente nem bom nem mau, mas apenas um espertalhão movido pelo instinto de sobrevivência, capaz de qualquer coisa para alcançar uma posição - e lá se manter - que lhe permita viver fazendo pouco ou nada fazendo, às custas do trabalho alheio.
Como não satisfaz à sofisticada consciência humana o simples mando, ele quer também ser adorado e aprovado por isso. Exige a quem se empenha em sustentá-lo que o faça de livre e espontânea vontade. E com prazer. Logo, é necessário seduzir e encantar a todos com discursos, trejeitos e promessas. Também em política, a propaganda é alma do negócio.
Eis, enfim, um breve resumo desta entidade julgada inexistente, a "democracia à brasileira", por aquele que primeiro a percebeu e nomeou, o saudoso jurista Sobral Pinto.
Exemplos do "bom canalha" não faltam na história contemporânea: rouba, mas faz; pai dos pobres; a cara do Brasil; ditador democrata. Mas ultimamente a "democracia à brasileira" parece ter alcançado sua plena maturidade e os "bons canalhas" disputam entre si, coloridos das mais variadas plumagens políticas, a simpatia do povo com discursos que, quanto mais deslavadamente mentirosos, mais sedutores se tornam ao ouvido popular.
Em poucos meses, já acumulei material de campo suficiente para requerer uma bolsa de, no mínimo, cinco anos que me custeie o desenvolvimento da tese. Só não sei ainda se procurarei uma entidade esquerdofrênica ou direitopata. Tudo dependerá de quem pagar melhor.